Sábado, 30 de Maio de 2020
COVID-19

A doença do fim solitário: como lidar com o luto durante uma pandemia

Eliminação das etapas da despedida como velório e funeral amplia o sofrimento dos familiares e pode acarretar até mesmo transtornos mentais



1690846_C3A4089E-1F2A-4154-A4FD-C5A08981644A.jpg Foto: Euzivaldo Queiroz
10/05/2020 às 06:00

Perder um ente querido por si só já traz muita dor. Em tempos de pandemia como a que estamos vivendo atualmente, quando não há a possibilidade de despedida e de rituais fúnebres como o velório e o funeral, o luto pode tornar-se ainda mais delicado para a família.

Distante do corpo que se encontra em um caixão lacrado e sem poder dar o último adeus. Assim, milhões de pessoas estão vivendo essa nova realidade em todo o mundo.



Para psicólogos, a despedida de uma pessoa próxima falecida é essencial, ritual esse que evita o sentimento de culpa e a possibilidade de se adquirir transtornos mentais.

“Nós estamos vivendo um momento parecido com a guerra. Essas pessoas que estão em casa, com seu ente querido hospitalizado, vivem o mesmo sentimento de alguém que vai e não volta mais e isso gera angustia, medo, tristeza, que são sentimentos elaborados durante o processo de luto”, explicou o psicólogo e especialista emocional Geisyng Azevedo.

“Como ela não tem essa possibilidade de enterrar esse ente querido, é provável que existam lacunas e isso poderá trazer depressão, alterações no sono, da alimentação, porém isso depende como cada pessoa vai lidar com a situação”, acrescentou.


Familiares precisam acompanhar o enterro à distância. Foto: Jair Araújo

Diante do luto, as pessoas podem passar por cinco fases: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Este modelo foi proposto pela psiquiatra suíço-americana Elisabeth Kübler-Ross no seu livro On Death and Dying, publicado em 1969. Utilizando essa referência, a psicóloga e especialista em psicanálise Nazaré Mussa destaca que as fases podem ser ainda mais dolorosas caso não haja a despedida necessária.

“É preciso compreender o momento que estamos vivendo e, sim, claro que o fato de não nos despedirmos dos nossos entes queridos poderá gerar em nós culpas e dores delicadas de serem trabalhadas, pois pular etapas fará com que as fases propostas por Elisabeth sejam mais demoradas e sofridas”, comentou ela, que disse ser preciso externar os sentimentos como a dor e o sofrimento.

“No consultório, eu trabalho com a possibilidade de montar um ambiente mental para a pessoa poder falar com o seu ente querido, dizendo tudo que gostaria de dizer e que não pôde, não conseguiu. Às vezes, escrever uma carta e imaginar que ao ler a pessoa receberá essa mensagem”, afirma a especialista.

Abordagem filosófica

A morte é obstáculo enfrentado desde a antiguidade e aquele que não entende as circunstâncias do fato irá sofrer, conforme o que destaca a filosofa amazonense Narda Telles Yamane.

“Hoje lutamos contra um vírus, mas essas batalhas e guerras são enfrentadas há muito tempo. O fato de amarmos pessoas faz com que o sofrimento em não se despedir se torne maior. Mas, dentro das circunstâncias de contágio, deve-se entender e aceitar. Aquele que não entende isso vai sofrer muito mais”, diz a filósofa.

A pensadora, que cita o filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga Sócrates, ressalta que a dor precisa ser sentida para o crescimento do indivíduo.  “Sócrates dizia: ‘Conhece-te a ti mesmo. Pois quanto mais nos conhecermos melhor poderemos lidar com as adversidades do mundo’. Aquele indivíduo que guardar tristeza exacerbada e rancor por não ter se despedido, ele não crescerá como ser humano. É preciso se conhecer para saber lidar tanto com a dor quanto com o prazer”, observa Narda Telles.

Para outro profissional da filosofia, José Carlos Ferreira, é preciso que o indivíduo tenha esperança na vida após à morte. Apesar do parente ou amigo não poder despedir-se naquele momento, a saída é pensar que o sentimento pelo morto permanece.

“Segundo o filósofo Roger Scruton, após a morte, a pessoa permanece conosco em pensamento; enterramos seu corpo, respeitamos tudo o que pertence a ela e honramos a sua memória. O triunfo do corpo na morte parece, portanto, também uma espécie de vitória da alma”, citou Ferreira. “Logo, mesmo com todas essas restrições de não velar nosso ente querido, devemos guardar e honrar a sua memória, lembrar dos melhores momentos, pois todo ser humano deixou um rastro em vida, todo ser humano é significante”.

Momento para cultivar a pandemia

Para o filósofo amazonense Martinho Correia Barros, o momento que o mundo vivencia hoje é um rompimento com o que fora instituído pela tradição de cada família, o que, consequentemente, torna esse instante muito mais frio, repleto de solidão e sem a calorosa solidariedade dos amigos e familiares. De acordo com ele, o momento requer muita racionalidade e, para isso, busca compreender o momento de luta, dor e incertezas no Imperativo Categórico de Kant.

“Penso que só podemos sair desta pandemia juntos. Não há como vencer esta guerra sozinho. A saída que encontro no filósofo está pautada da ideia de que devemos agir somente, segundo uma máxima tal, que possamos querer ao mesmo tempo que se torne lei universal”, comentou Martinho.

“Trata-se de algo simples de se entender na prática: Você não quer ser contaminado, então não proporcione a contaminação de ninguém! Você não quer perder sua mãe? Então, faça por onde para que ninguém perca sua mãezinha querida! Este é um momento para cultivarmos e sermos especialistas em empatia e sempre pensar no outro a partir de minha ação. Não é esperar pelos outros, mas que você faça a sua parte!”.

Rito de despedida em casa

O psicólogo Geisyng Azevedo recomenda que o familiar faça o velório virtual, em casa mesmo. Para isso, utilize a foto do ente querido e faça as homenagens que faria se estivesse próximo ao corpo do falecido.

“Faça uma oração, cante a música preferida da pessoa, lembre dos momentos e se despeça. É importantíssimo que haja o rito de despedida dessa pessoa. A gente precisa aceitar que isso é uma realidade, professar a sua fé, seja lá qual ela for. É importante que as pessoas tenham esse processo de acreditar que a pessoa está fazendo a passagem e ela está vivendo um descanso. Acreditar em Deus é fundamental, e quando falo isso é o em Deus daquela pessoa, e o principal: não segure o sofrimento”, aconselhou o profissional, que também recomenda plantar uma árvore em homenagem aquela pessoa como um símbolo do acontecimento.

News karol 2d8bdd38 ce99 4bb8 9b75 aaf1a868182f
Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.