O acesso a mercados locais, agricultura, pesca e condições ambientais estão influenciando a alimentação de comunidades indígenas e ribeirinhas. Pesquisa reforça a necessidade de políticas adaptadas a cada território.
(Fotos: Daiane da Rosa e João Cunha)
O que chega à mesa de comunidades indígenas e ribeirinhas da Amazônia depende não apenas do que é produzido nos territórios. Um estudo mostra que fatores como a presença de mercados locais, renda da pesca, diversidade agrícola e características do ambiente influenciam diretamente a qualidade e a diversidade da alimentação dessas populações tradicionais.
A pesquisa foi conduzida pela pesquisadora Daiane Soares Xavier da Rosa, em parceria com pesquisadores de instituições brasileiras e portuguesas que atuam nas áreas de ecologia, sustentabilidade, ciências sociais e estudos sobre a Amazônia. Participaram do trabalho pesquisadores do CE3C (Center for Ecology, Evolution and Environmental Changes & CHANGE), do Global Change and Sustainability Institute e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa; do Grupo de Pesquisa em Territorialidades e Governança Socioambiental na Amazônia, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá; do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa; e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).
O estudo foi realizado nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, no estado do Amazonas. Somando mais de 34 mil km², as reservas estão entre as maiores áreas protegidas da Amazônia, abrigam ambientes de várzea (as florestas alagáveis), de paleovárzea e de terra firme, e são lar para centenas de comunidades tradicionais. A pesquisa foi desenvolvida em seis comunidades com diferentes distâncias aos centros urbanos, diferentes contextos socioeconômicos e ambientais.
(Fotos: Daiane da Rosa e João Cunha)
Nesse cenário diverso, os pesquisadores traçaram dois perfis de comunidades: as de paleovárzea (um ambiente de transição entre várzea e terra firme), baseadas na agricultura e na pesca e com limitada diversificação econômica; e as de várzea, mais conectadas aos centros urbanos e com maior variedade de fontes de renda. A existência de dois perfis comunitários distintos sugere uma alimentação diversificada, moldada pela relação entre produção local, integração aos mercados e variedade nas fontes de renda.
"Os hábitos alimentares são construídos cultural e socialmente e são influenciados, para além de questões ambientais, por fatores socioeconômicos e de acesso", explica Daiane da Rosa. Entre esses fatores, ela destaca a presença de minimercados nas comunidades, que ampliam o acesso a alimentos industrializados e ultraprocessados, hoje também incorporados ao cotidiano alimentar de muitas dessas famílias.
Os pesquisadores identificaram que comunidades com maior diversidade de cultivos agrícolas registraram melhores indicadores de diversidade da dieta domiciliar e qualidade dos alimentos consumidos, com maior consumo de alimentos in natura e menor consumo de produtos ultraprocessados. Por outro lado, comunidades com maior estrutura e presença de minimercados tendem a apresentar maior diversificação na aquisição de alimentos industrializados e ultraprocessados.
(Fotos: Daiane da Rosa e João Cunha)
Os resultados também revelaram diferenças importantes entre comunidades e famílias. Enquanto as formas de aquisição de alimentos nos mercados variam principalmente de uma comunidade para outra, o consumo alimentar apresentou maior diversificação entre as famílias.
“Isso pode indicar que, enquanto as estratégias de aquisição são estruturadas socialmente e compartilhadas comunitariamente, o consumo alimentar reflete as diferentes formas e capacidades que cada família apresenta de converter essas estratégias em alimentação”, explica a pesquisadora Daiane da Rosa. “Em uma das comunidades participantes do estudo, por exemplo, há um barco comunitário que realiza viagens mensais à cidade mais próxima para a compra de alimentos, além de um pequeno comércio local com itens básicos. Ao mesmo tempo, algumas famílias mantêm quintais com hortaliças e plantas medicinais, outras cultivam pequenas roças para produção de farinha e há ainda aquelas que criam galinhas, porcos ou gado. Isso mostra a grande diversidade de formas de acesso aos alimentos, tanto dentro de uma mesma comunidade quanto entre comunidades diferentes.”
