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Cotidiano
DOAÇÃO DE ÓRGÃOS

Campanha ‘Setembro Verde’: histórias de quem doou e recebeu órgãos no Amazonas

No mês em que se comemora o Dia Nacional do Doador de Órgãos e Tecidos (27), a campanha "Setembro Verde" pretende sensibilizar as famílias para a importância do tema 15/09/2018 às 09:46 - Atualizado em 15/09/2018 às 09:57
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Elisângela Ramos doou um de seus rins para o irmão Thiago. Foto: Arquivo pessoal
Izabel Guedes Manaus (AM)

Doar é um ato que pode salvar vidas. Essa é a frase mais dita por quem precisa de um órgão e por quem se torna um doador. Somente no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 30 mil pessoas aguardam essa boa ação para ter a chance de recomeçar a vida. Por isso a pasta, junto com as secretarias estaduais de Saúde, está fazendo uma campanha em alusão ao Setembro Verde, mês em que se comemora o Dia Nacional da Doação de Órgãos e Tecidos (27), visando conscientizar a população sobre o assunto. 

Para quem precisou um dia da conscientização de alguém essa campanha é de suma importância e pode ajudar muitas pessoas que ainda aguardam na lista de espera por um rim, um coração e tantos outros órgãos transplantados no Brasil. Esse foi o pensamento da advogada Elisangela Ramos, 37 anos, que em junho desse ano dou um de seus rins para o irmão mais novo Thiago Coelho, 27.

Ela diz que o ato de ser doador é manter alguém vivo através daquilo que você não vai mais utilizar e que a doação de órgão ainda em vida permite você presenciar a salvação de uma vida. “Eu via meu irmão chegando abalado toda vez que fazia uma hemodiálise, era muito sofrimento. Eu vendo toda essa situação decidi doar meu rim. Antes eu não podia, porque tive uns problemas de saúde e hoje para mim não tem recompensa maior do que olhar para ele e ver ele feliz. A imagem dele mudou. Hoje ele pode sair, pode viver a vida dele. Antes ele não podia. Era prisioneiro de uma maquina, não tinha vida. Hoje ele vive. Isso para mim não tem recompensa, não tem dinheiro que pague. Essa é a minha recompensa. Ver ele bem”, disse, emocionada.

Para o irmão, que sofreu durante cinco anos com o problema de insuficiência renal, o ato da irmã o surpreendeu em um primeiro momento. Ele, que por anos aguardou o rim em uma fila de espera, conta que hoje é outra pessoa. Os dois fizeram o procedimento cirúrgico em São Paulo e hoje, de volta a Manaus, só comemoram os bons resultados.

“Eu não esperava. Fiquei meio assustado porque não esperava. A gente nunca tinha conversado sobre isso. Eu já estava adaptado a hemodiálise, porque querendo ou não você fica adaptado. Eu pensava no transplante, que pudesse acontecer, mas como uma coisa distante, porém no dia seguinte a cirurgia eu já era outra pessoa. Como eu esperei tanto por isso. Imaginava: porque não deu certo antes. A melhor coisa que tem é você esta saudável. Por isso digo para as pessoas que ainda tem receio de doar que isso é importante, dar a oportunidade dessa pessoa continuar. Não deixar a vida acabar ali e fazer valer á pena, salvar uma vida. Porque doar órgão é um ato de amor mesmo”, comentou Thiago Coelho.

Dezesseis anos de funcionamento no Amazonas

No Amazonas, o programa de transplantes do Governo do Estado começou a funcionar em 2002, com a realização dos transplantes de rins (primeiro entre vivos e, em 2011, com o procedimento sendo realizado a partir de doador falecido). Em 2003, teve início o programa de transplantes de córnea e em 2014, o programa de transplante de fígado.

Campanha terá celebração com famílias

Entre as ações da campanha está prevista a iluminação de prédios de instituições públicas e privadas, na cor verde, em referência ao movimento.

No dia 25 a Central de Transplantes do Amazonas vai promover o “Dia D” nas Comissões Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT’s) e Organizações de Procura de Órgãos e Tecidos (OPO) de cinco unidades hospitalares da rede estadual de saúde em Manaus.  Já no dia no dia 27, será feita uma celebração com as famílias de doadores de órgãos e tecidos.

A coordenadora estadual de Transplantes da Susam, Leny Passos, explica que o foco das atividades será incentivar o debate sobre a doação e o transplante de órgãos e tecidos e mostrar a importância do gesto.

Cirurgias retomadas em 2019

As cirurgias de transplantes de órgãos no Amazonas devem ser retomadas até o ano que vem. Essa é a estimativa da Secretaria de Estado de Saúde (Susam). No Estado apenas o transplante de córnea está sendo realizado. O programa de transplantes de rins e fígado está parado desde 2016.

A previsão é de que as cirurgias retornem junto com a implantação dos procedimentos no HPS da Zona Norte, que já está credenciado pelo Ministério da Saúde para entrar em funcionamento entre o fim de outubro e início de novembro desse ano.  Há previsão, também, para ser realizado o transplante de coração, a partir de 2019, no Hospital Francisca Mendes (HUFM).

Segundo dados do Registro Brasileiro de Transplantes, elaborado pela Associação Brasileira de Transplante de Órgão (ABTO), de janeiro a junho deste ano, foram identificados 45 potenciais doadores no Amazonas, mas apenas cinco foram  efetivos. Das 17 entrevistas feitas com as famílias para a viabilidade da doação, em 11 (65% do total) houve recusa. Do total restante, 18 foram afastados porque a morte encefálica não foi confirmada, cinco tiveram contraindicação médica e os demais, outros motivos.

Personagem: Ana Cássia Braga, 26, transplantada


Ana Cássia Braga teve de viajar para Curitiba para fazer seu transplante renal

Ana Cássia Braga, 26, descobriu que tinha doença renal em março de 2017 e, após quase um ano de complicações e sessões de hemodiálise, conseguiu um rim e fez o transplante num hospital público de Curitiba. Ela é de Manaus e teve que se mudar para ter mais chances de receber um órgão enquanto estava na fila de espera. Diferentemente de Thiago, ela não tinha quem pudesse fazer a doação ainda em vida, pois é adotada. Hoje ela vive em uma casa alugada com uma tia e só deve retornar para Manaus daqui a um ano, período que deve ter dispensa dos exames de rotina e alta total. “Eu fui priorizada por uma questão de vida ou morte, mas conheço gente que demorou um ano, dois, três, cinco anos, pois além de ter doador depende de algumas coisas também, como compatibilidade e situação física do paciente no momento”, explicou.

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