Para a pedagoga doutora que atua há mais de 30 anos no ensino público do Amazonas, atacar professores é atingir também a educação e a própria democracia brasileira
(Foto: Arquivo Pessoal)
Para a pedagoga, doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia e mestre em Ciências da Educação, Joristela Queiróz, o ataque de extremistas aos professores brasileiros é, na sua essência, uma agressão à democracia do país.
Nesta semana, a Associação Movimento Brasil Laico e a Associação de Docentes da Universidade Federal de Pernambuco (Adufepe) pediram ao Ministério Público Federal (MPF) que investigue o pastor Silas Malafaia por falas que, segundo eles, representam um “ataque sistêmico” ao magistério.
Durante um evento gospel em Pernambuco, no dia 31 de janeiro, o pastor que hoje circula entre políticos de direita e extrema-direita, disse que professores "enganavam” seus alunos e que hoje existe algo sério chamado “marxismo cultural".
Com mais de 30 anos de atuação no ensino público, Joristela classificou a fala como uma “irresponsabilidade”, e disse que o Ministério Público fará bem em investigar o caso. Também na entrevista, falou sobre o desafio de ensinar sobre democracia na sala de aula e a cooptação de homens jovens para movimentos extremistas.
Opinou ainda sobre como o avanço da tecnologia nas escolas pode ser um suporte no ensino, mas chamou a atenção para os danos do uso desenfreado de ferramentas como a inteligência artificial, que prejudicam a visão crítica de estudantes. Confira esses e outros temas na entrevista completa
Considerando a polarização política e o avanço de discursos extremistas, o que significa, hoje, educar para a democracia dentro de uma escola pública?
Em uma democracia, a escola é espaço de pluralidade, é um espaço de debate, construção de conhecimento. Então, eu parto desse princípio. Quando os discursos públicos colocam em risco direitos constitucionais, como a liberdade de ensinar e aprender, vejo a necessidade de acionar alguns limites, inclusive de falas, que a gente tem ouvido por aí, tentando desqualificar a escola pública. Esses discursos são propositais para enfraquecer essa escola e, por consequência, a democracia. Então, trabalhamos no sentido de desmistificar muita coisa, atuando mesmo nesse front, não só em sala de aula, mas a partir dela, para fora, para esse muro que a gente precisa escapulir.
Quais são os desafios de atuar desta forma em uma sala de aula?
Eu penso a educação de forma plural. Trabalho para valorizar a diversidade. O desafio é considerar essas diferenças. Propor um espaço plural de diálogo, considerando os territórios, os saberes locais também. Eu acho que, acima de tudo, é dar visibilidade àquilo que muitas pessoas, ultimamente, insistem em invisibilizar.
Quais características da Amazônia tornam o processo de ensinar de maneira plural e democrática ainda mais desafiador?
Na Amazônia a gente vai discutir tecnologia, mas não dá para discutir essa tecnologia sem discutir o acesso. Se você for pensar na questão da interiorização, e a gente não refletir que o interior muitas vezes fica à margem disso tudo, é ignorar a realidade dessas escolas públicas no interior do estado. A gente precisa pensar essa questão da tecnologia como política pública, como política de acesso, que elas dialoguem com esse território, com essas culturas locais, com essas condições reais da escola. Nos últimos anos a gente conseguiu pensar nisso, inclusive concorrendo a editais sobre eventos científicos, sobre como fazer com que esse conhecimento que está sendo produzido no interior do Estado seja visto, seja compartilhado, seja feito por meio de intercâmbio para que outras pessoas tenham acesso.
Então eu tenho me ocupado nessa questão para a gente justamente ajudar a popularizar essa ciência, esse conhecimento que está sendo produzido no interior como uma estratégia para combater desigualdades e fortalecer a cidadania. Em um contexto de avanço que a gente está tendo, de muita desinformação, de negação da ciência, eu acho que popularizar o conhecimento científico é um ato político no melhor sentido da palavra. É um compromisso com a democracia, com a educação pública e com a justiça social.
