Sábado, 28 de Novembro de 2020
Saúde

População pobre é a mais vulnerável à pandemia de coronavírus

Sem condições sanitárias minimamente adequadas e não tendo como isolar os infectados por falta de espaço, as pessoas de baixa renda das periferias estarão em maior risco de contágio



WhatsApp_Image_2020-03-26_at_15.46.05_2BD0FAC8-4DD9-4C7F-897E-4F07A1A55860.jpeg As casas das famílias de Gizah e José, e de Elisângela, na Comunidade da Sharp, na Zona Leste de Manaus. Foto: Euzivaldo Queiroz
29/03/2020 às 08:22

A superlotação de pessoas em residências localizadas em áreas de risco e favelizadas deixa a população mais pobre sujeita, e mais vulnerável, a ser infectada pelo novo coronavírus (Covid-19). 

No Amazonas, isso preocupa ainda mais pelo fato que há 653 mil pessoas em nível de extrema pobreza e, para o Estado como um todo, 19% da população encontra-se abaixo do limiar de extrema pobreza.



A vulnerabilidade se apresenta cruel em uma  série de fatores: muitas famílias não têm como isolar as pessoas sintomáticas porque em algumas casas de um, dois cômodos, moram cinco, seis, sete, dez pessoas.

Muitas delas não podem aderir à quarentena e têm que se expôr a ambientes externos em busca de dinheiro.

Por enquanto, conforme os números da Saúde, as zonas Norte e Leste, as mais populosas da capital, são as menos afetadas pelo coronavírus, mas a tendência é que os casos de Covid-19 se acentuem por conta da gravidade da pandemia, informam especialistas.

“O risco de contágio é inversamente proporcional ao grau de isolamento do indivíduo do restante da população. Depois disso, dependerá sim de medidas de prevenção, especialmente aquelas relacionadas à higiene.  Se a condição de vulnerabilidade social do indivíduo e seu grupo reduzem as possibilidades de isolamento domiciliar (ou social), então sim, essa pessoa estará enfrentando um maior risco. O risco de contágio é elevado como no caso dos profissionais de saúde, por exemplo”, alerta o ecólogo Henrique Pereira, coordenador do Projeto Atlas ODS Amazonas e professor titular da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

A residência da dona de casa Gizah da Silva Muniz, 29, e do trabalhador desempregado da construção civil José Augusto da Silva Baraúna, 30, é um exemplo da superlotação.

Eles residem há 11 anos numa pequena casa de madeira construída sobre a área alagadiça da Comunidade de Sharp, bairro Armando Mendes, Zona Leste, com os filhos de 9 e 2 anos e, nesta semana, com o irmão dela, de 18 anos. O local tem apenas três apertados cômodos: o quarto que serve de sala, a cozinha e um diminuto banheiro.

Família de Gizah e José em um dos três cômodos da casa. Foto: Euzivaldo Queiroz Família de Gizah e José em um dos três cômodos da casa. Foto: Euzivaldo Queiroz

“Não tenho para onde ir. Se pudesse teria saído daqui. Às vezes fico com medo de morar nesta casa, às vezes não. Nas vezes que fico preocupada eu penso nos meus filhos”, disse ela, que é Parintins, terra onde morava a primeira vítima fatal do coronavírus no Amazonas.

Ela conta que a família faz a prevenção lavando as mãos com água e não ter procurado comprar o álcool em geral.

O marido conta ir além: “Quando eu estava trabalhando, sempre que eu chegava em casa tirava o sapato e ia direto tomar banho", contou José Augusto, dizendo “a garotada que convive aqui nessa área, onde tem lixo e água (suja), já está acostumada e só não imune ao coronavírus”. Alegações por conta das chuvas são constantes.

Apesar de se prevenir, José duvida que o problema seja tão grande quanto alertam os cientistas. “Vivemos em uma situação complicada. Moramos aqui não porque queremos, mas porque necessitamos. Sou cidadão de bem, já tive malária, mas não tenho qualquer problema de saúde. Aqui em casa estamos nos prevenindo. Acho que esse negócio de pandemia foi criado para vender álcool em gel e máscaras. Se fosse um surto estava tudo parado e todas as pessoas em casa, trancadas”, afirmou.

Na casa ao lado, também diminuta, dona de casa parintinense Elisângela de Castro mora com o marido e mais os filhos de 11, 9, 5 e 1 ano de idades. Todos em uma área com dois quartos e um banheiro.

“Os médicos falam que a gente não deve ficar assim num local pequeno, mas não temos alternativa. E é claro que, mesmo tomando todos os cuidados, temos medo dessa pandemia pois temos crianças”, declarou ela.

