meio ambiente

Filhotes devolvidos à natureza são ‘termômetro’ de equilíbrio ambiental

Liderada por ribeirinhos e cientistas, a preservação devolve vida aos rios em comunidade do Careiro

Cley Medeiros
05/04/2026 às 13:58.
Atualizado em 05/04/2026 às 13:58

Ribeirinhos protegem ninhos e garantem o futuro da biodiversidade amazônica (Foto: Junio Matos)

Ainda estava escuro quando Luiz Carlos Ferreira Lira, 62, afundava os dedos na areia úmida de um barranco no Careiro, interior do Amazonas. O gesto é lento, quase cerimonial. Ele não olha diretamente para o chão — tateia. Procura, com a memória do corpo, as pequenas elevações que apontam a presença de vida escondida. Ali, sob poucos centímetros de areia, estão os ovos de tracajá depositados durante a madrugada.

O dia ainda não começou completamente, mas o trabalho de conservação já está em curso. “Se a gente não tirar do barranco e levar para o berçário, o bicho não vinga”, diz ele, sem interromper o movimento.

A cena se intensificou nos últimos anos, após uma longa temporada em que o número de tracajás caiu bruscamente devido à caça predatória. Agora, o mês de setembro virou, para Luiz e outros moradores da região, o mês do manejo. O que antes era coleta para consumo ou venda agora faz parte de uma engrenagem mais complexa, que mistura saber tradicional, ciência e voluntariado.

O retorno dos quelônios é resultado de um esforço que une a comunidade e o projeto Pé-de-Pincha, iniciativa de conservação ligada à Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e ao Programa Quelônios da Amazônia, com apoio de instituições como o Ibama e, mais recentemente, o Instituto Claro.

Criado em 2010, o Pé-de-Pincha protege os quelônios recolhendo ovos durante a seca com a ajuda de voluntários. Os filhotes ficam em berçários protegidos até a época da cheia, quando são reintegrados ao ecossistema.

O trabalho começa na vazante, quando os rios recuam e expõem as praias onde os quelônios desovam. Os ovos são recolhidos e levados para áreas protegidas — berçários improvisados que podem ser caixas d’água, cercados de madeira ou estruturas montadas no quintal das casas. Ali, os filhotes passam semanas sob vigilância constante, até que o ciclo das águas permita o retorno ao rio.

Meses depois, quando as chuvas já redesenharam o mapa do rio, chega o momento mais esperado pela comunidade: a soltura.

No último fim de semana, comunidades como Brasil 2, Pirainha, Tracajás e Tucunaré participaram da segunda etapa das devoluções de filhotes à natureza. Apenas no primeiro trimestre de 2026, a ação deve devolver cerca de 11 mil tracajás aos rios amazônicos. Antes disso, ainda em fevereiro, outros 5.243 filhotes já haviam sido soltos em Santo Antônio, Pacatuba e Lago Preto. O circuito faz parte das comemorações dos 25 anos do Instituto Claro.

As ações de preservação e soltura ocorrem de forma contínua em locais como o Igapó-Açu, que já contabiliza 16 anos de projeto, e no Ramal do Mamori, com 15 anos de atuação.

Lago do tracajá

O Lago do Tracajá fica no Careiro, a algumas horas de Manaus, e depois que o asfalto acaba e o caminho passa a depender de ramais de terra. A paisagem se abre em braços de rio, barrancos e troncos escuros onde, durante a seca, os quelônios costumam se amontoar para tomar sol. Mas nem sempre foi assim.

Durante anos, os moradores da região conviveram com um contraste difícil de ignorar: no Lago do Tracajá, quase não havia tracajá.

Com 46 anos de idade e morando há três décadas na comunidade Boca do Tamborim, Irandir Pereira dos Santos assumiu uma missão vital. Há seis anos, ele atua como voluntário no Pé-de-Pincha, motivado por um contrassenso histórico que incomodava os moradores: o sumiço dos quelônios no lugar batizado justamente como Lago do Tracajá.

A escolha do nome do lago, segundo os moradores mais antigos, deve-se ao formato do mapa da região, mas a escassez da fauna já não justificava o título. "Para representar melhor o local, já que a comunidade se chama Lago do Tracajá, seria melhor que a gente entrasse nesse projeto para aumentar os tracajás", relembra Seu Irandir, orgulhoso da decisão de agir.

Trabalho começa cedo

A rotina de conservação exige que o ribeirinho madrugue. Por volta das 5h30, ele já está nas margens do rio, vasculhando as barrancas em busca dos ninhos. O objetivo é chegar aos ovos antes do jacuraru, um grande lagarto predador da região, garantindo que as ninhadas sejam levadas em segurança para os berçários do projeto.

