Medidas contra a 3ª onda

Infectologistas reforçam a importância da vacinação e do distanciamento social para segurar uma eventual terceira onda da covid-19

O atual momento de estabilidade não pode ser visto como o fim da pandemia no Amazonas

Jefferson Ramos
28/03/2021 às 14:19.
Atualizado em 09/03/2022 às 08:29

(Foto: Arquivo A CRÍTICA)

Com repique de novos casos de internações e o aumento da taxa de morte e alguns países da Europa tendo que endurecer medidas de restrições diante do aumento dos números, o Amazonas, primeiro estado do Brasil a entrar e sair das suas ondas de covid-19 segue com uma sustentada queda nas taxas de internações, novos casos e mortes.

Para especialistas, ainda é muito cedo para falar de terceira onda no estado, mas se as medidas de distanciamento forem ignoradas na retomada gradual do comércio não essencial e a vacinação manter o nível lento, o cenário pode ser de um novo colapso no sistema de saúde estadual.

O presidente da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), Marcos Guerra, analisa que o vírus continua endêmico no Amazonas, principalmente em Manaus, e que ainda há um grande número de pessoas suscetíveis à infecção. 

Marcos Guerra que integra o Comitê de Assessoramento Científico Externo ao Governo, pondera que apesar de 300 mil pessoas que tiveram contato com vírus e adquiriram um imunidade natural e a vacinação está na casa de 12,6% da população do estado, o número ainda não é suficiente para afirmar que a população está protegida.

“O principal impacto da vacinação, até o momento, vai ser de proteger essa população que foi eleita para ser imunizada, os idosos, para se infectados não adoecerem gravemente. Esse é o maior resultado da imunização neste primeiro momento. A quebra da transmissibilidade não é o que tem sido visto com o uso destas vacinas”, afirmou.

Ele afirmou que a retomada gradual do comércio não essencial iniciada pelo governo do Amazonas no dia 20 de fevereiro, leva em conta não apenas as taxas de internações, novos casos e morte, mas também a taxa de transmissibilidade.

Segundo Guerra, no momento esta taxa está abaixo  de 1. O que significa que uma pessoa infectada pelo vírus  deve infectar menos de cem pessoas.

Na fase roxa, que começou em janeiro, o Amazonas viveu o pior momento da pandemia desde o seu início, em março do ano passado. Em janeiro, 612 pessoas esperavam por um leito de clínico e de UTI no Amazonas. O governo federal chegou a transferir para outros estados 424 pacientes a fim de aumentar a oferta de leitos.

Em 13 de janeiro o estado entrou na fase vermelha. Atualmente, desde o último sábado (20), está na fase laranja da quarentena, com risco moderado de infecção por covid-19. Contudo, a mudança de fase se dá com a taxa de ocupação de leitos de UTI em 73,7% e a taxa de letalidade em 3,5%. Só em janeiro de 2021, morreram 2.552 pessoas por covid-19.

Também em 13 de janeiro, Manaus enterrou 213 pessoas em 24 horas. Maior marcar da pandemia. No dia seguinte, 14 de janeiro, pacientes morreram sufocados por falta de oxigênio, insumo importante para tratamento de pacientes graves.

O epidemiologista da Fiocruz Amazônia Jesem Orellana destaca que a retomada do comércio não essencial não  é um problema em si e que o trabalhador amazonense precisa dessa retomada para conseguir o sustento. No entanto, Orellana aponta que a velocidade da flexibilização das medidas de distanciamento social é um “fator que preocupa e pode nos trazer problemas.

“Iniciamos o processo de relaxamento com o risco de mortalidade por covid-19 agora em fevereiro, aproximadamente duas vezes maior do que o período de 2020, correspondente ao final de maio e o início de junho de 2020, quando foi iniciado a flexibilização das medidas não essenciais no Amazonas”, comentou.

De acordo com Jesem, o fato de o Amazonas ter vacinado quase 13% da população até esta sexta-feira é “sem dúvida algo positivo”. Ele sustenta que até o momento não evidência de que as novas cepas consigam driblar a imunidade das vacinas em especial a Corona Vac e Oxford/Astrazeneca.

“Com a progressão da vacinação teremos questões positivas em relação à epidemia e isso vai tornar uma eventual terceira onda menos poderosa. Assumindo que não teremos nenhuma novidade de mutação no vírus. A única preocupação a se externar é sobre esse lento processo de vacinação que quanto mais tempo demora para vacinar, mais tempo o vírus tem para mudar”, explicou.

Análise - Daniel Barros, epidemiologista e assessor da Sala de Situação da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM)

“Tendo em vista que Manaus registrou a variante britânica B.1.1.7, inclusive uma mais transmissível do que essa foi encontrada no Brasil, e que a gente já passou recentemente por uma grande quantidade de pessoas infectadas e que agora se encontram recuperadas, além da questão da vacinação, acredito que é reduzido a probabilidade de acontecer uma terceira onda nos próximos meses. O conhecimento que temos até hoje é que, sim, as vacinas possuem um certo nível de eficácia mesmo para essas novas variantes que estão circulando aqui. Certamente a vacinação é uma das principais ferramentas de controle da pandemia e evitar uma terceira onda.

A reabertura gradual do comércio não essencial pode colaborar para uma nova onda, se a população não levar em consideração que essa flexibilização está sendo feita com medidas de prevenção. Boa parte da população, infelizmente, não adere às essas medidas. A FVS trabalha com modelos matemáticos que têm diferentes cenários, primeiro um cenário considerando a taxa de infecção atual, a gente percebe que está numa tendência de redução e considerando esse cenário, vamos continuar numa tendência de redução. A gente fica atento à adesão da população às medidas de distanciamento social, tentando aumentar a fiscalização e o acompanhamento de novas variantes junto a Fiocruz para moldarmos os nossos modelos de previsão”.

Saiba mais

Uma nova onda da pandemia da covid-19 atormenta o continente europeu e novos bloqueios estão sendo impostos em todo o continente. A terceira onda da pandemia de coronavírus, forçou a Premier alemã Angela Merkel a sinalizar um fechamento total do país, que foi descartado nesta quarta-feira após pressão. Agora, vários países começam a anunciar novas restrições. A França, Itália e Espanha anunciaram novas restrições a 16 regiões, incluindo Paris e Nice, Roma e Milão, além de todas as regiões da Espanha, exceto Madrid. A variante mais contagiosa do vírus, detectada pela primeira vez no Reino Unido, é um dos motivos que tem levado muitas cidades ao caos.  A OMS (Organização Mundial de Saúde) alertou sobre isso há quase dois meses, quando ficou claro que a variante do Reino Unido estava circulando na maior parte da Europa.

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