Empresas têm 45 dias para justificar a cobrança no transporte aquaviário no Porto de Manaus, sob risco de devolução de valores
Medida ocorre em um momento de alerta para uma possível estiagem severa no estado em 2026 (Foto: Jeiza Russo / A CRÍTICA)
O Ministério Público Federal (MPF) recomendou a revisão da chamada “taxa da seca”, cobrada no transporte aquaviário no Amazonas, e determinou que empresas do setor comprovem os custos que justificariam a cobrança. A medida ocorre em um momento de alerta para uma possível estiagem severa no estado em 2026, o que pode voltar a impactar a navegação na região.
A recomendação foi expedida nesta terça-feira (31) e estabelece prazo de 45 dias para que as empresas apresentem justificativas técnicas e econômicas sobre a aplicação da sobretaxa no Porto de Manaus.
Segundo o MPF, a cobrança não pode ser feita sem base concreta.
“[…] não condicionou sua legitimidade à comprovação do fato gerador, isto é, à demonstração de que existem custos extraordinários mensuráveis e comprováveis”, aponta o documento oficial.
Caso não haja comprovação, a cobrança pode ser considerada indevida, com possibilidade de devolução dos valores.
A recomendação é resultado de um procedimento que analisou a aplicação da taxa nos últimos ciclos hidrológicos. De acordo com o MPF, não houve evidências suficientes para sustentar os valores cobrados.
“[…] não houve comprovação consistente de impacto operacional que justificasse os valores elevados da taxa”, destaca o órgão.
Além disso, o documento aponta que a análise deve se basear em dados concretos. A avaliação precisa considerar “dados hidrológicos e operacionais concretos, e não estimativas”.
O MPF também reforçou que a cobrança da taxa deve respeitar regras da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), responsável pela regulação econômica do setor.
“A ANTAQ é a autoridade responsável pela regulação econômica do setor, incluindo a avaliação da legalidade das cobranças”.
O órgão orienta ainda que a taxa não seja aplicada sem condições técnicas que a justifiquem.
“Abstenham-se de cobrar […] qualquer sobretaxa em razão da estiagem […] sem condições hidrológicas adequadas”, conforme a recomendação.
O documento também destaca que a cobrança deve seguir critérios claros, com bases “transparentes, justas e não discriminatórias”.
A discussão sobre a taxa ocorre em meio a projeções de mudança no cenário hidrológico da região. De acordo com o Serviço Geológico do Brasil (SGB), Manaus deve ter uma cheia dentro da média em 2026, mas há risco de uma vazante em nível severo no segundo semestre.
A possível estiagem sevara, como afirmou o SGB durante coletiva realizada na manhã desta terça (31), está associada à redução das chuvas nas regiões de cabeceira dos rios e pode afetar a navegabilidade, impactando diretamente o transporte de cargas e o abastecimento no Amazonas.
Apesar disso, o próprio MPF destaca que, em ciclos recentes, não houve condições extremas suficientes para justificar a cobrança automática da taxa. O documento menciona a “ausência de vazantes intensas durante o ciclo hidrológico de 2025”.
A Associação Comercial do Amazonas (ACA), que acompanhou o caso, avalia que a recomendação representa um avanço para o ambiente econômico regional.
Segundo a entidade, a medida contribui para maior previsibilidade no setor logístico. A recomendação fortalece “a segurança jurídica, a previsibilidade logística e o equilíbrio concorrencial no transporte aquaviário da região amazônica”.
Embora a recomendação não tenha caráter obrigatório, o MPF alertou que o descumprimento pode levar à adoção de medidas judiciais, incluindo responsabilização civil, administrativa e até penal.
A medida atinge diversas empresas de navegação que operam na região amazônica e reacende o debate sobre a transparência na formação de preços no transporte fluvial.
A reportagem de A CRÍTICA solicitou posicionamento da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) e do Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial no Estado do Amazonas (Sindarma) sobre a recomendação do MPF e a cobrança da taxa e aguarda retorno.