ENTREVISTA

Thiago Gomes exalta título no Barezão: ‘Mostramos que o Nacional era o melhor time’

Técnico campeão do Campeonato Amazonense destaca desempenho da equipe, quebra de jejum de 11 anos e reforços para a temporada

Camila Leonel
29/03/2026 às 08:16.
Atualizado em 29/03/2026 às 08:16

Técnico chegou para o lugar de Gerson Gusmão e conseguiu ser campeão amazonense (Foto: Arquivo Pessoal)

Campeão amazonense pelo Nacional, o técnico Thiago Gomes fala como alguém adaptado ao ambiente do clube e da cidade, mesmo que ele tenha pouco mais de um mês à frente da equipe. Numa função que vive de bons resultados e desempenho, ele conseguiu fazer com que o time combinasse as duas coisas na reta final de Barezão, culminando com o troféu que pôs fim a um jejum de 11 anos na Vila Municipal.

Mas assim como ele não se prendeu ao resultado da estreia contra o Novorizontino – uma derrota por 4 a 0 – ele também não quer ficar condicionado ao título estadual, já que o Nacional tem pela frente a Copa Norte e a Série D do Brasileiro, onde o Nacional tenta conquistar um acesso inédito. Mesmo assim, em entrevista, ele contou um pouco dos bastidores do título, das motivações, estratégias, além de fazer projeções para o restante da temporada.

O Nacional chegou ao seu 44º trófeu de Campeonato Amazonense em 113 anos de história. Foto: Paulo Bindá/A Crítica

 Passada a euforia pelo título, qual a sensação de vencer o Barezão? Principalmente um Barezão vencido após 11 anos de jejum e um ano após o clube bater na trave.

É uma sensação maravilhosa. Você fica com o sentimento de dever cumprido, de você chegar num clube da história do Nacional. E a gente sabendo da dificuldade que é jogar sob pressão, porque quando vão passando os anos e vai ficando um jejum de 11 anos para a história do Nacional, que agora tem 44 títulos, é muito tempo. Então essa pressão é uma pressão externa que, às vezes, nos momentos decisivos, atrapalha o jogador e a gente conseguiu, acho que com o trabalho de todos aqui, blindar o nosso grupo, passar confiança para o nosso grupo, que era possível ser campeão. Nós mostramos, dentro de campo, que o Nacional era o melhor time e foi o melhor time. Fomos o time com mais gols na competição, o com menos gols sofridos. O time que conseguiu vencer os adversários e não venceu por acaso, venceu por méritos, jogando melhor. Então a gente tá com uma sensação de dever cumprido, mas, ao mesmo tempo, o sentimento de estar iniciando o segundo momento da temporada com muita fome de continuar fazendo história, então isso é muito legal porque o sentimento de dever cumprido não pode te trazer um relaxamento, não pode te trazer uma zona de conforto. Estou muito feliz que, nessa primeira semana de trabalho nossa após a final, tenho o sentimento de que não tem zona de conforto aqui. Eu, como treinador, estarei sempre em cima do meu grupo para que meu grupo sempre esteja querendo mais e querendo continuar conquistando e é isso o que a gente busca.

Você chegou ao Nacional com a temporada rolando, na véspera de uma estreia de Copa do Brasil, no meio do returno e com um time já montado. Como foi esse desafio de conseguir se adaptar a essas questões?

O primeiro ponto, eu com as minhas convicções como treinador, foi buscar dentro do elenco o que mais se encaixa dentro das minhas convicções e, a partir disso, montar os 11 iniciais. Nós realizamos algumas mudanças já no início aqui de alguns atletas na parte tática, na parte de posição dentro de campo, de estratégia e essas modificações puderam ser feitas porque o elenco montado pelo Gérson (Gusmão, ex-técnico), pelo Ângelo (Márcio, executivo de futebol) e pelo Saullo (Vianna, presidente do Nacional) era um elenco equilibrado, que me deu a possibilidade fazer isso. Então são situações que eu consegui colocar muito a minha característica de jogo porque o elenco me proporcionava isso. Acho que é um trabalho em conjunto, que foi muito bem feito no primeiro momento, essa montagem do elenco com variação de característica de jogadores. Chegando com a minha filosofia, com o que eu penso de futebol, eu adaptei alguns jogadores de acordo com o que eu acho mais interessante. Então essa química toda eu passo para os jogadores depois das informações. Naturalmente, o mérito maior é deles porque quando eles executam dentro de campo o que eu estou pedindo e as coisas vão acontecendo é porque eles estão indo bem. Eu estou muito feliz que nós conseguimos ter uma resposta muito rápida e é difícil isso no futebol de se adaptar e as coisas acontecerem. O mérito é dos nossos jogadores que conseguiram ir muito bem.

