“Dança de Enganos”

Milton Hatoum volta a Manaus para lançar novo livro

O livro, publicado mais de vinte anos após obras como “Dois Irmãos” e “Cinzas do Norte”, chega ao público em um momento que o autor define como “um tempo de incertezas e até de perigo para a democracia”

Gabriel Machado
13/12/2025 às 09:36.
Atualizado em 13/12/2025 às 09:36

Milton Hatoum retorna a Manaus para lançamento de seu novo romance (Foto: Divulgação)

O escritor amazonense Milton Hatoum retorna a Manaus neste sábado (13), às 16h, para lançar seu novo romance, “Dança de Enganos”, na Banca do Largo - espaço que, para ele, carrega não apenas memória literária, mas também afetiva. O livro, publicado mais de vinte anos após obras como “Dois Irmãos” e “Cinzas do Norte”, chega ao público em um momento que o autor define como “um tempo de incertezas e até de perigo para a democracia”.

Segundo Hatoum, o romance estabelece um diálogo direto com esse cenário, sem abandonar sua característica abordagem intimista. “O passado nunca é um tempo cristalizado. Na literatura, o passado age, ele repercute no tempo presente”, afirmou ao BEM VIVER TV.

Em “Dança de Enganos”, ele revisita memórias, traumas e ambiguidades para construir uma narrativa em que vidas atravessadas pelo tempo revelam seus pontos cegos.

A memória, os afetos e os conflitos familiares - marcas profundas de sua obra - voltam a atravessar a nova narrativa, mas sob outra chave. Para o escritor, esses temas não se esgotam: “Os dramas familiares, os afetos e desafetos são sempre reinventados. Meu projeto sempre foi trabalhar com memória e imaginação”, disse.

Em “Dança de Enganos”, esse percurso ganha força com a presença da personagem Lina, mãe do narrador Martin, que ressurge com suas próprias memórias após ter desaparecido no livro anterior, “Pontos de Fuga”.

De volta à terrinha

O retorno a Manaus como palco de lançamento reforça a conexão entre o autor e a cidade onde nasceu e viveu parte da juventude. “Manaus é a cidade da minha infância e da minha primeira juventude. Eu sempre me emociono quando lanço livros aqui”, afirmou.

Ele lembra também a parceria afetiva com Joaquim Mello, fundador da Banca do Largo, onde obras anteriores também foram lançadas. “Fiz vários lançamentos lá, e ele sempre me deu muita força”.

No novo livro, Hatoum mantém o olhar crítico sobre o Brasil e sobre a Amazônia - uma postura que considera inseparável do ofício literário. O autor relembra nomes como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa para destacar que toda literatura de qualidade tem um viés crítico. “A política está em tudo: está no cotidiano, nas decisões, às vezes até nos nossos gestos”, observou.

Em “Dança de Enganos”, esse pano de fundo aparece como força silenciosa, mas decisiva.

A obra também expande o universo iniciado na trilogia “O Lugar Mais Sombrio”, ao adentrar as memórias de Lina e preencher lacunas deixadas anteriormente. “É o livro dela, escrito por ela. Um dia vou falar mais sobre isso, sobre como o narrador se torna uma narradora feminina”, antecipou.

Essa transformação acrescenta novas camadas à ficção e articula leituras sobre identidade, perda e reconstrução.

Narrativa múltipla

Embora o texto traga densidade temática, Milton Hatoum ressalta que o leitor encontrará uma narrativa múltipla - política, afetiva e profundamente introspectiva. A alternância entre tempos e vozes costura a “dança” mencionada no título, feita de mistérios, escolhas e revelações.

Mesmo com uma carreira consolidada e reconhecida, o escritor afirma que continua movido pela inquietação e pelo desejo - motores da sua escrita desde o início. “Não se escreve um romance sem paixão. Eu ainda tenho energia, esse fogo interior que me lança para a escrita”, comentou. E revela que já revisita antigos contos e elabora futuros romances, além de preparar a reedição de “Crônica de Duas Cidades”, escrito com Benedito Nunes.

O lançamento deste sábado marca, portanto, não só a chegada de “Dança de Enganos”, mas também a continuidade da trajetória literária de um autor que segue atento ao País, à memória e às contradições humanas. Como ele próprio sintetiza: “As inquietações são muitas. Quando você envelhece, você não se aquieta totalmente”.

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