Um dos pontos altos do disco é ‘Vozes na Cabeça’
(Foto: Divulgação)
Às vezes demora, tem uns percalços. Mas chega. E em ‘Garcia’, álbum lançado nas plataformas digitais no último dia 31 de março, o rapper amazonense Victor Xamã mostra que chegou a hora de ser visto pelo mundo musical como um artista que está muito além do rap que o consagrou e também de um artista com localização geográfica definida.
Sem esquecer o Norte tão presente em suas canções e mantendo a força de suas rimas que o conduziram no difícil caminho de sair de Manaus rumo ao Brasil que consome música, Xamã expande seus horizontes e desnuda sua personalidade e trajetória diante dos fãs, trazendo em ‘Garcia’ uma viagem pela sua própria vida, com as dores e vitórias.
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A viagem pessoal começa pelo próprio nome do álbum. Garcia é o sobrenome que ele carrega de herança da mãe, Maria Helena, que é quem estampa a capa e a contracapa. Ela aparece, inclusive, em uma mensagem de áudio ao final da faixa-título.E batizar a canção - e o disco - com seu sobrenome é apenas uma das muitas revelações pessoais que a faixa traz. “Eu levei Manaus a força, ela não quis vir comigo./ Eu lembro de cada um, de cada "não", agora é irreversível./ Você pode amar ou odiar mas continuo vivo”, diz um trecho.
Em ‘Oito Correntes’ também não faltam relatos da própria vida, inclusive de situações que pareciam guardadas aos mais próximos até então. “Mãe, senti o momento que o meu pai foi atingido.// Eles sabem nada disso.// Eu sinto que é melhor assim. Uma mãe solteira, duas crianças e um homicídio”.
E neste percurso musical em que o improvável virou combustível, Victor Xamã se apresenta cercado de nomes que acompanham a sua potência e virtuose cada vez mais latente. A produção de Duda Raupp no trabalho traz o match perfeito às rimas do amazonense e dá a ‘Garcia’ o impulso necessário para o disco romper qualquer barreira que ainda resista ao som de Victor Xamã. Makalister, Karen Francis, Luedji Luna, VND e Big Bllakk, Matheus Coringa, Gigante No MIC são alguns dos nomes que estão participando de ‘Garcia’ e garantem ótimos momentos.
A também amazonense Karen Francis divide com Xamã os mics em Pelas Ruas da Cidade, um verdadeiro convite a desbravar o mundo levando a arte nascida no Amazonas. O que seria se não isso versos como “A cidade é grande, mas não é maior que a gente, amor” e “Minha rimas são meu background.// Eu quero o mainstream, já zerei o underground.// Grandes nomes no backstage dão um salve em mim”?. Karen, por sua vez, abraça o groove da faixa cantando “A armadura pesa tanto, mas eu tenho um jeito sonhador, e no meu sonho eu vou fazer calar a mágoa, a raiva e a dor”. Que os sentimentos ruins se calem diante da potente delicadeza da voz de Karen.
‘Vigésimo Andar’ traz o Victor Xamã mais cantor no disco, bebendo nas influências do soul music brasileiro em uma canção dividida com a brilhante Luedji Luna. E se as histórias de ambos se cruzam, já que os dois encontraram em São Paulo o local ideal para brilhar na música, não poderia haver música melhor para reunir essas vozes - a de Xamã, manauara, a de Luedji, soteropolitana. “Lá era sim um bom lugar, mas o que eu queria ser não cabia ali”.
Um dos pontos altos do disco é ‘Vozes na Cabeça’. Visceral, a música tem um tom de desabafo e resume bem a confiança que Victor Xamã adquiriu nos últimos anos. “Ei, que tal largar o Rap e terminar os seus desenhos. Ou se foder no CLT mas ter incluso dois convênios?”. O maior presente que Xamã poderia ter dado para a arte no país foi “sonhar esse sonho até que ele te adoeça”. E a cura veio em forma de rap, de rima, de música, de arte.
O Victor Xamã que se apresenta em ‘Garcia’ é forte, disposto, confiante, e como dizem os mais adeptos a discursos motivacionais, resiliente. É assim que ele soa em todos os momentos. E é por isso que ele entrega um álbum primoroso, do início ao fim. Chegou.