Quarta-feira, 30 de Setembro de 2020
NOVO NORMAL

'Vírus não foi embora', alertam especialistas sobre desaceleração da Covid-19 em Manaus

Especialistas ouvidos por A Crítica demonstraram preocupação com relaxamento da população frente à queda no número de novos casos e pregam cautela



show_coronav_rus_2_7C9EEDF8-5D33-4430-B77E-1A373C3B8F03.jpg Foto: Jair Araújo
31/07/2020 às 17:02

Nos últimos quatro meses de pandemia, em nenhum momento, Manaus adotou o lockdown (termo em inglês para bloqueio total à circulação de pessoas), como ocorreu em algumas localidades da China, Espanha, Itália e Argentina. Por isso, a desaceleração do número de casos e de mortes na capital amazonense têm chamado a atenção da comunidade científica e até mesmo da imprensa internacional.

A pandemia ainda não acabou, é verdade, contudo, boa parte da população tem seguido o “novo normal” com certa tranquilidade, beirando o desdém, principalmente após a reabertura do comércio e a volta às aulas presenciais nas escolas particulares. Alguns especialistas, no entanto, ainda pregam a cautela.



Pelos dados divulgados nos boletins epidemiológicos da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) das últimas quatro semanas, Manaus ainda não alcançou a proeza de passar uma semana inteira sem registrar nenhum caso novo de Covid-19. Em relação às mortes, os números seguem estáveis pelo menos desde o início de junho.

Nos dias 24 de junho e 5 de julho, por exemplo, a capital não registrou nenhum óbito pela doença em 24 horas. Dessa forma, a cidade, que em 15 de maio chegou a registrar 79 mortes em um único dia, a partir da primeira semana de junho iniciou um período de variação, registrando entre apenas dois a 58 óbitos diários.

Consequentemente, a queda dos números puxou a letalidade da doença para baixo: saiu de 8,9%, registrado em abril, para 3,3% essa semana.

No entanto, a diretora-presidente da FVS-AM, Rosemary Costa Pinto, tem demonstrado preocupação com o relaxamento da população de Manaus diante da pandemia – com o uso de máscara cada vez mais se tornando um item opcional e registros de aglomerações em centros comerciais, bares e outros lugares públicos.

“O vírus não foi embora”, alertou Rosemary. “Podemos, sim, ter uma segunda onda de infecções na cidade se todo mundo resolver tirar a máscara e abandonar as medidas de restrição. A população parece esquecer que, até pouco tempo atrás, tivemos um pico gigante com ocupação de 95% dos leitos e que tivemos mais de 100 mortes em um dia”, destacou.

Ela explicou que o fato do Amazonas ter reduzido o número de óbitos, internações e infecções não significa que o vírus foi embora.

“Ficamos estabilizados em mil casos novos registrados por semana no estado. O governo [estadual] e o Comitê de Crises avaliam com cuidado os casos para flexibilizar a volta da economia e dos eventos. Estamos cautelosos, pois algumas cidades brasileiras e alguns países que flexibilizaram, precisaram voltar atrás nas medidas, por isso abertura em ciclos”, esclareceu a diretora-presidente da FVS-AM.

Manaus não é uma exceção

Entre as vozes que se opõe fortemente à reabertura total do comércio e o retorno às aulas presenciais na rede pública de ensino (programada para agosto) está a do biólogo Lucas Ferrante, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Em palestra a professores da rede estadual e municipal de ensino filiados ao Sindicato dos Professores e Pedagogos de Manaus (Asprom/Sindical), o especialista alertou que, em agosto, o Amazonas pode ter um novo pico no número de casos confirmados e pode passar de 5 mil mortes pela Covid-19.

“Se em abril tivéssemos aderido a um isolamento radical no país, estaríamos em melhor situação. Para exemplificar, Blumenau(SC) foi uma das primeiras cidades brasileiras a reabrir os shoppings centers. A pandemia piorou e, hoje, a cidade 'pede socorro'. Manaus não é uma exceção no mundo”, alertou.

Na mesma palestra, Ferrante destacou a projeção do matemático Eduardo Massad, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que, recentemente, afirmou que o Brasil pode saltar de 300 mortes de crianças abaixo de 5 anos para 17 mil até o final do ano caso aconteça uma reabertura precipitada das escolas no país.

Decreto

Exemplos de cidades que deram um passo para trás após afrouxar as medidas de isolamento social não faltam. Belo Horizonte voltou a fechar o comércio e os serviços não essenciais após o aumento no número de casos e mortes pelo novo coronavírus pressionar o sistema de saúde da cidade no final de junho – depois que a capital mineira iniciou a flexibilização do isolamento social em maio.

Outras cidades do interior de Minas Gerais e de São Paulo, assim como outras capitais como Florianópolis e Porto Alegre, também ampliaram as restrições mesmo após períodos de reabertura. No âmbito internacional, Hong Kong, Japão e Vietnã estão enfrentando uma segunda onda de infecções do novo coronavírus e voltando ao isolamento social para tentar conter a doença.

Para evitar um segundo pico de casos e de mortes por Covid-19 no estado, o Governo do Amazonas estabeleceu, por meio do Decreto n° 42.526, algumas medidas destinadas a reduzir a aglomeração de passageiros no transporte coletivo de Manaus por meio de horários escalonados para a abertura diária do comércio do Centro de Manaus.

O decreto, que já está valendo desde a última segunda-feira (27), reforça também a obrigatoriedade do uso de máscara nas ruas e em espaços públicos, como terminais de ônibus, no interior dos veículos de transporte coletivo, nas repartições públicas e dentro de qualquer estabelecimento comercial. 

