Iniciativa no Alto Solimões e Alto Rio Negro valida soluções como tingimento natural de tecidos e rastreabilidade de artesanato
(Foto: Alex Costa/Divulgação)
Nas regiões do Alto Solimões e Alto Rio Negro, empreendedores indígenas estão testando tecnologias voltadas à bioeconomia, como o tingimento natural de tecidos e a rastreabilidade de artesanato. Criadas a partir da cultura local, dos conhecimentos tradicionais e dos recursos disponíveis nos territórios, essas soluções nascem adaptadas à realidade das comunidades para apoiar a formulação de uma metodologia de validação replicável a outras comunidades.
O trabalho é de responsabilidade do Manaus Tech Hub (MTH), aceleradora com foco na inovação e empreendedorismo do Sidia Instituto de Ciência e Tecnologia, que executa o projeto “Desenvolvimento de Processo Metodológico para Implementação de Tecnologias Indígenas na Bioeconomia Amazônica” em parceria com o Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia (Idesam).
(Foto: Alex Costa/Divulgação)
O projeto propõe a criação e validação de uma metodologia inédita que busca preencher a lacuna entre os conhecimentos tradicionais e sua aplicação estruturada na bioeconomia. O processo envolveu a seleção de tecnologias indígenas, construção coletiva dos critérios de validação de uma tecnologia que interage com comunidades amazônicas, o aperfeiçoamento técnico e testes em campo.
A partir dessas etapas, o projeto pretende consolidar um modelo replicável para outros empreendedores. A iniciativa fortalece o protagonismo indígena, promove a inclusão produtiva e sustentável, além de gerar renda e contribuir para a conservação da sociobiodiversidade amazônica.
“Atualmente, existem muitas ferramentas para startups de base tecnológica com modelos de negócio baseados na escalabilidade a partir da tecnologia. Mas quando falamos de tecnologias sociais e outros modelos de negócio que atuam diretamente com insumos e comunidades presentes nos territórios, existe uma necessidade muito grande que se faça a diferenciação de como devemos tratar e interagir com essas comunidades”, explica o analista de inovação do Manaus Tech Hub, Eduardo Santos.
(Foto: Alex Costa/Divulgação)
Diferente de modelos tradicionais, as soluções não são desenvolvidas externamente, mas pelos próprios empreendedores indígenas, que conhecem as características do território e sabem o que é possível construir a partir dos recursos disponíveis.
No Alto Rio Negro, por exemplo, o projeto acompanha a tecnologia ManioColor, desenvolvida por Sioduhi Waíkʉhn, empreendedor indígena. A solução utiliza resíduos das cascas de mandioca brava para produzir pigmentos naturais aplicados à moda e ao design, transformando um subproduto local em matéria-prima com valor agregado.
“Foi nesse contexto que criei a tecnologia ManioColor, conectando ancestralidade, inovação e novas perspectivas para os povos originários”, afirma Sioduhi.
A tecnologia parte de conhecimentos tradicionais do Sistema Agrícola do Rio Negro e mantém conexão com práticas já existentes nas comunidades.
“Ela vai além de uma inovação têxtil. Está ligada à memória e aos saberes ancestrais dos povos indígenas. Para a comunidade, isso mostra que esses conhecimentos também são ciência e podem contribuir com soluções para desafios atuais”, completa.
Já no Alto Solimões, a iniciativa acompanha uma tecnologia de rastreabilidade do artesanato. Nesse caso, o uso de blockchain, sistema digital que registra informações de forma segura, permite associar cada peça à sua origem, identificando o produtor, o território e as características do processo produtivo.
Na prática, isso ajuda a garantir autenticidade, fortalecer a identidade cultural e ampliar o valor dos produtos no mercado.
O Manaus Tech Hub é uma aceleradora com foco na inovação e empreendedorismo criado pelo Sidia, com o objetivo de executar programas e projetos voltados à conexão entre startups, empresas e governo, com foco na Amazônia Ocidental e no estado do Amapá.
A iniciativa atua em frentes como eventos de tecnologia, mentorias, aceleração de startups, parcerias público-privadas e programas de inovação corporativa, além de apoiar a captação de recursos por meio de instrumentos como a Lei de Informática.