Em entrevista para A CRÍTICA, secretário interino da Seduc, Luis Fabian explicou a pesquisa que a pasta começa a realizar hoje sobre o plano de retomada das atividades escolares da rede pública de ensino em todo o Amazonas.
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O secretário estadual de Educação, Luiz Fabian, avalia que a volta as aulas deve ocorrer entre o final de julho e o início de agosto. Em entrevista para A CRÍTICA, ele explicou a pesquisa que a pasta começa a realizar hoje sobre o plano de retomada das atividades escolares da rede pública de ensino em todo o Amazonas.
O secretário interino falou ainda sobre a importância do respeito a voz de professores, pedagogos, estudantes e de seus pais para que haja sucesso na reabertura das escolas. O retorno das aulas presenciais, no primeiro momento, porém, deve acontecer apenas na capital. Isso porque no interior os casos de coronavírus ainda estão em crescimento. O secretário disse que as escolas vão receber termômetros para checar diariamente as temperaturas e que serão doadas máscaras. A seguir a entrevista.
Qual a sua avaliação das aulas remotas, o projeto ‘Aula em Casa’?
O que é esperado de uma Secretaria Estadual de Educação é de fato o atendimento integral do aluno e quando a gente fala em atendimento integral do aluno, nós estamos falando de professor em sala de aula, professor ministrando o conteúdo, aprendizagem acontecendo e alimentação escolar. A gente sabe que a nossa realidade é preponderante no sentido de definir que uma parte dos alunos também vão à escola para se alimentar. Então, pensando nisso e avaliando todo o cenário que tradicionalmente nós temos, lançamos dois programas: o aula em casa e o merenda em casa. O aula em casa foi iniciado em uma semana ou 10 dias após a suspensão das aulas presenciais. Em tempo recorde a gente conseguiu colocar no ar as aulas que são aulas de qualidade muito elevada. Elas possuem todo um cuidado de curadoria, produção com uma equipe de mais de 100 profissionais que cuidam do roteiro das aulas, produção do material audiovisual, vinhetas e elementos tridimensionais, o que torna uma aula bem mais interessante. Nosso grande desafio é fazer com que os alunos efetivamente assistam às aulas. Esse desafio a gente busca resolver através de nossos professores, que são elemento essencial na educação. Não se pode pensar em educação sem professor. A gente percebeu como esse momento de pandemia algumas boas oportunidades na educação. Primeiro, professores que antes era uma avessos ao uso de tecnologia remota, hoje já entendem a tecnologia como algo válido e interessante. Os alunos que também algum momento eram avessos a possibilidade de ter aulas a distância, hoje já entendem isso como possibilidade. E sem dúvida a maior oportunidade que a gente encontrou nesse momento, foi um reposicionamento da família. A família se posicionou em relação a educação dos seus filhos. A gente passou a observar pais mais participativos.
Quais foram os resultados e gastos com o projeto ‘Merenda em Casa’? Após o retorno das aulas presenciais, os alunos vão continuar recebendo os kits?
A secretaria gastou cerca de R$17 milhões na aquisição desses kits para todos os 440 mil alunos da rede. A merenda por outro lado, é necessária. Porque é uma criança mal alimentada, não aprende. Nós tivemos também a possibilidade de fazer na capital a entrega nas casas dos alunos. Foi uma operação logística imensa com mais de 200 carros com motoristas e assistentes, aquisição e montagem dos 380 mil kits que foram montados no nosso depósito. Todos, devidamente entregues e o que a gente não conseguiu entregar foi por motivo de endereços mal informados. Hoje, já temos mais de 90% dos alunos da capital que ja receberam a merenda em casa. Nos municípios, esse percentual ao já chega a 60% e até o final do do mês a gente chegar no 100%. Penso que a gente cumpriu a nossa missão neste período de manter as aulas e distribuir as merendas. Tudo levando em consideração a sensibilidade do momento e a necessidade de tomar todos os cuidados com a saúde inclusive dos nossos servidores.
