Domingo, 05 de Dezembro de 2021

Conexões Negras

Por Flávio Gomes, doutor em História (UNICAMP) e professor da UFRJ. Este artigo compõe a Ocupação da Rede de HistoriadorXs NegrXs em veículos de comunicação de todo o Brasil neste 20 de novembro de 2021


20/11/2021 às 10:51

A inflexão nos estudos sobre escravidão no Brasil das últimas décadas é fruto da ação dos movimentos negros e de seus intelectuais.

Alinhando pautas para uma história negra, emergem biografias e trajetórias pouco conhecidas. Na Corte imperial, o africano Miguel Dias se reunia com outros para organizar a Sociedade Beneficente da Nação Conga, em moldes mutualistas. Em 1861, solicitaram a aprovação de seus estatutos ao Conselho de Estado. A negativa dada alegava que tal associação só aceitava pessoas com o “predomínio da Costa e da cor” (africanos e seus descendentes) e que deveria ela “alterar essas expressões e limitações por que a humanidade não se compõe só da cor preta”.

Em 1872, o africano Modesto Cruz e outros rascunharam os estatutos para a criação da nova Sociedade de Beneficência da Nação Conga, que incluía projetos educacionais. Mais uma recusa do Conselho. Se antes o problema era ser somente para aqueles de “cor preta” e da “nação Conga”, todos livres; na segunda vez, a questão era admitir também “escravos, o que é contrário às leis”. As intenções desses africanos no Rio de Janeiro, ao criarem uma sociedade que poderia apoiar escolas, iluminam as expectativas de letramento negro.

Também é fundamental recuperar o papel da imprensa e as interconexões com a sociedade escravista no Brasil do século XIX. Conteúdos editoriais e, sobretudo, textos de correspondentes regionais e internacionais circularam e produziram usos e sentidos. Ainda sabemos pouco sobre jornais, redatores, circulação de ideias, formação da opinião pública e percepção política da população pobre, incluindo negros livres, libertos e mesmo escravizados letrados. A própria cobertura jornalística dos debates parlamentares, das ruas e das sociedades emancipacionistas foi acompanhada por escravizados em todo o país. A circulação de ideias abolicionistas nos jornais ecoava e acabava por alcançar os escravizados. Em 1877, em Campos dos Goitacazes (RJ), foram descobertos planos de uma insurreição cujo líder era um cativo alfabetizado que ia à cidade comprar o "monitor e outras folhas incendiárias". Lia e transmitia a seus pares notícias relacionadas ao fundo de emancipação.

Bem antes, na década de 1830, jornais reproduziam o noticiário sobre a liberdade no Caribe inglês e os rumores de revoltas. Autoridades temiam que os cativos soubessem disso. Nos anos 1860, em Minas Gerais e no Maranhão, falava-se que nas senzalas e nos quilombos eram comentados os acontecimentos de Cuba, da Guerra do Paraguai e do pós-guerra civil nos EUA. Para os anos 1880, sabemos que notícias sobre a Abolição no Ceará e no Amazonas (1884) chegaram aos jornais do Rio, havendo comícios abolicionistas e repercussão entre a população negra.

Aumentam as histórias negras sobre o pós-abolição, com cronologias e espaços ampliados. Gerações de pesquisadores negras e negros articulam produção intelectual sobre cidadania antirracista, oferecendo rico material acadêmico e circulação ampliada em redes sociais. Destaca-se a ideia de um abolicionismo negro e o papel de jornalistas e literatos nas primeiras décadas do século XX com jornais e associações políticas próprias.
Para além dos periódicos e sociedades emancipacionistas, escravizados e a população negra, em geral, não ficaram impassíveis diante dos acontecimentos. Conduziram suas histórias e assinaram os roteiros das suas vidas.

 

A imagem que ilustra este post é da pintora  Harmonia Rosales, que recriou o quadro "A Criação de Adão”, de Michelangelo


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