Sexta-feira, 18 de Setembro de 2020
EM CASA

Ensino a distância recebe elogio durante quarentena de pandemia no AM

Alunos, professores e pais avaliam as três primeiras semanas do modelo de ensino a distância ‘forçado’



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10/04/2020 às 14:59

Apesar da natural saudade e desejo das coisas voltarem ao normal o mais rápido e saudavelmente possível, a medida das redes pública e particular de ensino de adotar aulas a distância neste período de isolamento em face da pandemia do Covid-19 está sendo bem aceita por pais, responsáveis, alunos e professores envolvidos.

Estudante do 6° ano do Ensino Fundamental 2 na Escola Estadual de Tempo Integral (CETI) Elisa Bessa Freire, na Zona Leste da capital, a aluna Adyla Sophia, de 11 anos de idade, conta que está se adaptando à nova realidade dentro do projeto educacional “Aula em Casa" da Secretaria de Estado de Educação e Desporto (Seduc).



“No começo achei muito difícil, mas agora estou tentando me adaptar a estudar em casa”, conta Adyla.

A saudade da escola e dos amigos é tão frequente, para ela, quanto a vontade de voltar às aulas presenciais.

“Tenho saudades de ir para escola e dos meus amigos. Gosto de conversar e brincar com os meus colegas, quero que tudo isso possa voltar como era antes”, conta a jovem estudante.


Adyla Sophia e a mãe dela, Sara Paes (Divulgação).

Seus pais, Sara Paes e Fabio Alves, concordam com a aula a distância. Com a palavra, a mãe: “É o melhor método a ser feito diante da situação que estamos passando, desta forma os alunos não perdem o ano letivo”.

Ela reforça que essa atividade é a melhor a ser executada em face da pandemia. “Sim, é a melhor coisa a ser feita. Desta maneira os alunos não ficarão prejudicados, eles estão tendo aulas pela TV com assuntos que seriam abordados em salas de aulas, estão tendo tarefas, trabalhos como se estivessem na escola. Nós, como pais, estamos tendo mais contato com os professores e, assim, podemos buscar métodos e formas para facilitar o aprendizado em casa para os nossos filhos”, avalia Sara Paes.

Rede municipal

Aos 4 anos de idade o aluno Luiz Fernando Lima Pereira, encontra na avó Samara Oliveira, 48, seu ponto de apoio principal nas aulas a distância do 1° período da Educação Infantil do CMEI Dom Bosco, na Zona Oeste. Enquanto os papais José Luiz Pereira Neto e Fernanda Lima da Cunha vão para o trabalho, é ela que faz as vezes de “anjo da guarda” dele na hora das aulas pela TV ou vídeos educativos via Internet.

“Essa iniciativa é boa para que eles não percam o foco. É rotina, mas eles, nessa idade, não focam muito nesse modal. Acredito que gostem mesmo da aula tradicional juntos na sala de aula. Mas, é louvável a boa vontade dos gestores da Educação em não deixar seus alunos sem conteúdo”, disse a avó.

Acreditando que “todos estão se esforçando e é muito válida, sim, a iniciativa", ela frisa que, como toda mudança há tem resistência. “Mas é assim mesmo, com erros e acertos, que chegamos à  excelência. Os pais só precisam acompanhar e cobrar os filhos pra que não saiam tão prejudicados no fim dessa pandemia do Coronavírus”, acrescenta Samara Oliveira.

Entre as vídeo aulas estão temas ambientados como “A Natureza é sua Amiga” e “A Importância da Natureza”. É orientado que pais e responsáveis fotografem e filmem as crianças realizando as atividades das vídeo aulas e enviem para o Facebook da escola na qual estudam para que, no caso de crianças da Educação Infantil como Luiz Fernando, o material seja encaminhado para a Secretaria Municipal de Educação (Semed).

Em uma dessas atividades, denominada “Os Símbolos Pascais”, são utilizados materiais escolares como papel A4, pincel atômico, 1 (um) pratinho descartável, algodão e cola.