A gente vai voltar a servir as merenda nas escolas, porque o trabalho de distribuição das merendas movimentou muitos servidores e esse servidor precisa estar de volta nas escolas para receber esses alunos e fazer atividades. Então, a gente não tem condição de manter a distribuição, até porque o kit de merenda que já foi distribuído levou em consideração o valor per capita de 50 dias letivos, ou seja dois meses. Parece pouco, mas a gente precisa entender o seguinte: aquele que kit que foi distribuído foi para alimentação escolar do aluno. Não é uma sexta para família. O valor que a Secretaria recebe do governo federal para merenda escolar por aluno é R$0,39 por dia. Com R$0,39 a gente não consegue servir nada e é uma grande complementação pelo governo estadual. Então fazendo os cálculos nutricionais, em 40 dias letivos o consumo de arroz por aluno na escola é 600g. Porém, nós não temos como distribuir no kit apenas isso de arroz. Então, a gente entrega 1kg. Portanto, esse kit que foi entregue, em tese, responderia a 50 dias letivos se o aluno tivesse se alimentando na escola. É muito difícil dar essa explicação porque, geralmente, a opinião popular é no sentido de que toda atuação do estado tem que ser realizada para cuidar da família mas a merenda escolar não é voltada para a família. Ela é só para o estudante. O kit continha 11 itens, e foi o mesmo kit para todos os alunos, esses itens incluindo: feijão, arroz, farinha, macarrão, uma proteína enlatada (carne em conserva ou sardinha), dois pacotes de leite em pó, achocolatado, açúcar, biscoito doce e biscoito salgado.
Como vai ser utilizada a carga horária das aulas remotas no calendário letivo oficial?
Quando nós idealizamos esse programa, a gente seguiu todas as regras estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação e o Conselho Estadual de Educação, que criaram aquilo que se chamou de regime especial de aulas não presenciais. Os conselhos nos permitiram contabilizar as cargas horárias dessas aulas remotas com carga horária válida para o calendário letivo. Mas a gente não quer simplesmente cumprir a carga horária. Isso não é o suficiente para uma secretaria de educação. Nós precisamos averiguar se de fato houve aprendizagem por parte do aluno e isso é muito mais importante do que um mero cumprimento da carga horária. Quando os alunos retornarem para as atividades presenciais, nós vamos realizar uma grande avaliação de verificação da aprendizagem. Durante esse período, os alunos serão submetidos a uma avaliação diagnóstica de todos os componentes curriculares e que nós possamos de fato, avaliar a qualidade da aprendizagem de todos nesse período. Porque nós não tivemos durante esse período, avaliações e não tínhamos como realizar avaliações. Nós disponibilizamos muitas atividades de exercício e etc. Mas não avaliações para atribuição de notas. Nós iniciaremos com essa avaliação logo no primeiro dia dia de aula e o aluno vai ser recebido com uma acolhida. Esses alunos sofreram muito ao longo dos últimos meses. Tiveram perdas em suas famílias, muito provavelmente perdas de emprego e além dos possíveis falecimentos. Essas crianças estão sofridas e é preciso fazer esse acolhimento de uma forma muito sensível. A gente precisa se lembrar da resiliência dessas crianças e desenvolver isso nelas é dever da educação. No momento a gente tem que receber e acolher esses alunos e precisamos celebrar isso. Para que a gente possa Motivá-los a continuar na educação.
Então, verificada a aprendizagem, feito essa avaliação, nós vamos iniciar um processo de recuperação de conteúdo. Com base nos diagnósticos, nós já sabemos o que foi aprendido, o que não foi aprendido e aonde nós precisamos intervir e aí na semana seguinte nós faremos as intervenções pedagógicas por meio de várias estratégias como a distribuição de apostilas, exercícios e exercícios a exaustão para que nós possamos repor o conteúdo que eventualmente não tenha sido aprendido por meio das aulas não presenciais.
A gente está contando muito com os professores nesse período. Por isso que decidimos fazer essa pesquisa para ouvir toda a comunidade escolar. Esse é um momento sem precedentes porque geralmente as secretarias definem políticas, definem projetos sem ouvir aqueles a que mais interessam, que são os professores que vão ter que executar os projetos e os alunos que vão ser submetidos a execução do projeto. Nós queremos ouvir o professor e toda população da comunidade escolar. Os trabalhadores da educação, alunos e pais de alunos também vão responder. Com base na suas respostas a gente vai mudar o nosso plano de retorno
Como vai funcionar a pesquisa?
Na próxima segunda-feira a gente já vai lançar essa pesquisa nos nossos sites. Todos os nossos servidores vão receber os e-mails com os links para as respostas em um formulário eletrônico e todos os nossos alunos vão receber o link da parte de seus professores ou dos gestores da suas escolas. A ideia é que a gente tenha uma boa amostragem. Todos vão ter a oportunidade de responder mas, a ideia que a gente tem uma amostragem representativa para garantir que o plano de retorno de fato representa a vontade da maioria. As perguntas serão as mais variadas, como se a pessoa se sente confortável em retornar a atividade escolar nesse momento, se concorda com o exame de aprendizagem nos termos propostos e se tem sugestão de melhoria para esse processo. A ideia é que todos participem.
