Quinta-feira, 23 de Maio de 2019
LUTA

Arcebispo de Manaus fala sobre ódio, amor, fé e o papel das religiões na atualidade

Aos 63 anos de idade e lutando contra o Mal de Parkinson há três, o arcebispo metropolitano de Manaus, dom Sérgio Castriani, esbanja vitalidade e capacidade reflexiva ao analisar a situação atual do mundo



bispo4.JPG
Dom Sérgio Castriani luta contra o Mal de Parkinson, mas não mudou sua rotina como arcebispo metropolitano / Foto: Euzivaldo Queiroz
05/04/2018 às 06:53

“O Cristianismo está mais vivo do que nunca, apesar de não ser mais hegemônico no mundo”. É o que afirma o arcebispo metropolitano de Manaus, dom Sérgio Castriani, 63, em entrevista sem meias palavras para a reportagem de A CRÍTICA, onde falou sobre vários assuntos.

“O mundo não é mais cristão, a sociedade não é mais cristã, nem mesmo religiosa. A religião não é mais fundamental na vida das pessoas. A religião virou uma coisa secundária para a maioria das pessoas, mas isso não significa que esteja morta. Ela está mais vivo do que nunca em grupos e igrejas. E está aí o papa Francisco que mostra que a mensagem cristã ainda é válida para o mundo de hoje”, analisa o sacerdote.

Consequentemente, está faltando Deus no coração das pessoas. “Com certeza está faltando mais Deus no coração da humanidade. O Deus verdadeiro. Fala-se muito em Deus, nossa sociedade é muito religiosa, mas há pouco do Deus verdadeiro. Aquele Deus que temos que escutar e que diz o que temos que fazer, e não o Deus que faz o que eu digo pra ele fazer. Isso é uma inversão de religião. Não se procura mais a vontade de Deus. Nossa religião, hoje, é muito barulhenta”, relata ele. 

Preocupação

Ele conta que a questão do afastamento da humanidade da religião é preocupante. “É claro que é preocupante, pois sem Deus nós não somos nada. Por exemplo: um jovem quando vai decidir a sua vida, o fator religioso não influi mais, só o fator econômico. A família quando é constituída, a escolha do estado de vida, se vai se casar ou não, aspectos fundamentais não se leva mais em conta o aspecto religioso”, disse dom Sérgio Castriani.

Intolerância

O arcebispo comentou sobre a acentuada intolerância religiosa que existe em vários cantos do Planeta e que vem provocando graves eventos como ataques e assassinatos.


Arcebispo Metropolitano durante a cerimônia do Lava Pés na Catedral / Foto: Evandro Seixas

“Acho que vivemos em um tempo diferente. Tínhamos superado muito isso com respeito, liberdade do outro, respeitar o outro e não fazer com ele o que não quero que façam para mim. Essa é a regra de toda a religião. Se eu quero ser respeitado, tenho que respeitar o outro. Isso é fundamental. Vivemos em um mundo onde os ânimos são acirrados. As pessoas estão com medo do outro, que é visto como inimigo, como aquele que vai te destruir. E as pessoas preferem destruir primeiro esse inimigo. É o medo do outro. E isso leva à destruição do outro, quando não se consegue viver com o diferente.

Esperança e paz

O arcebispo comentou sobre a importância do encontro ocorrido em janeiro e fevereiro deste ano entre lideranças das Coréias do Sul e do Norte, após mais de 2 anos sem diálogos entre os dois países. No último dia 29, os países acertaram, durante uma reunião de alto nível na fronteira, que o encontro entre o líder norte-coreano, Kim Jong-un, e o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, será no próximo dia 27 de abril.

Representantes dos dois países, tecnicamente ainda em guerra, voltarão a se reunir na própria fronteira, no próximo dia 4, para discutir detalhes sobre a primeira cúpula intercoreana em 11 anos.

O encontro será seguido de outro evento histórico, a reunião entre Kim e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, programado para maio, com o objetivo de discutir a possível desnuclearização do regime, sendo a primeira cúpula entre os líderes de Pyongyang e Washington.


