Sustentabilidade

Dia da Amazônia reforça transição de energia no Amazonas

Setor defende expansão da energia solar e do armazenamento para reduzir a dependência do diesel e impulsionar o desenvolvimento sustentável

Marcelo Guilherme - Especial para A CRÍTICA
05/09/2026 às 15:32.
Atualizado em 05/09/2026 às 18:51

Presidente da Amerenováveis e diretora da Absolar, Helane Souza (Divulgação)

Celebrado neste sábado, dia 5 de setembro, o Dia da Amazônia propõe uma reflexão em um momento estratégico para o setor de energias renováveis no estado. Para Helane Souza, presidente da Associação Amazonense de Energias Renováveis (Amerenováveis) e recém-empossada diretora estadual da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) no Amazonas, a data reforça a urgência de acelerar a transição energética em uma região ainda fortemente dependente de combustíveis fósseis.

Para Helane, a data vai muito além de uma celebração simbólica. “Para nós da Amerenováveis, o Dia da Amazônia é muito mais que uma celebração, é um chamado à ação”, afirma a presidente, ao lembrar que a floresta é “o coração climático do mundo”, mas também precisa ser “o motor do seu próprio desenvolvimento sustentável e limpo”. Segundo ela, a associação atuou ao longo do ano como uma ponte entre sociedade, empresas e poder público, marcando presença em debates para mostrar que a energia solar “não é um luxo distante, é o presente”, cita. Na visão da executiva, essa fonte de energia representa a “chave prática para gerar novos empregos locais e ajudar a aliviar a conta de luz, tudo isso sem derrubar uma única árvore”.

Nascida na comunidade de Santo Antônio, em Novo Airão, às margens do santuário ecológico das Anavilhanas, Helane iniciou sua trajetória empreendedora aos 19 anos e foi uma das primeiras mulheres a atuar no mercado de energia solar do Amazonas. Sobre o potencial da região, ela resume: “O Amazonas reúne algumas das melhores condições para demonstrar como a energia solar e os sistemas de armazenamento podem transformar a realidade energética de comunidades e regiões isoladas”. Mas os desafios são igualmente particulares, pontua.

Segundo ela, a grande dispersão geográfica da população, as comunidades de difícil acesso, os elevados custos logísticos e a forte dependência de geradores e usinas movidas a óleo diesel nos sistemas isolados tornam o fornecimento de energia mais caro, mais poluente e mais vulnerável. Diante desse cenário, a empresária defende a ampliação do planejamento da infraestrutura elétrica aliada a um ambiente regulatório que estimule projetos de geração solar associados ao armazenamento em baterias. Sobre os ganhos dessa combinação, explica: “Permite aumentar a segurança do abastecimento, reduzir o consumo de combustíveis fósseis e oferecer energia de melhor qualidade para a população e para as atividades produtivas”, avalia.

Diálogo é importante

Helane reforça ainda a importância do papel da nova diretoria da Absolar no estado e, em especial, do seu posicionamento como diretora estadual, ressaltando a relevância do diálogo entre setor produtivo, governos e sociedade para acelerar essa transição, transformando o enorme potencial solar do estado em desenvolvimento econômico, geração de empregos e descarbonização.

Sobre o papel das renováveis no combate às mudanças climáticas, Helane afirma que a região precisa deixar de apenas importar soluções para se tornar protagonista do seu próprio potencial verde. “O papel das energias renováveis na nossa região é muito prático e urgente”, diz, ao explicar que é preciso substituir o uso de combustíveis caros e poluentes por fontes limpas, oferecendo infraestrutura de qualidade a quem vive na região.

Em sua opinião, valorizar os recursos naturais amazônicos não significa deixar tudo intocável, mas usar a tecnologia com inteligência. “A verdadeira resposta às mudanças climáticas acontece quando o consumidor amazonense passa a ter acesso a uma energia sustentável, protegendo a floresta e o seu próprio bolso ao mesmo tempo”, resume.

De acordo com a presidente, o Amazonas já soma cerca de 323 megawatts em geração própria solar, distribuídos em mais de 17,8 mil sistemas fotovoltaicos. Ainda assim, avalia Helane, esse potencial está muito distante do que o estado pode alcançar. “Entre as prioridades da Amerenováveis estão políticas que ampliem a adoção de energia solar e baterias tanto nas áreas conectadas ao Sistema Interligado Nacional quanto nos sistemas isolados, o que vai trazer maior confiabilidade no abastecimento e redução no custo de aquisição do diesel”, disse.

Entre a lista de ações estão a busca por incentivos a projetos solares em prédios públicos, escolas, hospitais, saneamento e iluminação pública, linhas de financiamento para produtores rurais e empresas, e o fortalecimento da capacitação profissional no setor.

Leilão de armazenamento

Um dos temas que mais tem mobilizado o setor neste ano é o primeiro Leilão de Reserva de Capacidade focado em Armazenamento (LRCAP), marcado pelo governo federal para dezembro de 2026. Na prática, um leilão de energia é o mecanismo pelo qual o governo contrata, de forma pública e competitiva, a capacidade que empresas se comprometem a entregar ao sistema elétrico nacional em troca de um contrato de longo prazo.

No caso do LRCAP, o que está sendo contratado não é geração de energia, mas reserva de potência: a capacidade das baterias de guardar energia e devolvê-la à rede nos momentos em que ela é mais necessária, garantindo estabilidade ao sistema.

Sobre a relevância do certame, Helane avalia: “A realização do primeiro LRCAP voltado ao armazenamento representa um marco histórico para o setor elétrico brasileiro”, afirma.

Segundo ela, o leilão reconhece que os sistemas de armazenamento passaram a ser uma infraestrutura essencial para garantir flexibilidade, confiabilidade e segurança ao sistema elétrico nacional. A executiva avalia positivamente o modelo adotado, mas pondera:

“A Absolar considera positivo que o leilão estabeleça contratos de longo prazo, trazendo redução de custos à sociedade e maior previsibilidade aos investidores. Ao mesmo tempo, entendemos que ainda existem aperfeiçoamentos regulatórios importantes para permitir o pleno desenvolvimento do mercado brasileiro de armazenamento”, destaca.

Já para os sistemas isolados, que respondem por boa parte do abastecimento no interior amazonense, Helane vê um caminho ainda mais direto de transformação: “Os Leilões de Sistemas Isolados representam uma oportunidade maior, pela necessidade de se reduzir gradualmente a dependência do diesel”, avalia.

A expectativa da diretora é que o LRCAP seja apenas o primeiro passo de um ciclo mais amplo: “Que esse movimento inaugure um ciclo de novos investimentos e de desenvolvimento tecnológico também na Região Norte”, ressalta.

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