Rede particular

A estudante de Jornalismo Julliane Costa de Oliveira, 25, é mãe de três alunas que estão em regime de aulas a distância na rede particular na instituição Centro Educacional Estrelas do Amanhã, do bairro Grande Vitória, na Zona Leste. São elas Sophia Oliveira, 7, do 2º ano; Elouisa Oliveira, 4, do Jardim 1 e; Camila Oliveira, 3, do Jardim Especial.


Sophia acompanha as aulas pelo computador e as irmãs menores, pela TV. Foto: Euzivaldo Queiroz.

“A escola usa o Google Sala de Aula, YouTube e grupo no WhatsApp. Cada série tem seu grupo, e nesse grupo estão a diretora, alunos da sala, secretaria, financeiro a pedagoga e a professora, todos disponíveis em horário comercial pra atender os pais. Na plataforma da escola no Google Sala de Aula a própria professora anexa as aulas e os conteúdos para a criança estudar”, explica a mãe, que vai além:

“Acho que nós estamos vivendo uma grande transformação sobre o que é a Internet. A escola das meninas é adepta a educação 4.0, é uma escola tecnológica, até nas salas de aula você vê a diferença, então uma das bases é a tecnologia, e a escola delas me dá todo suporte que preciso pra mantê-las seguindo os conteúdo que elas precisam aprender. Mas é importante a participação dos pais ativamente nesse processo, não é que vão ser os professores, mas agora fazemos um papel maior que é de acompanhar mais de perto ainda o que eles aprendem”.

Ela ressalta que nem toda escola está oferecendo o ensino na sua integridade, “então os pais acabam tendo que se virar pra que a criança aprenda aquele assunto; na escola das meninas me sinto muito amparada como mãe, porque o vínculo com a professora não se quebra e eu só tenho que acompanhar elas fazendo as atividades, e tudo o que elas precisam saber a professora me manda na plataforma”.

Sophia Oliveira, a mais “experiente" do trio de meninas, falou que acha “legal” a experiencia de “falar com a professora pelo whatsapp” e vê-la “pelo YouTube", com ela passando “tarefas e joguinhos”

Por outro lado, é inevitável a saudade. “Sinto falta da professora, dos meus amigos e de fazer natação”, completa ela.

Experiência

“A aula a distância vem mostrar a maturidade que o sistema de ensino do Amazonas tem frente a situações adversas”, elogia o professor de Ciências e Matemática, de 9° ano do Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos (EJA) Kiandro Neves.

Ele fala que, em meio a pandemia, onde o isolamento social se faz necessário para a segurança dos alunos e professores, o programa Aula em Casa mostra que a Educação não precisa parar, mas sim se reinventar.

“O programa garante a continuidade do processo de construção de conhecimentos pelos alunos, onde muitos deles estão em uma fase decisiva, como é o caso dos alunos da 3ª série do Ensino Médio e do 9º ano do Ensino Fundamental, que irão prestar processos seletivos neste ano. Além disso oferece aos pais uma maior imersão no cenário educacional de seus filhos, de forma a formalizar vínculos mais fortes entre professores e responsáveis, que muitas das vezes é difícil no sistema presencial de ensino. Acredito que a maior importância de aulas a distância neste cenário provocado pelo Coronavírus é a possibilidade de pais, alunos, professores e todo corpo educacional se reinventar e criar a autonomia necessária para a promoção de uma educação com qualidade e acessível, mesmo em cenários adversos”, analisa o mestre.

Kiandro Neves comenta que diversas ferramentas tecnológicas ajudam a medir a receptividade dos alunos e motivá-los mesmo não sendo possível, nem nas aulas presenciais, alcançar 100% dos alunos, algo difícil até no sistema presencial, mas a utilização de ferramentas tecnológicas do dia-a-dia dos alunos propicia uma maior participação e a identificação da receptividade dos alunos se dá por meio da participação em diálogos sobre os conteúdos do Aula em casa, por meio da discussão de atividades e dos depoimentos de incentivo dos alunos ao trabalho exercido a distância.

Mais detalhadamente sobre sua participação nesse processo de aula a distância, ele explica que criou três vertentes de participação por meio do uso de tecnologias.

Um deles é o acompanhamento mais próximo, por meio do uso de grupos de whatsapp, que funcionam, às vezes, 24h por dia, pois alguns pais trabalham e só podem entrar em contato à noite.

