Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019

Maria da Penha, fonte de energia

*Por Ivânia Vieira, professora da Ufam e articulista de A Crítica


07/08/2019 às 09:42

Entre o medo de reagir e a decisão de resistir ao que oprime e mata uma linha tênue se movimenta para traçar o caminho a ser seguido. Hoje, o amedrontamento se tornou condição de sobrevivência a centenas de brasileiros, de todos os níveis socioeconômicos, dos não escolarizados aos diplomados na pós-graduação.

Um medo que faz o silêncio falar do pacto de aceitação; apresenta velhas narrativas de conciliação do que não é conciliável e aciona o método de explorar temas aleatórios na tentativa de não colidir com os arranjos monstruosos em execução. Alguns repetem “Não queremos confusão”; “Prefiro falar de outra coisa”; “Esse assunto já me cansou”; ou “Tratar desse assunto me cansa. Chega de problema. Vamos gastar nossas energias com outras coisas”...

Ora, o acordo não funciona desse jeito. Produz equívocos e engodo com prazos de validade. O monstro tem a capacidade de se reconfigurar e se apresentar em vários formatos da perversidade nos ambientes públicos e privados mais díspares. No plano geral, ao agir, escancara a feição mais conservadora, autoritária e racista da sociedade brasileira. Por meio dela, o monstro estica a linha e redefine espaços de circulação, de expressão, de sociabilidades num tipo de segregação contemporânea expressa pela hipocrisia e a ignorância. O monstro serve aos intentos dessa parcela da sociedade afeita a um tipo de distinção apreendida no longo e profundo processo colonizador que marca a nossa história. O monstro é a melhor expressão dessa porção social que o aplaude e proporciona cliques em profusão; têm um Deus modelizado no negócio do lucro financeiro, na especulação do capital, na grilagem das terras, no mercado como senhor das decisões; e faz oração com o revolver em punho, pronto para atirar e matar em nome de Deus e da defesa da tradição, da família e da propriedade.

Os filhos da outra são abandonados e mortos. Culpabilizados pela própria morte. São parte da outra porção de brasileiros, aquela gente que não presta por causa da cor, da cara, por ser pobre. O medo constrói muros e lota igrejas-empresas. Fieis amedrontados cantam o canto do medo e tentam dormir na paz do senhor monstro. Amanhã, em seus carros ou nas andanças públicas, irão descobrir que a paz não é conciliável com a violência e, esta, liberada como forma de governar, não faz distinção.       

Resiliência: A farmacêutica Maria da Penha sentiu medo e nele descobriu uma razão e a energia para seguir, resistir e se fazer resiliência até que todas nós, encorajadas por ela e encorajando-a, nos juntássemos para gerar um movimento nacional e internacional pelo fim da violência doméstica e a justa punição dos agressores.

A Lei Maria da Penha (lei nº 11.340/2006), completa hoje, 7 de agosto, 13 anos. Com ela, o Brasil foi obrigado a reorganizar protocolos e adequar a legislação. A pauta da violência contra a mulher ganhou visibilidade nos movimentos sociais, na mídia e nos estudos acadêmicos. Expôs acordos espúrios para livrar agressores, a falta de estrutura no atendimento as vítimas e, em meio a tentativas de desmontá-la, segue produzindo outros aprendizados ao questionar a violência institucional, possibilitar conhecimento de direitos e deveres, proporcionar rodas de conversas em diferentes idades sobre o que é a violência doméstica; e como parâmetro do tamanho da vontade oficial de zelar pela integridade da mulher e de seus filhos em situação de vulnerabilidade.

Que o medo de agora não nos encurrale diante do monstro e, sim, nos faça superar as distâncias para energizar as lutas e as formas de enfrentamento.


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