Centro Comunitário Solar leva saúde, educação digital e projetos ambientais a 12 comunidades
Dona Maria Terezinha, agricultora, em consulta via telesaúde. (Márcio Souza)
No coração da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Amapá, dentro do município de Manicoré (distante 350 quilômetros de Manaus), a agricultora Maria Terezinha faz as consultas regulares com uma nutricionista através da internet. O foco dela é melhorar a alimentação e diminuir o consumo de açúcar por causa do diabetes. Ela brinca que cortou os carboidratos, mas ainda come um doce ou outro de vez em quando.
Com muito humor, do outro lado da tela, a nutricionista Larissa Duarte afirma que não tem resultado sem sacrifícios e lembra que muitas das doenças crônicas não transmissíveis atualmente, como diabetes, estão entre os principais focos de atenção da comunidade médica.
A consulta toda leva cerca de uma hora e acontece dentro de um container adaptado no Centro Comunitário Solar. O espaço é fruto de uma parceria entre a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e a Dell, uma gigante de tecnologia. Há quase cinco anos, o centro tem sido o principal meio de acesso da comunidade de Boa Esperança e outras 11 no entorno do rio Madeira à saúde.
Há consultas com médicos clínicos gerais, psicólogos e outros especialistas, tudo com hora marcada e um atendimento humanizado. Os comunitários economizam até R$ 200 só por não ter que se descolar até a sede de Manicoré em busca dos atendimentos; mas além disso, é um serviço que salva vidas.
Agricultor Leandro Sales descobriu uma apendicite após consulta
O agricultor Leandro Sales sentia fortes dores pelo corpo e através dessas consultas descobriu em tempo hábil que possuía uma apendicite. Conseguiu fazer todo o processo de acompanhamento médico até a operação através do Centro Comunitário Solar.
O centro tem “solar”no nome porque é alimentado por 26 placas de energia limpa que geram a carga suficiente não apenas para os atendimentos médicos, mas também para outra grande frente de atuação: as aulas de informática.
A Dell cedeu os equipamentos e o Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam) formou os primeiros alunos da comunidade. Um deles, Adrian Ribeiro, hoje é o instrutor que passa tudo o que aprendeu para os novos estudantes, crianças e adolescentes.
Monitoramento Ambiental ampliou a qualidade da farinha produzida
O centro comunitário também está inserido em outro projeto idealizado e gerido pela FAS, o de formar monitores ambientais dentro da comunidade. A proposta é focada especialmente em jovens e ensina quais são as melhores e mais adequadas práticas dentro da produção de determinadas culturas, além do manejo e trato com a mata. Um dos monitores formados pelo programa é o Saarim da Cruz, que acompanha os trabalhos em roçados de mandioca, o carro chefe de produção da comunidade de Boa Esperança.
O resultado dessa mudança ampliou a qualidade da farinha produzida, mas também de todo o contexto da produção. Antes não havia acesso a documentações que poderiam comprovar a atividade, mas agora todo o levantamento também foi feito e isso deu acesso a programas de incentivo tanto do Governo Federal quanto do Estado. O agente de desenvolvimento sustentável Edmar de Souza lembrou que a comunidade hoje tem qualidade de vida por causa desses investimentos.
Dispositivo de detecção do Projeto Uirapuru, da UEA
A gerente de projetos da FAS, Fabiana Cunha, explicou que existe uma grande preocupação com a forma como as comunidades vão lidar com os impactos das mudanças climáticas e também os eventos extremos que elas provocam. Uma das soluções encontradas para diminuir esse ônus é promover a discussão e o conhecimento técnico.
A FAS criou um viveiro de mudas dentro da comunidade. Neste mês, o espaço foi preenchido com espécies de açaizeiro e castanheira. Elas vão servir de exemplo para as discussões de como melhorar a terra, a plantação ou até mesmo as atitudes diante dos eventos extremos, e tudo isso observado como essas espécies reagem desde os primeiros meses de vida.
Outra frente de pesquisas acontece em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). É o Projeto Uirapuru, que consiste na análise da presença do pássaro em mata fechada e usa a Inteligência Artificial para fazer a identificação. Os sensores estão espalhados pela comunidade de Boa Esperança e transmitem os dados captados até Manaus. Os levantamentos criam uma base de dados que é direcionada como um indicativo de ações para as comunidades.