Quinta-feira, 17 de Junho de 2021
Levantamento

Estudo mostra que mortes de pretos e pardos foi 28% maior no primeiro ano da pandemia de Covid-19

Mortes por doenças aumentaram 18% entre os brasileiros brancos no último ano, mas entre pessoas pretas e pardas o crescimento foi de mais de 28%



73362FBGYCIY2PG2GMPQXTHPEM_488A81F2-913B-417F-ACD2-8CF1A596EAE5.jpg Foto: Reprodução/Internet
24/03/2021 às 20:25

Cerca de 270 mil brasileiros morreram acima do esperado em 2020 em comparação com os anos anteriores, revelando que o número real de mortos da COVID-19 é muito maior do que as contagens oficiais, que somavam 195.000 óbitos em 31 de dezembro do ano passado. Dessas 270 mil mortes em excesso, 153 mil ocorreram entre pretos e pardos, 36 mil óbitos a mais em comparação com o excesso de mortalidade da população branca do Brasil. 


Os novos dados divulgados, que foram coletados e analisados pelo Afro-CEBRAP, centro de pesquisa em questões raciais, e a organização global de saúde Vital Strategies, evidenciam um quadro alarmante: as desigualdades raciais e sociais pré-existentes foram intensificadas pela pandemia de COVID-19, levando a um número maior de mortes entre a população negra do Brasil.



“Nossa análise mostra as disparidades alarmantes entre a população negra e branca na saúde, que pioraram durante a COVID-19. Incentivamos aqueles que têm poder de decisão a usar os resultados deste estudo para orientar planos de combate a COVID-19 que levem em consideração as lacunas na contenção do vírus, no atendimento com base na raça/cor. Isso inclui melhorar o acesso ao tratamento e a vacinas com prioridade, melhorar a qualidade do tratamento e melhorar a coleta de dados", diz Fatima Marinho, epidemiologista e especialista sênior da Vital Strategies.

O estudo utiliza o excesso de mortalidade como indicador. Este é um método usado por epidemiologistas e especialistas em saúde pública para calcular a diferença entre o número de mortes esperadas e o número de mortes observadas em um determinado período e local. Isso pode mostrar mudanças na saúde geral de uma população. Nesta análise, foi comparada a quantidade de óbitos por causas naturais esperada em 2020 e a quantidade de óbitos observada para o mesmo ano. Os resultados revelam os impactos diretos da COVID-19 – a partir do aumento de mortes pela doença – bem como os indiretos, devido a restrições de movimentação, superlotação de hospitais e unidades de saúde, redução da busca por atendimento médico por parte de doentes graves por medo de se infectar, além do cancelamento ou adiamento de procedimentos médico-hospitalar para doentes graves, devido ao risco de infecção pelo SARS-COV-2.

A análise dos indicadores de excesso de mortalidade por raça/cor está disponível na plataforma Raça e Saúde Pública e mostra como a COVID-19 escancarou as desigualdades raciais no Brasil. O levantamento dos dados revelou números preocupantes quando se analisa o excesso de mortalidade em 2020 por raça/cor e por idade e sexo. O excesso de mortalidade da população negra com mais de 80 anos foi de 16% enquanto o da população branca na mesma faixa etária foi de 8%. As mulheres negras também foram afetadas de forma desproporcional: o excesso de mortalidade foi 57% maior do que o das mulheres brancas.

As fontes de coleta dos dados de óbitos por causas naturais foram o SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde) e o Registro Civil (sistema de informação da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais - ARPEN-Brasil), além de dados populacionais do IBGE.

Segundo Márcia Lima, coordenadora e pesquisadora do Afro-CEBRAP, ao longo da pandemia de COVID-19 as desigualdades raciais deixam desproporcionalmente a população negra exercendo serviços essenciais, o que acaba aumentando sua exposição ao vírus. “Enquanto as camadas mais privilegiadas da sociedade – de maioria branca – dispõem de recursos que lhes garantem a possibilidade de cumprir o isolamento social trabalhando em casa, os profissionais informais e precários – majoritariamente negros – continuam cada vez mais expostos”, diz Márcia. 

Principais conclusões por idade, sexo e região


●    Em 2020, o excesso de mortalidade por doenças (incluindo doenças respiratórias como a COVID-19) foi de 28% (153 mil) entre pretos e pardos em comparação com 18% (117 mil) entre pessoas de cor branca.
●    Os dados mostram que pessoas pretas e pardas até 29 anos morreram 32,9%. Brancos na mesma faixa etária morreram 22,6% a mais.
●    Na comparação por sexo, os homens pretos e pardos morreram duas vezes mais do que as mulheres brancas e, entre os homens negros, o excesso de mortalidade foi 55% maior quando comparado à mortalidade dos homens brancos.
●    Nas regiões Sul e Sudeste, as desigualdades raciais do impacto da pandemia são maiores do que no Norte. Apesar da menor população negra, o excesso de mortalidade entre pessoas pretas e pardas foi quase duas vezes maior do que entre pessoas de cor branca, em especial no estado de São Paulo, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e no Paraná.

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