A corrida diária contra a cadeia alimentar nem sempre é vencida, e a perda de um ninho afeta profundamente o voluntário. "Eu fico triste, né? Decepcionado. Porque eu atrasei e o bicho chegou lá primeiro do que eu", lamenta o morador, ao descrever o cenário desolador de encontrar apenas as cascas vazias deixadas pelo predador antes de uma colheita.

“Hoje já tem mais. A gente já vê eles nos troncos, tomando sol. Antes não tinha”, diz Irandir. Ele aponta para a margem, como quem confirma o que acabou de dizer. O nome do lago, aos poucos, deixou de ser apenas um nome.

A continuidade do manejo, segundo o voluntário, depende diretamente da nova geração. Ao ver os jovens da comunidade envolvidos nas solturas, ele tem a certeza de que a preservação do Lago do Tracajá não vai parar nele. "Eles vão aprendendo. Quando crescerem mais, já sabem fazer o trabalho", conclui Iranildo.

“Os quelônios são importantes para o ecossistema amazônico. Dispersam sementes, reciclam matéria orgânica, ajudam a manter os rios limpos e as florestas alagadas vivas”, explica o zootecnista Ruben Junior, do Pé-de-Pincha.

Conservação e cidadania

Preservação de quelônios transforma comunidades no Amazonas (Foto: Junio Matos)

Além do impacto ambiental, o projeto Pé-de-Pincha garante cidadania aos colaboradores ribeirinhos. Como a entrega anual de certificados atesta o trabalho realizado a cada ciclo, o documento passou a suprir uma lacuna estrutural das comunidades rurais: a falta de um endereço fixo ou CEP.

“O certificado serve como um comprovante de residência. Quando a pessoa vai ao INSS para se aposentar, ela usa o documento para atestar que mora e trabalha naquele local. Muitos comunitários já conseguiram a aposentadoria por causa disso”, explica Midian Salgado, técnica da Ufam e voluntária no projeto desde o ínicio.

O impacto também se estende à formação profissional. O acúmulo de certificados enriquece o currículo e já ajudou diversos participantes a conquistar empregos e vagas em universidades — incluindo comunitárias que, hoje, já chegaram ao doutorado.

A base para esse engajamento comunitário, que conta com o apoio do Ibama, é a mudança de mentalidade. “Nós conscientizamos os adultos para que, ao acharem uma cova de ovos, não os destruam ou comam, mas entreguem para uma chocadeira. É uma sensibilização com os mais velhos aliada à educação ambiental com as crianças”, conclui Midian.

Ecoturismo como potencial atrativo

Para a Secretária de Turismo de Careiro Castanho, Neuzilena Macena, a união entre a gestão municipal e o Projeto Pé-de-Pincha representa um potencial atrativo para a região. A prefeitura, que já apoia a iniciativa há bastante tempo, tem planos ambiciosos: transformar o manejo de quelônios em um roteiro ecológico.

A ideia é estruturar a atividade para que os visitantes possam acompanhar de perto todo o ciclo de conservação, desde a coleta dos ovos nas praias até a eclosão e a emocionante soltura dos filhotes na natureza. Essa integração, segundo a secretária, é fundamental para o desenvolvimento sustentável do município, que já atrai visitantes interessados em seus tradicionais hotéis de selva.

“Turismo sem preservação ambiental não existe; quem faz turismo tem que ter consciência ambiental”, destaca Neuzilena. Ela ressalta que o setor hoteleiro e os empresários locais compreendem essa dinâmica e apoiam ativamente o projeto, cientes de que a manutenção da biodiversidade é o que garante a sobrevivência da atividade turística a longo prazo.

Para fortalecer o ecoturismo no Careiro e garantir geração de renda o ano inteiro para as comunidades, os hoteleiros de selva apostam na profissionalização de guias nativos e na preservação ambiental, contrastando com o mercado já consolidado e sazonal da pesca esportiva.

No entanto, o desenvolvimento do setor esbarra em graves gargalos de infraestrutura, principalmente a falta de pavimentação dos ramais de acesso, o que encarece a logística. Diante desses obstáculos e da necessidade de maior fiscalização portuária para combater pousadas irregulares, os empresários têm se organizado em associações para estruturar os serviços e cobrar apoio na promoção do destino, visando elevar o município ao patamar dos grandes polos turísticos de excelência da Amazônia.

Trabalho contínuo

a integridade das margens e até mesmo os impactos das mudanças climáticas na região. O trabalho contínuo de manejo não apenas blinda essas funções vitais contra o avanço da caça predatória, mas é a peça-chave para assegurar o equilíbrio ecológico do bioma e a segurança alimentar das próprias comunidades ribeirinhas que dividem o rio com eles.

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