Indígenas protestam contra conversão dos rios amazônicos em hidrovias para cargas e falta de escuta em grandes empreendimentos na região
(Foto: Reprodução TV A CRÍTICA)
Belém - Na manhã desta sexta-feira (14), cerca de 90 indígenas do povo Munduruku bloquearam a entrada da blue zone, na COP 30, como forma de cobrar uma reunião emergencial com o presidente Lula (PT). A blue zone, ou zona azul, é o espaço restrito da Organização das Nações Unidas (ONU), onde circulam diplomatas, observadores, membros de governo e jornalistas.
A manifestação tomou forma nas primeiras horas da manhã. Os indígenas Munduruku, que habitam principalmente o Amazonas, Pará e Mato Grosso, se uniram em um paredão na entrada do evento. A organização da COP 30 transformou a saída em portão de entrada para contornar o protesto.
“A nossa reivindicação é que nós sejamos ouvidos. Todos os acordos já aconteceram antes da COP, como o decreto 12.600, que foi a privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. E aí veio agora o acordo com o petróleo, e a nossa preocupação é: qual acordo vai sair daqui?”, questionou a liderança Alessandra Munduruku.
O Decreto 12.600/2025 inclui os rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND) para concessões e leilões, com o objetivo de desenvolver a navegação de cargas. Já o petróleo a que ela se refere é a licença concedida pelo Ibama à Petrobras, há duas semanas da COP, para pesquisa de petróleo na foz do rio Amazonas, no Amapá.
Segundo nota do Movimento Munduruku zíperes Ayu, organizador do protesto, a movimentação de cargas e adubos no Rio Tapajós cresceu mais de 4.000% entre 2019 e 2022, saindo de 4 mil toneladas para 167 mil. A manifestação destaca que a expansão dos portos e circulação de barcaças reduz a pesca, contamina a água e reduz a circulação dos indígenas.
“As negociam aqui falam tanto das mudanças climáticas, mas se você prestar a atenção, nenhum povo indígena está no meio. Parece que eles têm que jogar uma compensação para a gente receber, para nos silenciar”, criticou Alessandra.
Ela cobrou demarcação e fiscalização dos territórios indígenas, pautas que têm marcado as mobilizações dos povos tradicionais no evento. Um levantamento da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) divulgado na COP apontou que 29 terras indígenas aguardam apenas a assinatura do presidente Lula e homologação em cartório.
Também foi pauta do protesto o fim do avanço da Ferrogrão, projeto de ferrovia planejado para ligar Sinop (MT) a Miritituba (PA) com o objetivo de escoar pela Amazônia a produção do agronegócio localizada no Centro-Oeste do país.
A manifestação encerrou após o presidente da COP, André Corrêa do Lago, e a CEO do evento, Ana Toni, irem até a manifestação. Cerca de 20 indígenas, incluindo lideranças do movimento, foram recebidos para tratativas.