CANCELADOS

'Cultura do cancelamento' vira assunto nas redes sociais após conflitos no BBB 21

O ato de 'Cancelar' ou 'ser cancelado' virou rotina na internet e ganhou destaque com as recentes brigas entre os participante do BBB. A CRÍTICA ouviu especialista para entender como se dá esse processo

Lucas Vasconcelos
03/02/2021 às 18:56.
Atualizado em 09/03/2022 às 08:50

(Foto: Reprodução/Internet)

Gritos e ofensas entre participantes do Big Brother Brasil 2021, vindos principalmente da cantora Karol Conká para o ator Lucas Penteado, tiveram grande repercussão nas redes sociais. Na última segunda-feira (1º), o momento em que Karol proíbe Lucas de conversar enquanto ela almoçava, chocou diversos telespectadores. O acontecimento foi um dos principais motivos para que diversas pessoas "cancelassem" a rapper curitibana na internet.

Desde os primeiros dias do reality, Karol Conká não se intimidou em demonstrar suas opiniões em determinadas situações durante o programa. Entretanto, suas atitudes não tem sido bem vistas pelo público do lado de fora da casa. A artista, que ‘cancelou’ Lucas dentro da casa, tem sido alvo de linchamento virtual por usuários da internet, como forma de "punição". Karol já perdeu mais de 400 mil seguidores nas redes sociais desde que entrou no BBB. Além disso, foi cortada da lista de artistas de um festival e teve a transmissão do seu programa no GNT suspensa pela emissora.

Outro "cancelamento" que teve bastante adesão de usuários foi o caso da influencer Gabriela Pugliesi, duramente criticada por promover, em abril, uma festa em meio à pandemia do novo coronavírus. A influenciadora acabou perdendo patrocinadores ao contrariar a recomendação de se manter em quarentena. A atitude ainda recebeu críticas justamente porque Pugliesi foi uma das primeiras celebridades brasileiras a contrair a covid-19. Vários outros artistas também já foram "vítimas do cancelamento", como o MC Gui que teve shows cancelados após rir de uma menina na Disney; a influenciadora amazonense Fernanda Coxta que foi criticada por ter debochado de uma mulher que estava pedindo dinheiro; o humorista Carlinhos Maia por ter dado uma festa de Natal para mais de 100 pessoas em meio à pandemia; a cantora Anitta por falta de posicionamento em diversas situações, como o caso de Marielle Franco, dentre outros.

Após ser 'cancelada' nas redes por ter promovido aglomeração na pandemia, Pugliesi perdeu patrocinadores. Foto: Reprodução

Esse comportamento de usuários que tem crescido nos últimos anos, segundo a psicóloga Márcia Keila Gomes, pode ser considerado como a "cultura do cancelamento" em sua prática.

"É o afastamento do meio social como forma de punição, de depreciação a um indivíduo, produto e pensamento, com conceito de abolir comportamentos julgados inadequados para sociedade moderna. Esse distanciamento pode variar dependo das características e de como cada pessoa vai perceber esse momento, se de forma consciente e saudável ou de forma negativa causando consequências a saúde física, psíquicas impedindo ter empatia, afetando a conduta emocional e os níveis de agressividade do indivíduo", contou Keila.

A psicóloga comenta ainda que para se ter a "cultura do cancelamento", é necessário ter no mínimo dois agentes: o "cancelado" e o "cancelador".

O "cancelado", segundo Gomes, é o que sofre o cancelamento social. É afastado do meio social antes habituado, é excluído, julgado e condenado por grupo social com ideologias divergentes, que repudiam opiniões e ou comportamento do cancelado. Já o cancelador, é o indivíduo ou grupo que faz o papel de juiz, participa e mobiliza o boicote social. Geralmente são pessoas que usam as redes sociais para julgarem e excluírem fazendo o juízo moral.

No entendimento de Gomes, as redes sociais tem um papel primordial para que aconteça o cancelamento.

