preservação ambiental

Inteligência Artificial reforça combate a crimes ambientais no Amazonas

STF determina que o governo federal apresente um plano concreto de ações repressivas e integradas para enfrentar o avanço de crimes ambientais e a atuação de facções criminosas

Daniel Brandão e Graziela Pinheiro
05/05/2026 às 15:19.
Atualizado em 05/05/2026 às 15:24

(Foto: Freepik)

O narcotráfico, avanço das organizações criminosas, desmatamento ilegal, grilagem de terras, queimadas e garimpo ilegal estão entre os principais crimes ambientais registrados na Amazônia Legal nos últimos anos. Como alternativa de enfrentamento a esse cenário, Inteligência Artificial (IA) e novas tecnologias vêm sendo incorporadas às estratégias de fiscalização e combate aos crimes ambientais nos territórios amazônicos.

Nesse cenário, sistemas de Inteligência Artificial, aliados a imagens de satélite e sensores remotos, estão revolucionando o monitoramento da floresta, permitindo identificar padrões de crime, antecipar riscos e reforçar a atuação dos órgãos de controle na proteção do maior bioma do planeta.

“Traz um avanço substancial. Avalio que quando colocamos a Inteligência Artificial nesse contexto, estamos tendo ganhos em tempo de resposta. O volume que conseguimos analisar com o modelo de IA e também a capacidade de classificar, conseguimos classificar, ter a maior acurácia na classificação, analisando um volume de dados muito grande”, detalhou Luiz Cordovil, especialista em Inteligência Artificial.

Segundo dados publicados na 4ª edição do livro eletrônico Cartografias da Violência na Amazônia 2025, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mortes violentas intencionais, violência contra mulheres, avanço das organizações criminosas, apreensões de drogas, desmatamento, queimadas, garimpo ilegal, conflitos territoriais e outros crimes ambientais, cresceram substancialmente.

“Essa expansão se sobrepõe a um histórico amazônico marcado por conflitos fundiários, ocupações irregulares e crimes ambientais, produzindo uma verdadeira simbiose entre o poder bélico e financeiro das facções e as economias ilícitas que, há décadas, sustentam frentes de desmatamento, garimpo e exploração predatória”, salientou o estudo da FBSP.

Para a ambientalista Fabiana Rocha, as configurações e características da Amazônia propiciam condições para que os crimes ambientais aconteçam. As rotas do narcotráfico, por exemplo, atravessam múltiplas vulnerabilidades das florestas e cidades amazônicas, aprofundando formas de violência que há muito moldam a vida das populações locais.

“Temos uma vegetação que é grandiosa, uma floresta amazônica que tem todas as características que todos já falam e buscam por conta de todos os produtos que ela pode oferecer. Temos uma fauna grandiosíssima na frente ou comparada a outros espaços. Então, ao longo do tempo, entendemos que nada está deixado de lado. Os crimes ambientais continuam acontecendo e acontecem porque é interesse da história da exploração ou superexploração dos produtos que a gente tem aqui”, comentou.

Plano para enfrentamento a crimes ambientais na Amazônia Legal

Ainda de acordo com o estudo do FBSP, as organizações criminosas já atuam em 344 municípios da Amazônia Legal, correspondendo a cerca de 45% do total, representando um crescimento de 32% em relação ao ano anterior. Como forma de enfrentar esta realidade, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF) intensificou as determinações ao Governo Federal para a criação de um plano nacional para o combate a crimes ambientais na Amazônia e no Pantanal, com foco em uma atuação integrada e estrutural.

Amparado pelo artigo 139, inciso IV, do Código de Processo Civil, Dino destacou que o Judiciário dispõe de instrumentos para aplicar medidas coercitivas e indutivas, garantindo a efetividade de suas decisões — sobretudo quando envolvem a proteção de direitos fundamentais e a implementação de políticas públicas de alta complexidade.

“[...] cujo escopo impôs à União e aos Estados integrantes da Amazônia Legal e do Pantanal a adoção de medidas estruturais destinadas ao aperfeiçoamento das políticas de prevenção e combate a incêndios florestais, de fiscalização ambiental e de gestão territorial, com ênfase na implementação e na regularização do Cadastro Ambiental Rural”, destacou a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 743/DF).

Com investimento de mais de R$ 3 milhões, o projeto do Sidia Instituto de Ciência e Tecnologia vai ampliar pesquisas em sistemas capazes de analisar, identificar e detectar crimes ambientais. Neste projeto, a Inteligência Artificial surge como aliada importante para monitorar e identificar práticas ilegais no país.

“O projeto já está vigente e estamos nesse primeiro momento na fase de aquisição do equipamento. Então já tem tratativas em andamento para a aquisição, temos a expectativa de que até setembro o material esteja aqui conosco, para que possamos de fato iniciar toda a parte de treinamento e prospecção dos parceiros”, detalhou o Cordovil.

Embora avanços tecnológicos estejam ocorrendo em todas as esferas, especialistas ainda têm cautela quanto e pautam que o sucesso do plano depende da execução prática das medidas nas áreas afetadas.

“Para que isso aconteça, você precisa ter capacidade técnica, formação técnica e ter um quantitativo que consiga abranger todas as áreas que têm espaços. Para que você consiga conceber um projeto que consiga dar uma estrutura, que mostre que o Governo tem capacidade de execução, você está falando de investimento de milhões, você está falando de condições que precisam perpassar anos e governos para que isso realmente se consolide ao longo do tempo”, concluiu Rocha.

Os dados evidenciam que a agenda climática e de desenvolvimento sustentável precisa incorporar a segurança pública e o enfrentamento ao crime organizado como pilares centrais. Nesse contexto, o uso de Inteligência Artificial e de tecnologias avançadas de monitoramento surge como aliado estratégico, capaz de integrar proteção ambiental e combate às redes criminosas, ampliando a capacidade de resposta do Estado diante das ameaças que assolam a Amazônia Legal.

“A Amazônia não avançará rumo a um futuro sustentável enquanto suas políticas e instituições de proteção territorial não forem capazes de enfrentar, com solidez e continuidade, o poder das economias ilícitas e das facções que hoje disputam a região. Somente com salvaguardas efetivas ao Estado de Direito será possível garantir segurança, justiça e desenvolvimento para quem vive na Amazônia”, finalizou o estudo do FBSP.

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