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Se gritar genocídio, isso passa a ser verdade?

Por André Lajst; o autor é neto de sobrevivente do Holocausto, mestre no conflito árabe Israelense e diretor executivo da StandWithUs Brasil. 30/08/2018 às 16:04
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Vou me apresentar:  meu nome é André, nasci na Vila Mariana, em São Paulo, em 1986. Sou filho de pai brasileiro e mãe argentina, ambos judeus, e neto de imigrantes poloneses e russos que fugiram da Europa devido à perseguição religiosa aos judeus antes e durante a Segunda Guerra Mundial.

Meu avô paterno, Chaim Lajst, sobreviveu ao Holocausto, o maior genocídio da História da humanidade. Sua família inteira, avós, pais, irmãos, tios e primos foram mortos no Holocausto Nazista, que dizimou mais de 6 milhões de pessoas. Meu avô foi enviado, em 1942,  para um campo de extermínio chamado Sobibor, conhecido pela brutalidade e matança sistemática de mais de 270 mil judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse campo, ele trabalhava como “jardineiro”, misturando as cinzas dos mortos queimados com a terra a ser usada no plantio. Após 7 meses no campo, alguns prisioneiros conseguiram organizar e executar uma das únicas revoltas bem-sucedidas de que se tem notícia em um campo de concentração. Conseguiram lutar contra os cruéis soldados nazistas para fugir de Sobibor, após derrubarem os portões e cercas onde estavam encarcerados. Das 300 pessoas que conseguiram escapar, apenas com a roupa do corpo, somente 60 sobreviveram ao severo inverno polonês. Meu avô foi um deles.

A reflexão sobre o Holocausto, um genocídio de pessoas inocentes, me ajudou a estruturar o caráter. Esse processo de reflexão me deu algumas certezas. Uma delas era a de que eu deveria lutar contra injustiças independente de onde elas se manifestassem. Prometi para mim mesmo que aquilo nunca mais aconteceria para com o meu povo, nem para com outros inocentes que fossem perseguidos somente por conta de sua crença religiosa, origem étnica ou orientação sexual. Em nenhum momento tive dúvidas que esse deveria ser o meu papel nesse mundo.

Tenho uma sólida formação acadêmica voltada para a história do Oriente Médio, do terrorismo e do conflito árabe-israelense. Durante mais de 7 anos estudei profundamente a região, com o privilégio de ter morado em Israel por mais de uma década. Vi de perto os dois lados da questão, o sofrimento e desespero das vítimas do conflito. Claramente percebi que existe uma grande manipulação com o objetivo de demonizar o outro lado e impedir que uma solução pacífica possa ser estabelecida. Posso afirmar com a mais absoluta certeza que Israel deseja a paz. Tenho também certeza que busca o diálogo com seus vizinhos, mas que não pode abrir mão do seu direito de se defender diante dos ataques daqueles que desejam a destruição do país. Israel sabe que, enquanto não houver um parceiro confiável com quem possa negociar, o processo de paz fica comprometido.

Uma parte da academia no Brasil está tomada por um sentimento anti-Israel por conta de uma leitura fantasiosa do conflito e da natureza do povo israelense. Essa leitura se baseia em relatos que põem os palestinos exclusivamente como vítimas e Israel exclusivamente como agressor. Seria equivocado da minha parte considerar Israel um país perfeito e isento de erros. Isso naturalmente pode acontecer em um conflito tão complexo como esse. O que posso afirmar, entretanto, é que a maioria do povo israelense não nutre nenhum ódio contra os árabes. Muito pelo contrário, busca uma solução pacífica a longo prazo. Na "Israel imaginária", inventada por parte da esquerda brasileira, os israelenses odeiam árabes e querem tomar à força suas terras. Mais de 2 milhões de árabes vivem em paz em Israel como cidadãos plenos, visitam livremente suas mesquitas e igrejas, tem seus comércios e lugares sagrados preservados e até fazem parte do parlamento israelense.

Sugiro fazer aqui um exercício de imaginação:  imaginem judeus vivendo hoje em países árabes. Sabemos que isso é praticamente impossível, mas para fins de argumentação vamos considerar essa possibilidade. Se isso fosse viável, nesses países os judeus viveriam com certeza sob o espectro da perseguição religiosa, da discriminação étnica, do ódio e do preconceito religioso. Agora, se essa "Israel imaginária" fosse uma realidade, onde estariam esses 2 milhões de árabes que hoje vivem em paz no país? Como seriam tratados? Essas perguntas precisam ser respondidas.

No último dia 21 de agosto, atendendo a um convite, palestrei na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). No meio da minha fala, um jovem decidiu interromper a palestra aos gritos, acusando Israel de genocídio e me acusando de ser parte desse genocídio. Nesse momento, tomei das suas mãos um cartaz que dizia “Não é uma guerra, trata-se de um genocídio”. Não me orgulho do que aconteceu, mas entendo claramente por que fiz isso. Como falei no começo desse texto, as minhas memórias familiares relacionadas ao genocídio não me permitem que a palavra seja usada de forma tão leviana e banal. O conflito árabe-israelense longe está de qualquer coisa que se assemelhe a um genocídio. Tem uma outra natureza. Deve, assim, ser compreendido por uma outra ótica. Dito isso, a ONU ou nenhum outro órgão internacional jamais caracterizou o conflito como genocídio.

Gostaria de convidar todos os estudantes universitários, todos os interessados no conflito israelense-palestino, todos aqueles que buscam a paz mas que possuem uma visão unilateral baseada nas notícias que vemos na mídia, que venham participar desses debates e dessas conversas de forma civilizada, pois é apenas através dessas conversas que poderemos quebrar estereótipos e eventualmente construir um diálogo franco e verdadeiro sobre os dilemas que a região possui. Ao contrário do que muitos pensam, a paz é construída através do diálogo e não do enfrentamento aos gritos. É o resultado do reconhecimento do direito do outro existir e não do incentivo à aniquilação daquele que pensa diferente de nós.

O meu desejo, assim como a StandWithUs Brasil e todos os nossos parceiros, é que a paz no Oriente Médio chegue eventualmente a ser uma realidade. Uma paz onde se respeitem a autodeterminação dos povos, superem questões religiosas e étnicas, uma paz baseada em justiça, segurança, autodeterminação, cooperação e reciprocidade.