Educação amazônica incorpora cultura, ciência e território em projetos que preparam jovens para desafios climáticos e ambientais discutidos na COP.
(Foto: Divulgação)
Enquanto a COP-30 mobiliza líderes globais em Belém (PA) para discutir o futuro da Amazônia até o dia 21 de novembro, ganha força o debate sobre a necessidade de preparar novas lideranças capazes de compreender e defender a região. Autoridades brasileiras e representantes internacionais reforçaram que a floresta tem papel decisivo nas soluções climáticas e que esse protagonismo deve envolver tanto os povos tradicionais quanto as populações das grandes cidades amazônicas, como Manaus. Nesse contexto, a educação aparece como um dos caminhos estratégicos para formar cidadãos conscientes e comprometidos com o território.
Na Zona Centro-Sul de Manaus, duas escolas têm incorporado a Amazônia como eixo central de seus projetos pedagógicos, da Educação Infantil ao Ensino Médio. A proposta envolve cultura, literatura, ciência e identidade local como componentes do cotidiano escolar.
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Na Creche-Escola Bebê Bombom, o processo pedagógico valoriza experiências sensoriais e culturais. Ingredientes regionais aparecem na merenda para reforçar o reconhecimento de sabores amazônicos, e elementos da cultura local — como lendas, manifestações artísticas e festividades — são trabalhados em atividades lúdicas. Crianças crescem familiarizadas com personagens como Curupira, Iara e Boitatá, integrando referências amazônicas ao repertório infantil.
“A arte, a literatura e a cultura amazônica estão no centro das nossas práticas. É por meio delas que as crianças constroem a compreensão do lugar que ocupam no mundo. Queremos que entendam que a Amazônia é parte de quem elas são”, afirma Annik Valentine, diretora da creche-escola.
No Colégio Connexus, o Projeto Identidade Amazônica organiza o currículo a partir do estudo da região, de autores locais e de temas como biodiversidade, desmatamento e biopirataria. A iniciativa inclui visitas a comunidades ribeirinhas, unidades de conservação e instituições científicas, como INPA, UEA e Museu da Amazônia. Clubes temáticos, saraus literários, feiras de ciências e atividades interdisciplinares reforçam a integração entre conhecimento acadêmico e realidade amazônica.
Em 2025, um dos projetos da Feira de Ciências coincidiu com o tema da redação do vestibular Macro da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) — “Turismo na Amazônia: entre o desenvolvimento econômico e os impactos ambientais” — demonstrando afinidade com debates regionais.
Um dos destaques desse movimento é o estudante Eli Minev Benzecry, 17 anos, autor de uma pesquisa sobre o resgate do tubérculo nativo ariá (Goeppertia allouia), tradicional na alimentação indígena e ribeirinha. O trabalho ganhou reconhecimento internacional e levou o aluno a representar o Brasil na International Science and Engineering Fair (ISEF 2025), nos Estados Unidos, estimulando a retomada do cultivo do ariá em comunidades amazônicas.
O caso simboliza a proposta das escolas: unir formação acadêmica e identidade territorial.
“Buscamos equilibrar a identidade amazônica com uma formação sólida. É possível preparar o aluno para os desafios acadêmicos e, ao mesmo tempo, fortalecer o senso de pertencimento à região”, afirma Fabiano Souza, diretor do Connexus.
A iniciativa dialoga com conceitos formulados pelo economista e sociólogo Samuel Benchimol, que defendia um desenvolvimento amazônico socialmente justo, ecologicamente sustentável e centrado no amazônida. O pensamento do intelectual inspira parte da construção pedagógica sobre identidade regional.
Enquanto a COP-30 discute em Belém os caminhos para o futuro da Amazônia, experiências educativas em Manaus mostram que parte dessa transformação já começa na sala de aula — no despertar de crianças e jovens para a responsabilidade com o território onde vivem.