Detalhe do crucifixo do bispo / Foto: Winnetou Almeida

Casos de esperança na paz como esses, diz dom Sérgio Castriani, mostram que “o espírito de Deus trabalha no mundo”. “Sou um fã da esperança, talvez não otimista, mas esperançoso. A esperança é a virtude mãe das outras virtudes. Mãe da caridade e da própria fé. Deus continua agindo no mundo. E pode nos surpreender. Quantas famílias se reconciliam? Quantas pessoas se encontram com o bem? O mundo ainda é mundo porquê existe gente boa, não é mesmo? a maioria as pessoas é boa, quer casar e ter família, trabalhar e viver em paz. Esse é o sonho da juventude. O espírito de Deus age no mundo. Quando Ciro, Rei da Pérsia, deixou os judeus voltarem para a Terra Prometida, hoje também muitos dirigentes são movidos pelo espírito de Deus”, conta o religioso.

Papa Francisco

O bispo comentou sobre a atuação do papa Francisco nas ações de paz mundial. “O papa Francisco é um homem que superou os limites da Igreja, que fala mais pra fora do que pra dentro. Ele nos recorda que é fundamental ser humano. Somos todos humanos, homens, mulheres, partilhamos da mesma natureza humana. Ele tem contribuído muito para a paz. Não está defendendo a Igreja, e sim a humanidade. É um homem excepcional”, fala Castriani, que encontrou com o papa em três oportunidades, e a próxima será em outubro de 2019 no Sínodo da Amazônia, em Roma.

Páscoa

Neste domingo, dom Sérgio Castriani lembra que a “Páscoa é o mistério central do Cristianismo, a morte e ressurreição de Jesus, de onde brota a fé cristã: “Se ele não ressuscitou, então nada feito, não é mesmo? A cada domingo fazemos a memória disso, a cada missa. A Páscoa é a memória prolongada, e há o tríduo pascal que é a Quinta-feira Santa, a Sexta-Feira Santa e a Vigília Pascal”.

Frase

“A religião virou uma coisa secundária para a maioria das pessoas, mas isso não significa que esteja morta”.

Dom Sérgio Castriani, arcebispo de Manaus

Em números

40

É o número de anos que o paulista de Regente Feijó, dom Sérgio Castriani, completa em dezembro. Em agosto faz 20 anos como bispo e, antes de Manaus, ocupou o cargo em Tefé por 15 anos.

Lutando contra o Mal de Parkinson

Poucos sabem, mas o arcebispo dom  Sérgio Castriani está em tratamento do Mal de Parkinson, que foi diagnosticado há 3 anos e meio.

A doença não o impede de exercer o arcebispado, nem de celebrar as cerimônias religiosas ou qualquer outro evento católico, mas o fez incluir, em sua rotina diária, sessões de fisioterapia, exercícios físicos, fonoterapia e, a cada três meses, exames de rotina.

“Estou sendo tratado por bons médicos, muito bem cuidado com fisioterapia e fonoterapia, com remédios. A experiência da doença me abriu os olhos para a solidariedade das pessoas, que são muito compreensivas comigo. E até onde der seguiremos”, comentou o religioso.

Ele prefere não delimitar o tempo que ficará no cargo, deixando isso a cargo de Deus.

“Ficarei como arcebispo até quando Deus permitir. Em geral, os bispos são convidados a se retirar aos 75 anos, então faltam 11 anos para mim. A saúde não permite tanto tempo assim, mas até quanto tempo aguentarmos a gente fica”, disse ele, que completa 64 anos de idade no próximo dia 31 de maio.

‘Que tenhamos coragem de não sermos violentos’

Na entrevista, Dom Sérgio Castriani deixou um recado para a população que, em outubro, vai votar para presidente, governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais.

“O voto não tem preço, tem consequência. Devemos saber que o voto é importante, não votar em corruptos, em pessoas que foram condenadas, sermos espertos e darmos chance para pessoas novas”, orienta ele.

O bispo comentou também sobre a Campanha da Fraternidade deste ano, cujo tema é “Fraternidade e Superação da Violência” e o lema “Em Cristo Somos Todos Irmãos (Mt .23,8), enfocando que, no mundo atual, não se pode levar tão a sério as ofensas do nosso semelhante.

“Dentro da linha da Campanha da Fraternidade deste ano, violência não compensa e vingança gera vingança. Violência só produz mais violência. Temos que quebrar isso e pregar o perdão, para minimizar as coisas e não levar tão a sério as ofensas que nos fazem. Não é esquecer, nem desculpar, é não levar a sério mesmo. ‘Perdoai-vos porque eles não sabem o que fazem’, como Jesus disse na cruz. Não há outro caminho. Que tenhamos a coragem de não sermos mais violentos”, pregou a liderança católica.


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.