Quinta-feira, 05 de Agosto de 2021
saúde pública

Pandemia: sensação de que ‘o pior já passou’ pode relaxar o autocuidado

Psicólogo defende que a falsa sensação de normalidade que tem tomado conta da cidade vem, sobretudo, de uma necessidade interna



idosa_E8CCEE69-92DE-4244-9A2B-067A04230B40.JPG Falta de cuidado com as máscaras pode ser um sinal do relaxamento. Foto: Junio Matos - 11/jun/2020
28/06/2020 às 09:58

As ruas de Manaus cada vez mais movimentadas por pessoas sem máscara, ou que mal se lembram de higienizar as mãos com frequência, pode indicar que a “fadiga do cuidado” alcançou os manauaras. Esse fenômeno, detectado em outras metrópoles atingidas pela pandemia do novo coronavírus, ocorre quando as pessoas demonstram baixa motivação para cumprir as diretrizes de segurança após o desaparecimento da sensação de alerta ou quando deixam de considerar relevante os boletins de novos casos.

Passados três meses de isolamento social, se você de repente se viu passando álcool em gel nas mãos de vez em quando ou tem feito saídas de casa desnecessárias com certa regularidade, atenção, são sinais de que você foi atingido em cheio pela “fadiga do cuidado” (ou “cansaço da quarentena” para ser mais específico). Outros fatores, como não ter ninguém doente ao seu redor, pode deixá-lo ainda mais seguro e confiante diante de uma situação que antes o assustava – em miúdos, o cérebro se cansa de ficar em alerta o tempo todo e se adapta à nova situação.



Conforme a psicóloga Mônica Maximino, membro do Conselho Regional de Psicologia - 20ª Região, com a reabertura gradual dos estabelecimentos não essenciais na cidade, sentir que estamos voltando à normalidade é quase inevitável e, consequentemente, é possível observarmos certo relaxamento com o autocuidado.

“É natural que os indivíduos sintam o desejo de sair de casa para se distrair - o famoso ‘espairecer’. Nessas horas, as pessoas passam a não querer usar máscara e ficam aglomeradas em festinhas e passeios, e ainda cultivam a falsa ilusão de que quem pegou Covid-19 uma vez não pegará mais”, comentou.

Em Manaus, a sensação de que “o pior já passou” chega a ser irresistível, mas ao mesmo tempo perigoso, afinal, até onde sabemos, o vírus não perdeu o seu alto poder de transmissibilidade. “Não é porque os números de casos estão diminuindo na cidade que acabou a pandemia. Temos que ter a conscientização de que o coronavírus ainda está entre nós e está aumentando os casos em outras regiões”, ressaltou Maximino.

Na visão do psicólogo Alexandre Cavalcante, essa falsa sensação de normalidade que tem tomado conta da cidade vem, sobretudo, de uma necessidade interna. “Quando dito em voz alta que passou, muitos aceitam sem questionar em resposta ao desespero pela devolução de uma realidade que as pessoas anseiam”, analisa.

Se por um lado, permanecer em casa foi e continua sendo uma recomendação vital para enfrentar a pandemia da Covid-19, por outro, essa estratégia não está imune a efeitos colaterais, entre elas a ansiedade, que aumenta e afeta outras áreas da nossa vida, como a qualidade do sono, e a saudade exacerbada de atividades que antes eram banais, como dar uma volta no quarteirão ou sentar na beira da calçada para conversar com o vizinho.

“Devemos lembrar que o isolamento social foi responsável por um movimento repentino de pausa na vida da população. Essa mobilização coletiva, embora em razão da saúde pública, intensifica conflitos internos pré-existentes. O isolamento social foi algo totalmente novo e ninguém esteve imune aos seus efeitos - suscitou sintomas de ansiedade e medo na maioria”, explicou Cavalcante.

Na volta à rotina, tendência é de negar os riscos

Conforme o psicólogo Alexandre Cavalcante, é natural e, de certa forma, compreensível que muitas pessoas comecem a ignorar os riscos da pandemia depois de um certo tempo dentro de casa em quarentena (lembram da “fadiga do cuidado”?).

