Na divisa entre os municípios de Manacapuru e Manaquiri, um incêndio de grandes proporções atinge uma área equivalente a 10 mil campos de futebol, há mais de uma semana e até agora não houve envio de equipes
(Foto: Divulgação Secretaria dos Municípios)
Municípios do interior reclamam da falta de assistência dos órgãos estaduais e federais no combate as queimadas. Na divisa entre os municípios de Manacapuru e Manaquiri, na região metropolitana de Manaus, um incêndio de grandes proporções atinge uma área equivalente a 10 mil campos de futebol, há mais de uma semana, e até agora não houve envio de equipes. Parte do incêndio está localizado em uma terra indígena.
Embora conte com o socorro das equipes da Defesa Civil do Estado do Corpo de Bombeiros, em Careiro da Castanho a situação não é diferente. Em um áudio enviado à reportagem, o secretário municipal de Meio Ambiente (Semma), Ronaldo de Souza, pede socorro ao ver o município tomado pelas chamas. "Está sem controle da situação. Pede socorro pra nós, pede para vir um helicóptero, porque estamos entregues ao fogo", clama.
(Foto: Divulgação Secretaria dos Municípios)
Presidente do Fórum Permanente das Secretárias Municipais de Meio Ambiente, Jane Crespo, assegura que até agora não houve repasse de recursos do estado para ajuda no combate aos incêndios e pontua que a dificuldade para envio de equipes estaduais para ações nos municípios é reflexo do corte de gastos no orçamento estadual que não tem concedido diárias e viagens. Em Maués, onde ela comanda pasta, na semana passada foram três dias de fumaça intensa proveniente das queimadas no município que compõe o Arco do Fogo.
Segundo Jane, Maués tem recebido uma pressão desde julho, em especial das regiões ao Sul próximas do município de Apuí e Jacareacanga-PA que tem protagonizado várias queimadas.
Uma das áreas mais atingidas estão próximas da a BR-230, a Transamazônica e a reserva indigena Andirá Marau onde já somam 23 focos de ocorrências.
"A gente preza pela preservação do município, mas estamos descontrolados. A gente em um Termo de Cooperação Técnica do estado com relação aos brigadistas e até agora dos nove municípios do interior que estão nos Arco do Fogo, no Sul do Amazonas, nenhum recebeu brigadista", contou a secretária.
Em Maués está em vigor desde semana passada um decreto de "Fogo Zero" proibindo a população praticar qualquer tipo de queimada para evitar novos focos de incêndio. A medida é válida por 90 dias. Além disso, a secretaria aposta na conscientização com carro volante nas ruas, palestras nas escolas e igrejas e na rádio.
Sem o envio de brigadistas, o município teve que arcar com a contratação de pessoal para compor uma equipe com 10 pessoas, sendo cinco brigadistas contratados pela secretária e outros cinco servidores realocados para dar suporte em campo. Com os cofres públicos prejudicados, quase 90% do recurso previsto para o combate a sinistros já foi executado e não haverá recursos para o próximo mês.
"Não entrou nenhuma ajuda para gente aqui, nem a capacitação de novos brigadistas a gente recebeu. Houve uma reunião do comitê de prevenção de combate ao desmatamento e queimadas, mas em nenhum momento falaram em datas, mas não chegou nada, nenhum município recebeu. Lábrea, por exemplo, recebeu um grupo de Bombeiros, mas vão fazer o que é possível, porque com essa redução das diárias dos bombeiros, o Ipaam não conseguiu sair com a operação deles, porque foi suspensa as diárias e passagens, por conta da redução de custos. Estamos num mato sem cachorro, estamos fazendo o que é possível", disse a secretária.
Aumento de chamadas
Em uma rápida pausa entre as ocorrências, o secretário municipal de Meio Ambiente de Manaquiri, Evanaldo Nascimento, disse ao A CRÍTICA que nos últimas dias cresceu a quantidade de chamados para controle de queimadas, mas, com recursos limitados, o município tem conseguido agir mais rapidamente apenas na área urbana.
(Foto: Divulgação Secretaria dos Municípios)
A prefeitura chegou a contratar o serviço de um carro-pipa, que deve chegar em breve ao município. Um dos grandes focos de incêndio ocorre no KM 50, da BR-319. O maior problema, no entanto, está na divisa com Manacapuru, pois as chamas estão em uma área de difícil acesso na zona rural e já chega à comunidade indígena Nova Canaã - Aldeia Arajaí, Lago do Aracatuba - por falta de pessoal e de recursos a situação está descontrolada.
"[Há 15 dias] Acionamos os órgãos do estado, liguei para o Ipaam, para o Corpo de Bombeiros, liguei pro superintendente do (bama, mas até agora não recebemos retorno", disse o secretário. "Segundo eles, não tem corpo técnico, porque é muita demanda para atender quase todos os municípios", declara Evanaldo.
Ocorrências diárias
Em Careiro Castanho, a ajuda do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil não é suficiente para atender tamanha demanda. Segundo o secretário da Semma, Ronaldo de Souza, são cerca de 15 a 20 chamadas semanais, mas somente ontem foram oito ocorrências.
"Não podemos atender a todos".
"Estamos sem controle do fogo, está em todo o lado dos distritos e da BR-319. Está triste a situação", disse o secretário. A equipe composta por três servidores municipais e três agentes da Defesa Civil, está acampada na entrada da BR-319, na saída de Manaquiri. Além da quantidade reduzida de mão-de obra, eles também enfrentam problemas com equipamentos. No momento em que a reportagem entrou em contato com o secretário, por exemplo, um furo no pneu do carro-pipa paralisou as atividades.
"Estamos tendo apoio da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros. Graças a Deus eles atenderam o nosso chamado porque não esta fácil. A situação está critica mesmo. Tem chamado para todo o lado. Nossa equipe está [trabalhando] desde ontem direto, não tinha mais ânimo para fazer nada", disse.