A classe dos profissionais de educação serão ouvidas durante a elaboração das estratégias do retorno presencial das atividades escolares? Qual a importância dos professores para a secretaria nesse processo?
Houve um desconforto inicial de alguma parte do professores de quando nós constatamos a possibilidade de dar continuidade às aulas por meio do ensino remoto. A gente não está falando de educação a distância. O que a gente fez agora não é educação a distância e sim, ensino remoto. A diferença técnica é que a educação a distância é necessariamente feita por meio de uma plataforma que o aluno acessa na hora que ele quiser. A diferença básica é essa. Nas aulas remotas todos os alunos precisam estar ali ao mesmo tempo e no mesmo horário. existe hora para começar e terminar e a uma troca ao vivo feito pelo aplicativo com o professor. Ficou comprovado por parte dos professores que é possível usar tecnologia, mas, que nada na tecnologia pode substituir a doação de professor em sala de aula. A tecnologia é uma estratégia para complementar a ação do professor. O professor precisa ser absolutamente respeitado enquanto é a grande força motriz da educação. Exatamente por isso, nesse senso de respeito ao professor é que nós vamos consultá-lo e considerar todas as colocações e as ponderações que eles fizerem para esse retorno. O professor é muito importante e esse rompimento da secretaria com o status quo de que a secretaria define políticas, impunha essas políticas e o que essa esta gestão pretende é construir políticas em conjunto com todos e com os atores do processo educacional.
O calendário escolar 2020 será concluído ainda esse ano?
Não é nossa intenção que o calendário termine no ano que vem. Mas, isso só será possível se as datas que hoje nós estamos imaginando realmente se materializam. Nós dependemos de variáveis exógenas e dos índices de contaminação. Não sabemos como esse vírus vai se comportar com esse retorno. Você imagina que no dia 6 de julho retornam às escolas particulares e isso são 200 mil alunos que vão estar circulando na rua. Se, a gente retorna três semanas depois, são outros 240 mil alunos que vão voltar e estarão circulando na rua. Então, quer dizer em quase um mês a gente pode ter aí na rua circulando quase 500 mil alunos na rua e isso reduziria os índices de isolamento social. Nós não sabemos como é que vai se comportar a transmissão quando a gente tiver esse tanto de gente circulando na cidade.
Caso a gente consiga retornar entre julho e agosto que é a nossa intenção, e a gente não tenho que descontinuar novamente as nossas atividades, nós conseguiremos finalizar o ano letivo em ainda em dezembro de 2020, para que a gente possa iniciar 2021 com um trabalho totalmente diferenciado. O ano que vem vai pedir um trabalho de muito esforço para que a gente possa correr atrás do prejuízo pedagógico que vai acontecer em todo mundo. 2021 é um ano de avaliação do Ideb e um ano muito estratégico para nós para que esses alunos se saiam bem na avaliação que mede nossa educação.
A Seduc vai adotar calendário especial?
A ideia é não ter, principalmente da capital. Porque no interior o cenário é diferente. No interior a gente não tem perspectiva de retorno ainda. Não há ainda uma estabilização dos números de infecção no interior, pelo contrário, os números do interior ainda estão crescendo. Então todo esse plano de retorno e essa proposta de calendário que a gente tem, se aplica por enquanto apenas para capital. No momento em que as autoridades de vigilância em saúde acenarem para a possibilidade da gente retornar no interior, iremos avaliar se vai ser necessário lá um calendário especial e eu imagino que talvez seja. Não há nenhum risco de perder o ano letivo de 2020.
Uma dúvida recorrente de pais e alunos é sobre como será esse retorno. Já existe um plano e uma data para retorno das aulas presenciais?
Nós estamos trabalhando com possibilidades. A ideia é que entre julho e agosto nós possamos retornar em nível escalonado. Na primeira semana, devemos iniciar primeiramente pelo ensino médio, duas semanas depois os anos finais do ensino fundamental e duas semanas depois os anos iniciais do ensino fundamental. Esse espaçamento de duas semanas entre um grupo e o outro foi definido a partir de orientação da fundação vigilância em saúde, porque 14 dias é o tempo necessário para a manifestação do vírus. E está todo mundo muito ansioso. Estamos trabalhando com um dos cenários de retorno na segunda quinzena de Julho.
Como as escolas vão assegurar isolamento em salas lotadas? Alunos e professores vão usar máscara durante as aulas?