"As redes sociais podem está se transformando em um palco para o exibicionismo moral, onde tem intimidado as pessoas expor o que pensam por medo do julgamento social (cancelamento), ou tem vendido uma vitrine cheia de um falso moralismo, personagens que fazem discursos que não coincidem com a realidade por traz da 'selfie' ou da 'live'", comentou a psicóloga.

Mesmo não tendo sido "cancelada" por internautas, a digital influencer amazonense Karen Mabel sentiu na pele como é ser criticada quando esteve a frente de um projeto no qual avaliava experiências em certos empreendimentos de Manaus, como restaurantes, por exemplo.

"Cancelada, não, mas criticada, já fui bastante, especialmente quando comecei com o perfil no Instagram, o A+ A-. Eu avaliava experiências e sempre que fazia uma crítica negativa (A-), vinham pessoas do estabelecimento ou amigos e familiares comentar grosserias nos meus posts. No começo eu respondia, depois passei a ignorar porque percebi que me indispor não ia adiantar", comentou a influencer.

Karen Mabel relata momento em que quase foi 'cancelada'. Foto: Arquivo Pessoal

Mabel conta ainda que para os profissionais que trabalham se expondo nas redes sociais, devem estar cientes a esses possíveis ataques. E que todos, não só influencers, devem ter o cuidado com a saúde mental.

"Trabalhar com internet, com uma certa exposição, é algo delicado, e quem opta por isso, precisa estar ciente e, se for o caso, trabalhar a mente com ajuda profissional. Aliás, sendo bem franca, acredito que, independentemente da profissão, todos nós deveríamos ter cuidado com a saúde mental. Mas não, eu nunca precisei procurar ajuda psicológica por esse motivo", contou Mabel.

Como não praticar a cultura do cancelamento

A psicóloga Keila Gomes aproveitou o momento para aconselhar como os internautas podem ir contra essa "maré do cancelamento" nas redes sociais, evitando julgar sem necessidade.

"Não exigir direitos violando um outro direito, não achar que somos donos da verdade, se policiar, pesquisar os fatos, ouvir os dois lados e não julgar o todo de uma pessoa por um único ato. Afinal, errar não é humano? Não falar tudo que pensa as vezes é ser coerente, não excitar a nenhuma forma de violência, não compactuar com boicotes por uma necessidade de aceitação ou pertencimento. Quem é bom e quem mal? Se somos os bons vamos jogar na fogueira os maus. Ao queimar os outros eu não estaria sendo mal? Como separar o joio do trigo?", pontuou a psicóloga.

Gomes destaca ainda que a pessoa "canceladora" deve repensar seus atos, pois o "cancelado" possivelmente vai precisar de ajuda psicológica no futuro.

"Há consequências psíquicas a esses indivíduos cancelados. O cancelador não está sendo tão intolerante e violento tanto quanto o cancelado? Se todos devem ter liberdade de expressão por que cancelar alguém? Quem ou o que você cancelaria? O que você cancelaria em você? O que você não expõe na rede social por medo? O que você pensa ou pratica e se colocasse na rede social seria cancelado? Então todos somos canceladores e devemos ser cancelados em algum momento?", refletiu Gomes.

Karen Mabel ressalta que deve haver compreensão e empatia entre a sociedade, pois todos merecem uma segunda chance para rever seus comportamentos.

"Acho que nós, enquanto telespectadores, temos uma facilidade enorme em apontar dedos e fazer julgamentos, e acreditamos sempre ter mais razão, mais bom senso e mais conhecimento do que o outro. Porém, quando estamos do outro lado, sendo julgados, a sensação é muito ruim. Infelizmente a empatia não é uma prática comum e frequente, e achamos que colocando a pessoa que "errou" numa situação desagradável pode ensiná-la algum tipo de lição. Se entendermos que todos nós erramos e que todos nós merecemos uma chance para rever conceitos, ideias, comportamentos, então conseguiremos ter mais empatia com o colega", concluiu Mabel.

Assuntos
Compartilhar
Sobre o Portal A Crítica
No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.
Portal A Crítica - Empresa de Jornais Calderaro LTDA.© Copyright 2026Todos direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por