Então quando a gente fala desse conhecimento que está sendo produzido, especialmente na Amazônia, estamos falando dessa inclusão, de pertencimento, de valorização desses saberes locais. E na Amazônia os desafios são maiores por conta da distância geográfica, das desigualdades históricas, da falta de investimentos contínuos. Mas também a gente sabe que aqui existem saberes tradicionais e experiências comunitárias e práticas pedagógicas extremamente potentes, que precisam ser reconhecidas e articuladas com esse conhecimento científico. Então a gente precisa reconhecer esse papel social e fazer com que chegue a todos essa informação. Isso começa na escola.
No ano passado, o MEC proibiu o uso de celular nas escolas. Há quem defenda que num espaço de exclusão digital, como no interior, o uso do celular pode ser uma ferramenta de ajuda no ensino. Até que ponto essa política é positiva? E como enxerga o argumento contrário a ela?
É a mesma questão da tecnologia. O uso desses celulares precisa ter objetivos claros, bem definidos. Só pra você ter uma ideia, teve um ano em que fiz uma pesquisa na escola com os alunos e a gente conseguiu um mapa de quais sites eles mais acessavam. Muitos deles claramente focados na questão das redes sociais. E aí com predominância no Instagram, TikTok e tudo mais. E raros eram os que acessavam a internet pra fazer uma pesquisa em sites, digamos, que sejam mais seguros.
E aí quando você pergunta se eles têm algum cuidado com a questão de dados, é quase zero. Eles não têm essa preocupação. E dentro da sala de aula, como alguns professores, os alunos também ainda não encontram-se preparados pra lidar com essa tecnologia para o aprendizado. Um exemplo é a inteligência artificial. Ela é uma ferramenta que os alunos utilizam muito pra aquela ideia do "Ctrl C e Ctrl V". E "Ctrl C e Ctrl V" não produz conhecimento. É apenas uma cópia. Ele passa a ser um conhecimento produzido de forma acrítica. Isso não ajuda no espaço escolar pra construção de conhecimento.
São Paulo iniciou neste mês o ensino em escolas militares. No Amazonas, já temos. Como a senhora avalia essa modalidade que agora chega ao estado mais populoso do país?
Olha, o debate sobre escolas militares precisa ser feito com profundidade. Educação de qualidade não se constrói apenas com disciplina rígida, mas com investimentos, com valorização docente, com projetos pedagógicos que sejam realmente voltados para a realidade local. O que acontece? As pessoas têm um discurso de dizer que os resultados da escola militar são, em alguns locais, melhores que de outras escolas públicas. Há de se ressaltar que essas escolas públicas não trabalham nas mesmas condições que a maioria das escolas militares. Primeiro que algumas delas fazem seleção de alunos. Já começa por aí a diferenciação. A disciplina é importante para a construção do saber, mas não é o ponto de partida para que haja um ensino de qualidade.
O Ministério Público recebeu pedido para investigar o pastor Silas Malafaia por acusações que ele fez contra professores. Afirmou que os docentes enganam os alunos. O que a senhora pensa sobre isso?
Eu acho isso irresponsável. Esse tipo de discurso alimenta a desinformação e cria desconfiança sobre a escola pública e, justamente por isso, volto a falar na divulgação científica e no fortalecimento do pensamento crítico como fundamentais. Quando discursos públicos colocam em risco esses direitos constitucionais, como a liberdade de ensinar e aprender, é natural que essas instituições democráticas [Ministério Público] também sejam acionadas para avaliar os limites dessas falas, pois elas são propositais. Visam enfraquecer a escola e, por consequência, a democracia. Em uma democracia, a escola é um espaço aberto para debate, para construção, e questionar essa legitimidade do trabalho docente e tentar desacreditar professores é um ataque à educação e à própria democracia. Os professores merecem respeito fundamentalmente porque ajudam a alavancar esse país.
O cenário político mundial tem caminhado para o surgimento ou volta de movimentos extremistas. Um deles, chamado “red pill”, que coopta jovens homens, prega discursos de ódio contra a mulher. Como evitar esse “sequestro” dos jovens para o extremismo ainda na escola?
Nós ainda estamos um pouquinho longe dessa voz mais coletiva que possa se colocar contra o crescimento desses movimentos ainda na escola. Nós temos espaços públicos que já retomam isso de maneira mais séria, de uma coisa que precisa ser realmente combatida, mas ainda é muito na superficialidade das coisas, algo muito simbólico. Eu acredito que nós estamos caminhando, mas a gente ainda precisa fazer muito mais, principalmente se unir para poder fazer a diferença.