Entrevista!

Univaja: ‘na fronteira, o Exército não se move’, afirma Bushe Matis

Em meio ao avanço de crimes na região, o coordenador da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari critica a ausência de fiscalização por parte do Exército na fronteira com o Peru

Waldick Junior
30/07/2023 às 08:54.
Atualizado em 30/07/2023 às 08:54

Bushe Matis também disse esperar por justiça no caso do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, ambos assassinados no Vale do Javari. (José Medeiros/Agência Pública)

Coordenador da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Bushe Matis criticou o que considerou ausência de atuação do Exército na fronteira da terra indígena  - a segunda maior do país -  com o Peru.

Em entrevista para A CRÍTICA, ele disse que o Estado brasileiro nunca esteve realmente presente na região e que a fronteira tem sido utilizada como caminho livre por parte de caçadores de animais e exploradores ilegais de madeira.

Bushe Matis também disse esperar por justiça no caso do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, ambos assassinados no Vale do Javari, no ano passado. Nesta semana, a Justiça Federal do Amazonas ouviu os três acusados pelo crime. Uma nova decisão deve dizer se eles irão a júri popular ou não. Confira a entrevista abaixo.

O governo federal, em conjunto com o Exército, realizou uma série de operações focadas em combater o garimpo ilegal no Vale do Javari. A PF instalou uma base fluvial na região e o governo criou um GT para discutir segurança na terra indígena. Essas ações estão à altura da falta de proteção territorial na região?

Depois da morte do Bruno [Pereira], nós reforçamos essa reivindicação e a comitiva interministerial, inclusive a presidente da Funai, ministra do MPI e demais procuradores, Defensoria Pública, estiveram presentes após a morte do Bruno, só que [falaram] tudo na teoria, nunca foi efetivado. A única presença que esteve aqui no porto de Atalaia foi aquele barco grande da Polícia Federal, esteve aí, mas não sei por qual motivo, eles voltaram para Tabatinga. 

E depois estive presente em Brasília, reivindiquei novamente como coordenador da Univaja a atuação do Estado e parece que criaram um decreto, uma portaria para permitir a criação da comitiva para atuar no Vale do Javari e essa comitiva até o momento não compareceu aqui, a não ser com o pessoal da Funai, mas parte do movimento indígena não tem conhecimento. 

O que posso dizer é que atuamos como sempre, reivindicando a presença do Estado, da segurança pública, e que até o momento não foi efetivado, não tem presença da polícia, das pessoas que podem fazer a segurança ao nosso lado no Vale do Javari.

 Pela sua resposta, imagino que haja um sentimento de abandono. É essa também a razão para os próprios indígenas criarem mecanismos de proteção territorial, como a Equipe de Vigilância da Univaja?

Eu não diria abandono, porque o Estado nunca esteve presente na nossa região. Nunca ficou aqui direto. Nunca teve isso. Eu espero que algum governo que possa nos apoiar e pensar em novas estratégias de segurança pública com foco em indígenas, porque é em todo o Brasil, não só aqui. A única coisa que temos feito por parte do movimento com a Equipe de Vigilância é o monitoramento territorial, a picada [demarcação física da área indígena], porque a demarcação foi feita em 2000. 

Há muito tempo também estamos cobrando que o Estado faça uma nova picada, que bote placa, identificasse um marco da terra indígena. Faz tempo que a gente cobra e sempre alegam falta de recursos humanos ou financeiros. E a Univaja, desde 2019, começou a fazer essa picada, a abertura da demarcação e ensinando os parentes a utilizar algumas tecnologias, como GPS, para que eles próprios possam fazer esse monitoramento, que não chega a ser vigilância, fiscalização. 

O Vale do Javari fica localizado na fronteira do Brasil com o Peru. Pelas atribuições definidas na Constituição, o Exército é o responsável por fazer a segurança das regiões fronteiriças. Como é a presença das Forças Armadas nesse território?

Aqui é fronteira com o Peru. Nas regiões do rio Jaquirana, ali há grande presença dos peruanos, israelitas. A margem direita é Peru, a margem esquerda é Brasil. Nessa calha do rio, deveria estar a presença das Forças Armadas, mas tem pelotão no Estirão do Equador, que é onde atua o Exército [brasileiro], general, coronel. Tem pelotão também no Palmeiras do Javari, do lado do Brasil, só que eles não fazem ação, não fazem fiscalização, um monitoramento. E aí ocorre grande retirada de madeira do lado do Brasil, dos animais. Os peruanos, os israelitas vêm para cá explorar nossas riquezas naturais.

E levam madeira ou animais sem problema nenhum para o outro lado da fronteira?