Segundo ela, essas diferenças no consumo alimentar entre as famílias estão relacionadas à diversidade de fontes de renda e às estratégias de subsistência (como os cultivos em roças, quintais e sítios, pesca, caça e extrativismo) desenvolvidas pelas famílias, evidenciando desigualdades no acesso físico e econômico aos alimentos.
Uma dieta mais diversificada, porém, não significa necessariamente uma alimentação mais saudável. O estudo identificou que famílias com maior renda e maior diversidade alimentar também apresentaram maior aquisição de alimentos industrializados e maior consumo de produtos alimentares ultraprocessados.
Segundo os autores, os resultados reforçam que os sistemas alimentares amazônicos precisam ser compreendidos a partir da interação entre ambiente, economia, cultura e organização social. Não existe, portanto, uma única realidade alimentar na região.
A pesquisa também aponta que fatores como renda, acessibilidade e condições ambientais podem tanto reduzir quanto ampliar as diferenças entre comunidades no acesso aos alimentos. A análise integrada realizada pelos pesquisadores identificou diferentes perfis de vulnerabilidade e resiliência alimentar, indicando que políticas públicas voltadas à segurança alimentar precisam considerar as características específicas de cada território e sistema alimentar local.
Os autores alertam que políticas de integração aos mercados devem ser planejadas com cautela e consideração aos contextos locais. Embora possam ampliar o acesso aos alimentos, essas políticas também podem favorecer a substituição de alimentos tradicionais por produtos ultraprocessados.
Em contrapartida, estratégias que fortalecem atividades baseadas em recursos locais, como a pesca de pequena escala e a agricultura de subsistência, podem contribuir para dietas culturalmente adequadas e potencialmente mais saudáveis. "Quanto maior a integração ao mercado, maior também tem se tornado o acesso físico e econômico aos produtos alimentares ultraprocessados", afirma Daiane da Rosa.
A pesquisadora ressalta que estudos anteriores já associam o maior consumo de ultraprocessados a riscos para a saúde, incluindo doenças crônicas não transmissíveis. A mudança no perfil alimentar também produz impactos que ultrapassam a saúde. O aumento da circulação desses produtos significa maior entrada de embalagens nos territórios. “Não é incomum ver pacotes de salgadinhos, garrafas PET e embalagens diversas flutuando pelos rios amazônicos”, observa Daiane, apontando a destinação inadequada dos resíduos sólidos como um desafio crescente para comunidades e municípios do interior da Amazônia.
Ao mesmo tempo, o estudo ressalta que estratégias de fortalecimento dos sistemas alimentares locais precisam vir acompanhadas de medidas capazes de reduzir vulnerabilidades associadas à sazonalidade e à instabilidade ambiental agravada pela crise climática.
De acordo com Daiane, entre as prioridades estão o fortalecimento dos programas de alimentação escolar e de assistência alimentar durante períodos de seca severa, como os registrados em 2023 e 2024. “Essas políticas precisam estar em consonância com os hábitos alimentares locais, priorizando alimentos in natura e minimamente processados e evitando produtos alimentares ultraprocessados”, defende.
No entanto, o estudo ressalta que essas estratégias precisam vir acompanhadas de medidas capazes de reduzir vulnerabilidades associadas à sazonalidade e à instabilidade ambiental agravada pela crise climática.
Para a pesquisadora, fortalecer a segurança e a soberania alimentares na Amazônia passa por reconhecer que diferentes perfis territoriais exigem diferentes soluções. Ao mesmo tempo, os resultados podem contribuir para novas pesquisas e ações em outras populações que vivem em contextos socioecológicos semelhantes.
Isso significa combinar conservação ambiental, valorização dos modos de vida tradicionais e políticas públicas capazes de ampliar o acesso a alimentos saudáveis sem enfraquecer os sistemas alimentares locais.