Na mesma esteira, o prefeito de Manaus, Arthur Neto, sancionou a lei municipal nº 2.643 que estabelece multa no valor de R$ 108,95 a quem for flagrado circulando em locais públicos da capital sem máscara de proteção. No entanto, a lei não define o órgão responsável pela fiscalização e aplicação da multa.

Enquanto governo e prefeitura tentam reeducar a população na força da lei, no dia a dia, nos ônibus de Manaus, o relaxamento da população com o uso de máscaras tem sido uma dor de cabeça para motoristas e cobradores - mesmo com a obrigatoriedade explicitada em placas afixada na entrada dos coletivos.

“Nos horários de pico, os ônibus seguem lotados. Apesar do aviso sobre a obrigatoriedade do uso da máscara no interior dos veículos, é comum que alguns passageiros passem pela catraca e tirem o equipamento logo em seguida. Às vezes chamo a atenção, a pessoa põe e depois tira de novo.  Já aconteceu de passageiro dizer na minha cara que não vai usar nada porque está pagando a passagem”, relatou um cobrador de ônibus que preferiu não se identificar.

Isolamento social e imunidade de rebanho

Para o pesquisador Henrique dos Santos Pereira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), que coordena o Atlas Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Amazonas (ODS), publicação que tem analisado dados sobre a pandemia no Estado, a desaceleração no número de casos já era uma etapa esperada.

“Na décima edição do Boletim do ODS [publicada no dia 11 de junho], já alertávamos para a possibilidade de Manaus ser uma das primeiras cidades brasileiras a controlar a pandemia. A explicação pode ser devido ao fato da capital ter sido um dos primeiros epicentros da pandemia”, pontuou.

A segunda ordem de fatores, salienta Pereira, deriva do fato da cidade e de outros municípios amazonenses terem sido atingidos severamente pela pandemia, ou seja, com um número muito elevado de casos e de óbitos em relação ao tamanho da população, havendo, assim, diversas consequências.

“A conclusão mais simplista seria apostar que, com tantos infectados, teriam sido atingidas todas as pessoas suscetíveis na população, e assim a pandemia perdeu velocidade. Porém, isso é pouco provável. Já é sabido, atualmente, que apenas uma pequena porção da população é suscetível e uma porção ainda menor irá desenvolver as formas graves da doença. Sabe-se também que pessoas curadas estão imunes por algum tempo”, disse ele.

O pesquisador ressalta também que houve impactos positivos do isolamento social, que chegou a atingir 60% de adesão em Manaus, somados a outras medidas de segurança, como o incentivo coletivo à higienização constante das mãos e o uso de máscaras.

“A soma de todos esses fatores explicaria a desaceleração da pandemia do Amazonas. Algo que está sendo chamado mais recentemente de imunidade de rebanho (ou de grupo) por doença. Além disso, nossa equipe também acrescenta a possibilidade de haver o efeito do 'trade-off evolutivo', que resultaria na predominância de linhagens menos virulentas durante o transcurso da pandemia em uma determinada população e entre populações durante a difusão regional”, explicou.

Novas linhagens

No início de julho, pesquisadores do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) descobriram que há pelo menos três linhagens do novo coronavírus circulando no Amazonas.

“Uma nova linhagem não significa que houve aumento da letalidade do coronavírus ou que ele 'ficou mais forte'. O que sabemos, até agora, é que as mutações sofridas pelo vírus fizeram com que ele se espalhasse mais rapidamente entre os seres humanos. Isso pode significar que [essas linhagens] foram trazidas para Manaus por turistas ou por brasileiros que estiveram nos países onde elas foram identificadas”, explicou o pesquisador e vice-diretor de Pesquisa e Inovação da Fiocruz Amazônia, Felipe Naveca.

De acordo com o epidemiologista Cesar Victora, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), do Rio Grande do Sul, e um dos coordenadores da pesquisa EPICOVID-19-BR, o contato da população da Amazônia com algum dos subtipos de coronavírus pode ser uma das hipóteses pelas quais, após atingir 25% de prevalência de infecção, algumas cidades da região começaram a registrar queda no número de mortes por Covid-19.

“Os últimos estudos têm mostrado que já ter tido algum contato com algum coronavírus confere proteção ao SARS-CoV-2, que é uma mutação extremamente letal em comparação com outros coronavírus mais comuns”, disse Victora.

Blog: Henrique dos Santos Pereira, coordenador do Atlas ODS Amazonas

Sobre uma “segunda onda” de infecções em Manaus, podemos afirmar que os modelos matemáticos mais realistas permitem prever que esse fenômeno seria esperado após a flexibilização somente em situações em que houve o cumprimento severo e precoce de medidas de isolamento rigorosas logo no início da pandemia, com poucos casos tendo ocorrido, o que não foi o caso de Manaus, e da grande maioria dos demais municípios do Amazonas.

Nós estimamos que, com a reabertura, a capital amazonense experimenta uma mortalidade de cerca de 20% acima do esperado, considerando as tendências observadas até 31 de maio. Então, isso equivale dizer que já estamos observando a dissipação dessa segunda onda ou mais outras, já que um maior número de pessoas passa a circular e a se expor a cada etapa da flexibilização.

O que é diferente de dizer que estaríamos observando ou aguardando um segundo “pico” da pandemia, igual ao primeiro ou pior que este.  Com as descobertas sobre a imunidade celular para a nova doença, fica ainda menos plausível a previsão de um segundo pico nas próximas semanas, ou seja, dentro de um mesmo ciclo da pandemia.

Se considerarmos o que já se sabe sobre a sazonalidade de outras coronaviroses, e enquanto não houver a vacinação em massa, pode-se esperar que outros ciclos se repitam nos próximos anos, talvez menos severos.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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