O Nacional estreou perdendo para o Novorizontino e depois veio o empate contra o Princesa. Com esses primeiros resultados, como foi pra manter a confiança da equipe que culminou na grande atuação contra o Amazonas?

Depois da derrota por 4 a 0 na estreia da Copa do Brasil, a gente conseguiu ter um discernimento de avaliar que tiveram muitas coisas boas naquele jogo. Se você for lembrar, o primeiro tempo acaba 0 a 0 e a gente vai pro segundo tempo e alguns pontos do jogo são interessantes. Tem uma entrada no Hernane que é um lance que, se tem VAR, é cartão vermelho 100%, tanto que o Enderson Moreira tira o jogador no intervalo porque ele sabia que o jogador seria marcado pelo juiz naquele momento ali, então nós tivemos um bom primeiro tempo, tivemos uma possibilidade de fazer um gol ali e não tivemos boas decisões e depois que o time deles fez o primeiro, se sentiu muito à vontade no jogo e acabou aumentando o placar, porém tivemos coisas positivas. O jogo do Princesa foi muito importante para o nosso trabalho porque a gente fez um pacto de que nós precisávamos fazer um alto nível de competitividade naquela partida porque era um campo que não era bom, estava muito quente, um campo pequeno, fora de casa, valendo um calendário nacional para o Princesa, e falei que naquele momento seria um jogo onde nós teríamos que guerrear contra eles e o nosso grupo fez um pacto naquele momento e aquilo foi um divisor de águas porque a partir daquele nível de jogo que nós fizemos, nós entramos no jogo seguinte. Nós falamos contra o Amazonas: nós não podemos aceitar competir menos do que a gente competiu contra o Princesa. Se a gente competir no mesmo nível que tivemos contra o Princesa aqui contra o Amazonas e nós executarmos a parte tática, jogarmos com ofensividade, colocarmos o nosso ritmo de jogo com a qualidade que nossos jogadores têm, temos tudo para ganhar esse jogo e foi o que aconteceu. Foi aquele jogo de excelência, que poderia ter sido uns 6 a 0 o jogo, que seria tranquilo o resultado. Então o nosso grupo teve esses dois passos: o Novorizontino: entender que tiveram coisas boas, ter o Princesa como um divisor de águas e a gente ter aquele momento que daria aquela virada de chave e que tudo deu certo.

E o quanto o resultado e o desempenho da equipe naquele jogo do Amazonas serviu como motivação na final, no sentido de: ganhamos uma vez e somos capazes de fazer novamente?

Aquela vitória como foi nos deu dois pontos importantes para a final. A primeira foi a confiança, como você tá falando de pensar assim: nós jogamos contra eles, fizemos um jogo de excelência e temos totais condições de vencer de novo e, ao mesmo tempo, serviu para, como treinador, eu passar aos jogadores: olha, se nós estivéssemos do lado de lá e tivesse tomado 3 a 0 em tempo de levar seis, nós chegaríamos como numa final? Todo mundo entendeu: entraríamos com a faca nos dentes porque ninguém gosta de perder de 3 a 0 podendo tomar 4, 5, 6 e entrar numa final de campeonato mole, desconcentrado. Então a gente sabia que a final seria muito difícil e eu quis passar essa mensagem e o nosso grupo entendeu isso. Além de nos dar confiança, aquele jogo nos serviu para estar em estado de alerta na final, tanto que a final foi um jogo extremamente acirrado, competitivo com confusões justamente porque tanto o Amazonas estava preparado pra aquilo, mas o Nacional chegou preparado também e a gente não deixou o jogo de 3 a 0 ser um fator que nos fizesse entrar desconcentrado na partida achando que ia ser 3 a 0 de novo e isso foi muito positivo.

A final marcou a estreia do Cristian no Amazonas, ou seja, viria uma situação totalmente diferente da que vocês tiveram nos playoffs. Como foi esse desafio tático?