“A questão é que, após tanto tempo reprimindo o desejo de voltar à rotina, a tendência é que muitos entrem em negação a respeito da possibilidade de contaminação. Ainda não há vacina; os cuidados devem continuar. É necessário readaptar-se a um mundo onde existe a Covid-19, logo, a retomada gradual das atividades precisa de cautela”, salientou.

“Que a autoproteção seja o lema desse novo momento; que aprendamos o quanto a nossa saúde pode ser decisiva para a [saúde] do outro. E que antes de sair sem necessidade, as pessoas se perguntem se precisam mesmo sair. Aos que estão retomando as atividades profissionais, que prossigam os cuidados para que essa retomada seja decisiva”, concluiu.

Ainda há riscos, diz infectologista

Essa sensação de que tudo está voltando ao normal em Manaus pode ser explicada também pelas últimas boas notícias, como a queda no número de novos casos, das internações e da mortalidade por Covid-19, além do retorno gradual das atividades.

O médico infectologista Marcus Vinitius Guerra, diretor-presidente da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), reforça a importância das medidas preventivas e acrescenta que há um perigo de voltarmos à intensidade de transmissão do coronavírus de dois meses atrás, caso a população insista em “relaxar” nas medidas de segurança.

“As pessoas devem ter a cautela de usar adequadamente a máscara (não no queixo nem na testa) e também respeitar a durabilidade do tipo de máscara que está sendo utilizada. O indicado é que o uso não seja feito por mais de duas horas ou após a pessoa sentir que ela está úmida. A higiene das mãos é imprescindível e a etiqueta respiratória ainda precisa ser seguida à risca: cobrir a boca e nariz com um lenço de papel quando tossir ou espirrar e descartar o lenço usado no lixo; caso não tenha disponível lenço descartável, tossir ou espirrar no antebraço e não em suas mãos”, recomendou.

Blog: Mônica Maximino, psicóloga, CRP 20ª Região

Penso que é angustiante para a maioria das pessoas ficar casa, mas o cenário em que vivemos no momento é delicado. É de suma importância você praticar a empatia ao próximo neste momento, e pensar nas tantas vidas que já se foram; fazer uma reflexão a respeito do que posso fazer para contribuir com essa situação. Ficando em casa, tendo o autocuidado com você e com quem está ao seu redor, manter o isolamento social e continuar cumprindo com as normas do Ministério da Saúde. E aproveitar esse período de quarentena para planejar atividades novas, elaborar um projeto e estabelecer metas - isso pode ajudá-lo a manter ativo, motivado e minimizar o sentimento de desânimo.

Abalo do emocional 

Segundo um estudo do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no Brasil os casos de depressão praticamente dobraram desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia. Entre março e abril, o percentual de pessoas com depressão saltou de 4,2% para 8,0%, enquanto para os quadros de ansiedade o índice foi de 8,7% para 14,9%.

Thaissa Oliveira pode ser considerada um exemplo claro dos impactos negativos do período de isolamento social. Após ter realizado o sonho de abrir o próprio negócio, o Umbrella Pub, no Centro, ela foi obrigada a encerrar as atividades após três semanas de funcionamento por conta da  pandemia, e pior, com uma dívida acumulada de R$ 6 mil em aluguel, água e luz - foi demais para ela.

“Fiquei em isolamento em boa parte desse período e achei importante esse resguardo, mas ficar longe do trabalho e dos amigos me fez ter crises de ansiedade terríveis. Afinal, interrompi o meu sonho de sair das ruas como ambulante e ter o meu próprio negócio em menos de três semanas da abertura do meu projeto, ao qual investi tudo que eu tinha. Ter de entregar o local e dispensar os funcionários doeu muito. Tive de procurar ajuda médica”, lamentou ela.

Thaissa, que assume estar farta da quarentena, principalmente por conta das dívidas financeiras acumuladas nos últimos meses, aos poucos está retomando o antigo sonho de ter o negócio próprio voltando a trabalhar em uma banca vendendo bebidas e petiscos na Praça da Saudade.

“Se eu tivesse tido pelo menos um apoio financeiro em forma de empréstimo, eu ainda estaria em quarentena até hoje, porém, admito, mentalmente eu estava muito mal. Tenho prazer em trabalhar e não aguentava mais não ter dinheiro pra pagar aluguel nem pra fazer o meu rancho; não desejo essa sensação de impotência para ninguém”, disse.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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