Meio ambiente

Estudo alerta sobre o risco de nova pandemia

Pesquisadores afirmam que a BR-319 e a mineração em Autazes podem expor populações a patógenos desconhecidos

Osmar Gusmão
05/07/2026 às 19:42.
Atualizado em 05/07/2026 às 19:57

Documento entregue no Vaticano afirma que a consolidação da BR-319, com impactos sobre 69 comunidades indígenas, e a mineração em Autazes representam uma crise complexa (Divulgação)

Obras de infraestrutura, projetos de mineração e indústria de transformação na Amazônia podem liberar patógenos perigosos para a saúde pública global, chegando a representar riscos de uma nova pandemia global, mais devastadora que a Covid-19. A conclusão é proveniente de estudo técnico-científico realizado no chamado “trecho do meio” da BR-319 e na região de Autazes (a 267 quilômetros de Manaus) onde há projetos de exploração de potássio.

O grupo responsável pela pesquisa, composto por 19 cientistas, dentre os quais o biólogo norte-americano e ganhador do Nobel da Paz, doutor Philip Fearnside, está empenhado em emitir um alerta global sobre o risco iminente de uma nova pandemia. Publicaram uma carta na conceituada revista “Science”, considerada uma das revistas acadêmicas mais prestigiadas do mundo, sob o título "Amazon infrastructure poses biosecurity risks" (“A infraestrutura na Amazônia apresenta riscos à biossegurança", em tradução livre).

Diante da ausência de uma governança global do meio-ambiente, os pesquisadores também entregaram uma carta no Vaticano, endereçada ao Cardeal Michael Czerny, Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, no dia 18 de junho de 2026. O grupo inclui pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Impactos

Intitulada “Sull’Amazzonia, la strada BR-319, un nuovo allarme pandemico e la difesa della Casa Comune” (“Sobre a Amazônia, a rodovia BR-319, um novo alerta pandêmico e a defesa da Casa Comum”, em tradução livre), a carta denuncia que a pavimentação da rodovia BR-319 e a exploração de potássio em Autazes comprometem os direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais, além de representarem o risco de uma nova pandemia, pois a destruição da floresta pode liberar patógenos perigosos para a saúde pública global.

“Estes riscos não se limitam à degradação ambiental, mas incluem impactos nos modos de vida tradicionais, na segurança territorial, na saúde coletiva, no surgimento de doenças e no agravamento das vulnerabilidades sociais em áreas historicamente ocupadas por povos indígenas e comunidades amazônicas”, diz a carta.

‘Caixa de pandora’

O documento entregue no Vaticano também afirma que a consolidação da BR-319, com impactos sobre 69 comunidades indígenas de 27 etnias, e a mineração em Autazes, em terras do povo Mura, representam uma crise complexa. De acordo com a carta, trata-se de degradação ambiental, violação de direitos territoriais, riscos sanitários e avanço de atividades ilícitas.

“Evidências científicas publicadas em revistas como ‘Science’, ‘Nature’ e ‘The Lancet’ reforçam que a abertura desta fronteira na Amazônia Central pode equivaler à abertura de uma ‘caixa de Pandora epidemiológica’, liberando riscos biológicos invisíveis com consequências globais. A região abriga comunidades microbianas pouco conhecidas que, perturbadas por obras e desmatamento, podem gerar novos surtos e crises sanitárias”, alerta outro trecho da carta.

Além de criticar o enfraquecimento das leis de licenciamento ambiental, o grupo solicita uma audiência com o Papa Leão XIV para discutir a proteção da biodiversidade. O texto fundamenta-se no conceito de ecologia integral, unindo evidências científicas ao apelo moral pela preservação da "Casa Comum".

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