“Neles eu passo diretrizes semanais, da disciplina que ministro. Além disso desenvolvi um site (https://neveskog.wixsite.com/profkiandro) com a compilação das aulas, dos slides e de atividades de auxílio, vídeos relacionados as aulas e informações complementares, para que os alunos e os responsáveis não se percam no processo. Também utilizo ferramentas como fóruns para a promoção do diálogo com os alunos e verificar se estão de fato entendendo o conteúdo, para que mandem fotos das atividades que fizeram e deles acompanhando as aulas. Dessa forma, com um pouco de esforço, consigo dar um feedback para cada aluno de sua evolução no conteúdo, por meio da correção individual, online, de suas atividades. Lembrando que isso só funciona pois há um trabalho em grupo com os demais professores, a gestão e principalmente os responsáveis”, explica ele.

O professor explica que os mestres fazem todas as atividades em casa. “Tudo em casa. Desde o dia 17 de março, quando houve o decreto de paralisação das aulas, começamos na modalidade a distância. Por sorte, antes da paralisação estávamos em um projeto com a UEA da utilização de tecnologias digitais, na pessoa da doutora Rosilene Ferreira, que vem auxiliando nossa escola nesse momento pelo site criado, em conjunto com tudo disponibilizado pelo programa Aula em Casa”, explica ele.

Kiandro Neves manifestou seu sentimento por íntegrar a iniciativa, admitindo cansaço, mas também a felicidade da vitória diária.

“Me sinto feliz por estar auxiliando os meus alunos neste momento tão difícil para eles e para mim. Além disso me sinto otimista pois estamos dando uma nova vertente a Educação amazonense, que tem um potencial imenso, mesmo depois da pandemia, para continuar com um sistema que permita uma maior participação dos responsáveis no processo de Educação. Confesso, também, que as vezes fico um pouco cansado, pois, como falei, o atendimento tem sido maior do que no sistema presencial, onde as vezes começo a responder 7h e acabo de responder por volta de 23h da noite, atentando para a realidade dos alunos. Mas o sentimento que mais prevalece é de vitória diária, quando, mesmo que a distância, recebo a mensagem de um pai, ou de um aluno, agradecendo, pois conseguiu entender o conteúdo. Acho que é um grande desafio para nós professores, mas que com trabalho em equipe torna-se possível”, ressalta o mestre.

Três Perguntas para:

Dheimison Airton - Professor de Matemática da rede estadual de ensino

1 - Qual a sua opinião sobre a importância da iniciativa de aula a distância em face do Coronavírus?

Resposta: É importante diante da incerteza em que estamos vivendo. Um período longo de paralização é prejudicial, independente da causa. Em uma situação adversa como é a pandemia que vivemos, não há ferramenta que supra de forma completa, mas o projeto Aula em Casa vem para agregar e ser mais uma ferramenta. O Home Office para a educação não é o mais adequado, a tão discutida HomeSchooling é uma realidade que necessita de muito estudo ainda no nosso País. Não deixar os alunos com muitas pendências é o grande X dessa questão e o projeto vem justamente sanar esse aspecto, mesmo com todas as variáveis que estão envolvidas.

2 - É possível de alguma forma, mesmo a distância, medir a receptividade dos alunos?

Resposta: As escolas estão se desdobrando para um cenário que não estavam preparadas. É um período de aprendizado para todos os lados envolvidos. É estressante, mas o acompanhamento tem sido feito das diversas maneiras. Nas duas escolas que sou professor (EETI Elisa Bessa Freire e EE Professor Demóstenes Belduque Araújo Travessa) estamos organizados em grupos de WhatsApp e salas virtuais do ClassRoom. Não há alcance de 100%, mas as informações são passadas e recolhidas diariamente.

3 - Como o senhor se sente, enquanto professor, fazendo parte de uma iniciativa para não deixar as aulas interromperem por conta da pandemia? Feliz, mas ao mesmo tempo triste?

