Passarinho e Pirandello

Li com tristeza que o homem que me apadrinhara era uma personalidade controversa, e que defendeu até o último instante as atrocidades do regime de exceção

Marcus Lacerda
marcuslacerda.br@gmail.com
12/06/2021 às 11:38.
Atualizado em 13/03/2022 às 15:38

Aos três anos de idade, vestido com uma calça de corte social, tive a chance de comparecer à colação de grau da minha avó. Depois de muitos anos trabalhando como funcionária pública, ela havia realizado o sonho de concluir um curso superior. Aquele foi o maior desafio da menina Pequetita, como era chamada pelo avô, que subjugada pela epilepsia, na infância, nunca achou que poderia estudar. Tita tinha verdadeira paixão por Juscelino Kubitscheck, desde quando ele, como governador de Minas Gerais, visitou seu pequeno grupo escolar, na pequena Perdões. Mais tarde, quando idealizou Brasília, ela o seguiu sem pestanejar.

A formatura de Tita me deu vontade de estudar também, já em condições mais favoráveis, na periferia de Brasília. Estudar sempre me pareceu o caminho mais acertado e para o qual estava vocacionado. Em uma antiga família de carpinteiros, o estudo era tratado com deferência pelos tios.

A morte precoce do meu pai, um taxista, nos trouxe muita dificuldade financeira. Uma recém viúva precisou cuidar de dois filhos pequenos. Minha mãe nunca abriu mão de nos matricular em escolas particulares, porque também acreditava que o investimento um dia seria recompensado. A tradicional família mineira colocava os filhos de médicos e advogados no Centro Educacional Jesus Maria José, onde também acabei fazendo todo o ensino fundamental, sob os atentos olhos das irmãs seguidoras de Rita Amada de Jesus.

No ensino médio, uma dura decisão de família de me matricular na melhor escola preparatória esbarrava-se nas limitadas finanças domésticas. Minha mãe, ainda muito jovem, havia se casado novamente. Meu padrasto era uma pessoa boa, e também trabalhava como motorista para sustentar a casa. Antes, ele havia sido o homem de confiança do General Golbery do Couto e Silva, o astuto articulador da reabertura da democracia Brasileira.

Um dos passageiros frequentes dele era o senador Jarbas Passarinho, acreano de Xapuri, e figura muito forte da ditadura militar, tendo sido ministro do trabalho, da educação, da previdência, da justiça, governador do Pará e, por último, senador da República. O motorista lhe falava diariamente sobre o enteado estudioso, e sobre as dificuldades da família. Jarbas Passarinho pediu então para ver o boletim do adolescente. Frente às notas de destaque, o senador escreveu em um pequeno guardanapo de papel a recomendação para que o Coronel Gil, velho conhecido de outrora, atendesse ao pedido de uma bolsa integral nos Colégios Objetivo.

Os anos de estudo gratuito foram decisivos para a aprovação no vestibular em Medicina, na Universidade de Brasília. Anos mais tarde eu viria a me especializar em doenças infecciosas e parasitárias, em Manaus, tornando-me pesquisador de renome na área das doenças tropicais. Eventualmente até teria chegado até aqui sem a ajuda do senador, mas tenho minhas dúvidas; sua intervenção foi fundamental e decisiva. 

Morto em 2016, li com tristeza que o homem que me apadrinhara era uma personalidade controversa, e que defendeu até o último instante as atrocidades do regime de exceção. Marina Silva fez uma homenagem pós mortem ao conterrâneo, porque aprendera a ler, tardiamente, no Mobral, uma de suas invenções mais importantes, apesar de discordar de suas posições políticas. A Universidade Federal do Rio de Janeiro revogou, este ano, o título de Doutor Honoris Causa dado a Passarinho. À luz das novas evidências da Comissão da Verdade, Jarbas Passarinho passou a ser figura menos querida.

Em um momento tão delicado da pandemia de COVID-19, em que não sabemos ao certo quem está certo e quem está errado, experimento um misto de sentimentos. Parece que nem todos são exclusivamente bons ou maus; parece que a consequência dos nossos atos é verdadeiramente imprevisível; parece que só o tempo nos permitirá julgar os mocinhos e os bandidos. Como numa obra de Pirandello, as personagens vão se revelando aos poucos, e o expectador muda de opinião a cada ato, enxergando a si mesmos, quando a narrativa tem um novo clímax.

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