 É! O Exército não se move. A Força Nacional nem se fala. Eles não vão atuar nessa operação de fiscalização. Eles não fazem e não sei qual é o motivo, se é por falta de orçamento, de recursos humanos. Vejo que tem muitos oficiais, até em Tabatinga tem um monte de gente servindo, mas para quê? Será que um dia o Brasil vai ter guerra? Por que não pega essas pessoas e coloca em locais estratégicos, nas terras indígenas, para fazer patrulhamento? Esses são questionamentos que viemos fazendo, mas não sei se um dia o governo irá entender.
 
 A sua eleição para a presidência da Univaja marca também a primeira vez em que alguém do povo Matis lidera essa organização conhecida nacionalmente. O que isso representa para você e seu povo? 

 É a primeira vez que alguém do povo chega na coordenação principal, titular, mas sempre teve Matis na vice-coordenadoria. Eu também fui presidente da associação local, da base. Venho atuando no movimento indígena há muitos anos e é a primeira vez que ocupo essa posição. Para nós, isso é um avanço, um conhecimento mais para proteger nosso território, reivindicar a melhoria de educação, saúde e demais assistências que o Estado possa nos garantir. 

Durante a eleição, houve tentativa de interferência política na escolha da direção da Univaja? E ainda existe hoje, após sua eleição?

Sim, sempre vai existir. Aconteceu isso. Partidos políticos aliados com indígenas querem interferir na assembleia da Univaja, decidir quem pode ser o coordenador e até dar aquisição de combustível, de embarcações, na tentativa de eleger quem eles querem. Aconteceu isso e sempre vai acontecer.

Bushe Matis disse que o Estado brasileiro nunca esteve realmente presente na região e que a fronteira tem sido utilizada como caminho livre por parte de caçadores de animais e exploradores ilegais de madeira.

  
Mas quais foram os partidos? É da direção municipal? Políticos da prefeitura de Atalaia do Norte?

Isso mesmo, da Prefeitura de Atalaia. 

E ofereceram combustível?

Supostamente, sim. 

E você sabe se concluíram essa proposta? 

Com certeza. Foi patrocínio, apoio. 

Como é a sua relação com a gestão municipal?

Eu estou particularmente aberto. Sou do movimento indígena e nós vamos sempre reivindicar para a melhoria da educação, da saúde, sempre vai bater no governo. Na briga para solucionar, tomar as providências, a gente sempre vai denunciar, encaminhar algo e isso não é pessoal. Eu me dou bem com todos, mas quando a coisa é séria, quando tem que cobrar por melhorias ou para levar algo para as comunidades, o movimento sempre vai reivindicar, lutar. 

Em junho, completou um ano do assassinato de Bruno e Dom. O processo está tramitando, mas já foi anulado e teve que voltar para o início. Já o indiciado pela PF como mandante das mortes, Ruben Villar (Colômbia), ainda não foi acusado formalmente pelo caso. Você teme que os assassinatos entrem para a estatística brasileira dos crimes contra indígenas, indigenistas e ambientalistas não solucionados? 

Sim, isso vai entrar. Querendo ou não, na defesa do nosso território, do meio ambiente, na proteção da floresta, dos recursos naturais, essas ameaças, o que aconteceu, pode entrar. Vai ser constatado na lista de crimes contra quem proteger o meio ambiente.

Mas você tem medo de que no fim não haja justiça nesse caso?

Isso vai ficar na mão da Justiça. Querendo ou não, é a Justiça, a Polícia Federal que tem que tomar a decisão. A gente não vai pedir, questionar. Já há comprovação, então cabe à Justiça tomar a decisão.

Existe alguma possibilidade de o marco temporal, se aprovado, causar problemas à demarcação da terra indígena Vale do Javari ou de áreas específicas dentro da terra? A Univaja tem alguma avaliação do tipo?

Tem sim. O marco temporal a gente sabe que foi feito por pessoas que tinham mentes muito loucas para pensar que seria só até 1988 [para pedir demarcação], que só quem já vem reivindicando vai permanecer [nas terras indígenas]. Isso, para mim, é louco, porque nós já existíamos em 1500. Nós já morávamos aqui, somos daqui do Brasil, da América do Sul. Se o marco temporal for aprovado, pode rever a terra indígena Vale do Javari, porque ela é a segunda maior terra indígena do Brasil. Nela existe o que as pessoas querem, o petróleo, minério, madeira, peixes e demais coisas. Então, se o marco for aprovado, a primeira terra que poderia ser revista devido ao tamanho, porque está assim, é o Vale do Javari.

 Perfil

Nome: Bushe Matis 

Estudos: Administração (UniEvangélica)   

Experiência:  Já foi auxiliar de Mobilização Política Social na Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e supervisor de agente de proteção etnoambiental  do Vale do Javari, na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).    

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