Resposta: Acredito que o adjetivo necessário aqui seria apreensivo. A ferramenta é ótima, o que nos dá garantia que o conteúdo é o mesmo que passaríamos em sala de aula, mesmo com uma metodologia diferente. Por outro lado, alinhar a ferramenta das aulas na TV com os meios de comunicação é um desafio enorme. Minhas duas escolas são da Zona Leste da cidade e as duas são realidades super diferentes. Então me sinto apreensivo por aqueles que não terão acesso instantâneo e ficarão à margem do processo, aguardando a volta as aulas. Porém, estou confiante que o processo será positivo.

Projeto para atingir 450 mil alunos

O projeto “Aula em Casa” deve atender um total de 220 mil alunos da rede estadual (Manaus, Iranduba, Rio Preto da Eva, Manaquiri e Careiro da Várzea) e 230 mil da rede municipal (Manaus), totalizando 450 mil estudantes beneficiados pelo regime especial de aulas não presenciais. Os dados são da Secretaria de Estado de Educação e Desporto (Seduc).

A escolha desses municípios se deu em razão do sinal da TV Encontro das Águas, que chega somente a essa região. Como o projeto é uma ação emergencial do Governo do Amazonas, a Seduc se preocupou, inicialmente, em transmitir as aulas produzidas pelo Centro de Mídias de Educação do Amazonas (Cemeam). Agora, a pasta estuda uma metodologia para medir, ao certo, o acesso às transmissões do “Aula em Casa” pela TV.

Ao todo, 9.920 professores do Amazonas estão envolvidos com o regime especial, sendo 9.323 de Manaus, 89 de Rio Preto da Eva, 260 de Iranduba, 178 de Careiro da Várzea e 70 de Manaquiri. Conforme as Diretrizes Pedagógicas do projeto, os professores são peças fundamentais para auxiliar os estudantes e trabalhar, também, o engajamento dos pais, uma vez que, à distância, a necessidade da presença dos pais é ainda maior.

Vale ressaltar que essas aulas não são apenas transmitidas pela TV aberta. Elas podem ser conferidas, também, pela Internet. O canal oficial do “Aula em Casa” no YouTube conta, atualmente, com mais de 43 mil inscritos. Lá, além das transmissões ao vivo, o aluno pode reassistir as aulas para revisar os conteúdos.

Fora isso, existe o aplicativo Mano, que vem sendo utilizado pelos estudantes que aderiram ao projeto. De 23 de março a 2 de abril, foram 14.397 inscritos para assistir às aulas pela ferramenta.

Solução emergencial

"Temos tido um retorno incrível não só da rede, que tem participado. Professores, pais e alunos estão mobilizados porque existe um consenso de que é uma solução emergencial que não substitui a sala de aula, mas garante que possamos enfrentar esse momento tão delicado para o mundo", destacou o secretário de Estado de Educação em exercício, Luis Fabian Barbosa, por meio da assessoria da Seduc.

A aceitação não vem só da comunidade escolar, diz o órgão público. Além do Termo de Cooperação com a Prefeitura de Manaus, que expande o projeto para 450 mil estudantes, a Secretaria de Educação, por ter uma imensa experiência com o ensino à distância por meio do Centro de Mídias que é reconhecido nacional e internacionalmente, foi o primeiro Estado a retomar às atividades pedagógicas com o regime especial de aulas não presenciais que utiliza a televisão e plataformas online para acesso.

Isso despertou o interesse de outros estados. Nesta semana, um Termo de Cooperação Técnica com São Paulo vai permitir que o conteúdo que está sendo disponibilizado aos estudantes amazonenses seja utilizado também por mais de 3 milhões de estudantes paulistas. O Espírito Santo firmará um Termo Tripartite de Cooperação Técnica com o  para disponibilizar o conteúdo produzido aqui no Centro de Mídias para o regime especial dos capixabas.

Além disso, segundo Luis Fabian, a  equipe pedagógica do Estado tem prestado diversas consultorias a esses Estados que estiveram, ao longo da semana, implementando ou discutindo suas propostas.

"Falamos com as secretarias de Educação de Santa Catarina e do Paraná, Distrito Federal, Pernambuco, e Acre por exemplo. São Paulo também foi um dos Estados que elogiou a nossa iniciativa. Tudo isso graças a toda a experiência que temos ao longo dos 13 anos de Centro de Mìdias", ressaltou Fabian, que, desde a saída de Vicente Nogueira, responde pela pasta.

Repórter de A Crítica

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