Na casa não há álcool em gel 70%. “Não encontramos o álcool em gel pra vender aqui nas redondezas”, disse a dona de casa.

Há algumas semanas eles passaram por um susto após a filha de 11 anos ter dor de cabeça, febre e dificuldades para respirar por conta de tosse. 

“Seguimos as orientações e levamos ela pro hospital, mas disseram que era virose. Ela melhorou. Agora é o meu bebê de 1 ano que está com catarro no peito”, relatou.

Enquanto a pandemia não cessar, a única opção é pedir aos céus para que nada de pior aconteça. “Estamos orando bastante para essa situação passar”, diz Elisângela, elevando as duas mãos para o céu.

Onde o reflexo será maior

Para o diretor de Assistência Médica da Fundação de Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), o infectologista Antônio Magela, toda situação de pandemia traz transtorno para a sociedade, mas mais mais negativamente na população de baixa renda que sempre recebe um impacto maior.

“Isso pelas condições nas quais essa população vive, pois não têm acesso à água tratada, sem redes de esgotos e coleta e destino adequada de lixo, sem sistema de renovação de ar simples que é através de portas e janelas. As moradias não são sanitariamente adequadas. Há pessoas em aglomeração familiar, em dois cômodos onde moram dez pessoas e situação fica muito complicada e fora da gerência das autoridades de saúde darem uma solução para a questão”, relata o diretor.

Essas preocupações de saneamento ambiental e da questão da higiene e saúde afligem as autoridades de saúde constantemente e não somente em tempos de epidemias e pandemias, diz o especialista.

Infelizmente, afirma Magela, “Manaus tem uma estrutura desorganizada nesse sentido e com muitas dificuldades geográficas para que o poder público possa atuar nesses locais; vai virando uma sequência de acontecimentos que nunca melhora, e pelo contrário, parece que piora cada vez mais, e diante de uma situação onde o risco é geral, como nessa situação atual de pandemia, com certeza as consequências são piores do que vemos nos períodos normais sem ameaças”.

O especialista comentou que a situação desaa parte da população é difícil. “Deve-se evitar aglomerações e fazer a renovação do ar e cuidar do ambiente, o que se torna difícil nas favelas, áreas de ocupação sem urbanização. Há uma série de fatores que dificultam a vida dessa população de baixa renda durante o cotidiano normal, mas quando aparece uma situação que é ameaça geral evidentemente que  há um impacto muito maior e os riscos também são maiores”, diz ele.

Vulnerabilidade gera risco

O professor Henrique Pereira alerta para as formas de prevenção básicas no combate ao Covid-19.

“O contágio, pelo que se sabe e se acompanha nas orientações dos órgãos de saúde e da academia é de pessoa a pessoa, já que vírus tem baixa capacidade de se manter viável fora do hospedeiro. Por isso, a insistência em se afirmar da necessidade de ser lavar as mãos, com água e sabão, evitar o contato com objetos e superfícies que possam ter sido infectadas por transmissores. Então, a pessoa terá que dispor de recursos para obter os materiais necessários para essa higiene. Novamente, se condição de vulnerabilidade reduz o acesso a esses recursos, sim essa pessoa incorrerá em mais risco”, observa.

Já para os trabalhadores informais e que têm a necessidade de manter uma atividade fora do domicílio, como meio de subsistência, o professor  entende que cada um deverá avaliar as medidas que poderá adotar para prevenir ou reduzir o risco. 

“Essas medidas são as mesmas que para  população em geral. Espera-se que os governos adotem medidas urgentes que possam reduzir a vulnerabilidade dessa camada da população, como o reforço nas políticas de transferência de renda e de amparo ao trabalhador desempregado”, comentou o especialista, que coordena um projeto que visa desenvolver os indicadores ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) dos municípios do Amazonas, cujo trabalho ainda está no estágio inicial da pesquisa sobre as correlações e interações entre os próprios indicadores.

Favelas: preocupação da ONU

Em pronunciamento durante a semana, o ONU-Habitat – programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos e agência especializada dedicada à promoção de cidades mais sociais e ambientalmente sustentáveis, de maneira a que todos os seus residentes disponham de abrigo adequado – manifestou sua preocupação com a questão. 

“Os impactos da nova doença do coronavírus podem ser consideravelmente mais altos entre pessoas pobres que vivem em favelas, onde a superlotação também dificulta a adoção de outras medidas recomendadas, como distanciamento social e autoisolamento”, informou a ONU-Habitat em canal oficial na Internet.

Repórter de A Crítica

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