As nossas salas de aula tem em média 40 alunos em lotação máxima. A gente pensa em um retorno que seja híbrido, ou seja, mantendo o ensino presencial mas mantendo o ensino remoto. A gente tem condições de dividir cada turma em dois grupos para termos aulas presenciais em dias alternados com cada um desses grupos. Então você imagina que uma turma de 40 alunos, vai ser dividido em dois grupos de 20. O grupo 1 vai assistir aulas presenciais nas segundas, quartas e sextas e o grupo 2, nas terças e quintas e trabalhar de forma invertida quando o grupo tiver em casa o outro está na escola e assim sucessivamente. Dessa forma a gente pode garantir que apenas metade dos alunos estejam na escola e que apenas metade dos alunos esteja circulando nas ruas, e além disso, com os demais cuidados e protocolos sanitários que nós da secretaria estamos providenciando para que esteja disponível nas escolas, a gente reduz muito a possibilidade transmissão da escola. Então, vai haver distribuição de máscaras, vamos disponibilizar totens com álcool em gel nas escolas. Estamos colocando pias nas portas das e nos corredores principais das escolas. Estamos fazendo uma grande aquisição de material de limpeza, álcool líquido para limpar as maçanetas. O protocolo de limpeza das escolas vai mudar também, como a limpeza das carteiras no final de cada aula. Todos os cuidados recomendados pela Organização Mundial da Saúde, pelo Ministério da Saúde e pela Fundação de vigilância do Amazonas serão seguidos.
Os bebedouros das escolas serão adaptados?
A orientação que nós vamos dar em relação aos bebedores será sugerir o uso de copos para que não haja mais o contato físico com as torneiras. Na verdade, a grande maioria das escolas já possui o formato com modelo industrial de torneira. Não há possibilidade dos alunos colocarem boca ali. Então eles naturalmente usam o copo. Em algumas escolas nós ainda temos o outro tipo de bebedouro mas já estamos providenciando a melhora.
Quais medidas sanitárias serão tomadas? Haverá higienização mais rígida nas escolas?
Sim, isso já está acontecendo. Alguma de nossas escolas foram como usadas como postos avançados de distribuição e logística do merenda em casa. E nós já promovemos a higienização das escolas, adiantamos esse processo que é um processo aprovado pela Organização Mundial da Saúde.
Sobre a carga horária e duração das aulas. Vai ser a mesma ou vai sofrer alguma redução?
A carga horária vai ser a mesma, só que a metade presencial e a outra metade remota.
Terá algum reforço para os alunos finalista do ensino médio por conta dos vestibulares de admissão nas universidades, processos seletivos e Enem?
Sim. Nós vamos ter o projeto conquistar que vai ser veiculado na TV e vamos ter também encontros presenciais aos sábados através de simulados e aulões para gente umgrande preparatório e isso já foi desenhado e a gente deve iniciar com essas aulas já em agosto.
Qual a proposta especificamente voltada para a proteção da saúde dos professores nessa simulação de retorno às aulas?
Primeiro, o atendimento a todos os protocolos de saúde e todos protocolos sanitários estabelecidos pelas autoridades nacionais internacionais de saúde serão feitos. Segundo, a manutenção do plano de saúde dos professores para que eles possam ter o rápido atendimento em caso de necessidade. Terceiro, o desenvolvimento de um grande programa de atenção à saúde mental e emocional dos nossos servidores e alunos que sofreram ao longo desse período com a doença ou com familiares perdidos, com empregos perdidos e precisam ter o seu emocional cuidado. Então nós vamos ter uma atividade voltada para assistência sociopsicológica dentro das escolas, não só para os alunos mas também professores.
Os professores que possuem problemas de saúde, como serão tratados pela secretaria? Irão repor essas atividades presenciais em outro momento?
A orientação dada pelo decreto vigente é de que a partir do dia 6 de julho todas as pessoas podem voltar a sua atividade os inclusive os que possuem comorbidade. Então, essa é a orientação que nós temos, portanto se ela não mudar, todas as pessoas retornam às atividades. Mas, é evidente que o cuidado que nós vamos ter com os professores de mais idade e professores doentes será maior. Na medida do possível, nós vamos identificar esses profissionais e se for o caso, afastar de salas de aula e ir atribuindo outras atividades de assessoramento que possam ser remotamente realizados.
Caso algum professor ou aluno apresentar sintomas durante o retorno das atividades presenciais, quais serão os procedimentos adotados pela secretaria?
Existe um procedimento na secretaria. Dentre os equipamentos que as escolas vão ter a gente também tem também os termômetros todos os alunos terão suas temperaturas medidas e testadas diariamente e o protocolo determina que acima de 37,5°C o aluno ou professor não pode ser admitido na escola e temos que fazer o acompanhamento até as autoridade de saúde mais próxima e informar a FVS para que eles façam o acompanhamento.