Eu já joguei contra o Cristian muitas vezes lá no Sul: Campeonato Gaúcho, Copa da Confederação Gaúcha e conheço muito bem o Cristian, que é um grande treinador. Ao mesmo tempo, a gente tinha essa dificuldade no jogo porque o Cristian sabia como a gente ia jogar e não fazia sentido nenhum eu mudar o time para final porque nós vínhamos bem. Porém, eu não sabia se ele ia jogar com os três zagueiros que ele gostava de jogar no Rio Grande do Sul e jogou aqui também com três zagueiros, se ele ia jogar no bloco baixo, se ele ia marcar alto, então tudo isso era um ponto de interrogação. Eu até comentei com ele no dia do jogo que eu esperava se ele pudesse me surpreender, se ele ia colocar os três zagueiros. A gente treinou muito em cima disso porque os desequilíbrios para enfrentar os três zagueiros, taticamente, era algo que me preocupava muito mais do que se ele entrasse em campo como ele entrou. Se ele entrasse com o time que ele entrou, eu entendia que para o nosso encaixe de marcação era melhor e acabou que aconteceu isso. Achei o nosso primeiro tempo muito controlado e se a gente tem um pouco mais de capricho, poderia, no mínimo, acabar 2 a 0 no primeiro tempo. Aí, no segundo tempo, o jogo seguiu porque ele conseguiu fechar bem ali o meio de campo, teve uma compactação boa e dificultou pra gente, teve o gol no início, que atrapalha um pouco a nossa estratégia, e a gente conseguiu numa jogada ensaiada que eu faço com o Renanzinho, que é aquela movimentação de rolar pra chutar, fazer o gol do título. Então eu acredito que todo esse contexto do Cristian chegar numa final gerou mais dificuldade para nós e estamos de parabéns que conseguimos superar tudo isso.

O Nacional terá pela frente a Copa Norte e a Série D. Como está a busca por reforços?

Nós estamos no mercado. No futebol você precisa estar o tempo inteiro atento ao mercado, o clube nunca pode falar que está fora do mercado. Tem que estar sempre analisando, é muito importante. Chegaram alguns jogadores, nós estamos buscando mais contratações para qualificar nosso elenco e eu acho que com a sequência de jogos que iremos ter, se Deus quiser, chegando até o último jogo da Série D, para ser campeão, é muito jogo. Tendo a Copa Verde, tendo a Série D, nós precisamos de elenco. Agora nós vamos jogar quinta (a entrevista aconteceu na quarta-feira), teremos sexta e sábado para recuperar os jogadores, mas sábado à noite, estaremos viajando para o jogo de domingo. É um espaço muito curto para colocar os 11 jogadores no jogo e muito complicado. Até dá para fazer, mas aumenta o risco de machucar, da performance diminuir, então é muito importante ter elenco e estamos atentos a isso. O Ângelo está muito atento ao mercado, tem trabalhado aí quase que 24 horas por dia atrás de reforços. Estamos muito concentrados em ter um elenco qualificado.

Quantos jogadores devem chegar?

Nesta semana chegaram quatro jogadores para a Série D e a gente pode buscar mais uns reforços. Eu não saberia te dizer exatamente quantos. Temos alguns jogadores com proposta aqui de sair, com negociações e a gente tá estudando cada caso pra ver se realmente é interessante para o Nacional, para mim e para o jogador. Então a gente vai analisar isso semana a semana para tomar a melhor decisão.

Para finalizar, como tem sido a adaptação e esses primeiros meses de trabalho no Norte do país?

Primeiro que está sendo um contraste de temperatura porque eu estava na Geórgia, no Leste Europeu e estava -10 ºC e eu chego aqui com essa temperatura alta, dá uma diferença enorme, então tem sido muito diferente a nível de clima. Estou adorando a nível cultural, a culinária daqui é fantástica. Tem frutas que só se encontra aqui, eu amo açaí e o açaí daqui não tem nada igual no Brasil. Ao mesmo tempo, a recepção de todos comigo tem sido fantástica tanto no clube, quanto das pessoas que eu encontro na rua, no shopping, nos lugares que eu vou. O carinho não só do torcedor do Nacional mas, de modo geral, todos aqui em Manaus têm me dado uma recepção maravilhosa. Estou bem feliz, bem contente com tudo o que estou vivendo aqui.

Assuntos
Compartilhar
Sobre o Portal A Crítica
No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.
Portal A Crítica - Empresa de Jornais Calderaro LTDA.© Copyright 2026Todos direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por