O jornalista das periferias

O jornalismo praticado por José Rosha encontra na resiliência e na resistência as expressões possíveis de nominá-lo

Ivânia Vieira
03/12/2020 às 22:41.
Atualizado em 24/03/2022 às 21:59

Há 24 dias, José Honório Garcia Rocha, nosso companheiro J. Rosha, deixava este planeta. Tinha se comprometido, pouco antes da pandemia estourar, levar a cabo alguns projetos rascunhados por anos, como a edição, no formato livro, de parte dos cartuns por ele produzidos desde o tempo da faculdade, depois em centenas de boletins dos movimentos de trabalhadores, indígenas e pastorais sociais, enriquecendo publicações de colegas e amigos. Assim fez no marcante “Imaginei Assim”, coletânea de poesias da jornalista Ana Célia Ossame.

Rosha tinha dificuldade para juntar suas criações e organizá-las. Nesse departamento, fazia o tipo largado, atribuía importância menor ao conteúdo que produziu em mais de 30 anos de exercício do jornalismo. Fez a opção de ser repórter, fotógrafo, diagramador, editor de outras causas, aquelas mais difíceis onde o salário é incerto e a função permanece: ser repórter, sempre.

O jornalismo praticado por Rosha encontra na resiliência e na resistência as expressões possíveis de nominá-lo. Na estrada dos movimentos operário, indígena, dos sem moradia e de agricultores familiares acompanhou acontecimentos demarcatórios na história do Amazonas, da Amazônia e da Pan-Amazônia.

Rosha viveu, como repórter, as grandes greves de trabalhadores metalúrgicos no Distrito Industrial da Zona Franca de Manaus (Polo Industrial de Manaus), fez viradões acompanhando as assembleias dos operários, as marchas, entrevistando, escrevendo e editando matérias em sucessivos boletins. Como assessor do Conselho Indigenista Missionário do Regional Norte I (Cimi) andou na Amazônia profunda, ouviu as vozes daqueles e daquelas sujeitos invisibilizados pela lógica do sucesso jornalístico, se fez ponte no ecoar das vozes em um tempo em que a internet não existia e redes sociais eram feitas por outros fios; narrou os saques na Amazônia, as lutas indígenas, os massacres, a reconquista da Terra Indígena Raposa-Serra do Sol.

Com olhar atento, participou de vários encontros pré-sínodo para a Amazônia, formulou perguntas instigadoras. Marchou obstinadamente na mata e no asfalto com os indígenas. Generosamente, se dispôs, em vários momentos, a conversar com estudantes de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), compartilhar as experiências de repórter vividas no universo amazônico e, por vezes, cobrou compromissos na formação jornalística voltada à complexidade amazônica.

Rosha não foi celebridade jornalística, afastou-se categoricamente desse adereço e embrenhou-se na alma amazônica confeccionada por embates ferrenhos que só eram transformados em manchete quando feitos tragédias, genocídios, saqueamentos. Testemunhou as mais belas celebrações dos povos ordinários, dos sem-direito e sem voz e dançou com essa gente, com as águas, a floresta, a dança da liberdade. Brindou ao sabor das ervas, raízes e bebidas amazônicas as alegrias da semeadura e da colheita, das conquistas dos povos marginalizados. Fez dessa existência de repórter outras narrativas, outras construções que são fundamentais aos estudos e aos posicionamentos jornalísticos na Amazônia, à compreensão de capítulos da história amazônica.

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