Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019
SBPC

'Estamos prevendo um tempo não muito alvissareiro à ciência', diz pesquisadora

Secretária da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência aponta os prejuízos que podem ser causados à produção científica do País por conta do corte de verbas promovido pelo governo federal



aagorinha_entrevista_F7453AB9-C404-4EE7-868E-AA23EF120C73.JPG Foto: Junio Matos: Free lancer
04/08/2019 às 15:08

Corte de verbas, suspensão de bolsas, dúvidas sobre pesquisas reconhecidas internacionalmente. Estes são alguns dos fatos enfrentados por pesquisadores brasileiros neste ano.

A pós-doutora e secretária da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Vera Val, conversou com o A CRÍTICA sobre os temas, e analisou os caminhos da Ciência e pesquisas no Brasil.

Como a senhora vê a Ciência, hoje, no Amazonas e no Brasil?

Eu ainda vejo a Ciência no Amazonas bem de ponta, mas em outro setores muito aquém do que é feito no resto do país, e ainda dependente de uma comunicação maior, da instalação de ambiente acadêmico maior. Avançou muito nesses 35, 40 anos, inclusive porque o avanço de tecnologia aumentou muito, as agências de fomento criaram mecanismos como o banco de periódicos da Capes, que a gente pode baixar e ler na hora. Antigamente, tinha que esperar revistas, e havia um delay. Agora é instantâneo e isso facilita muito para os nossos estudantes.

Os governos propiciam uma ambiente favorável para a Ciência?

Não. Nós estamos prevendo um tempo não muito alvissareiro para Ciência e Tecnologia. Houve muitos cortes, cortes de bolsas, cortes orçamentários, há algumas notícias muito assustadoras, como a que ouvimos semana passada na SBPC, que a partir de setembro não haverá mais dinheiro para pagar as bolsas, isso significa que mais de 60% dos nossos estudantes de pós-graduação vão ficar sem bolsa para estudar, muitos pós-doutorandos, que estão contribuindo com a produção científica também. A gente está sobressaltado. A SBPC, por exemplo, tem lutado contra isso, o presidente da SBPC e da  Academia Brasileira de Ciências disseram que não vão permitir esse estrangulamento, vamos lutar até o fim, mas  é muito complicado. Nós não podemos assumir uma posição político-partidária , somos associados que têm diversidade de pensamentos, temos é que defender que sem a educação nada de bom acontece no país. Nosso equilíbrio social aqui ainda é um dos maiores do país, temos grandes riquezas, grandes latifúndios concentrados em poucas pessoas e muitas que vivem na linha da pobreza.

Como as declarações que põem em xeque o trabalho do INPE impactam a sociedade?

De maneira muito negativa. O INPE é um dos institutos que foi sendo forjado de maneira forte do ponto de vista do C&T. Ele é ligado a empresas como a Embraer e desenvolveu uma tecnologia de imagens sem par no mundo, países como os Estados Unidos confiam nas imagens de satélite que o INPE posta sobre o Brasil e a Amazônia. Há uma discussão entre contar o desmatamento com o pé no chão e pelo satélite, já se concluiu que a imagem do satélite é muito fidedigna, não se pode por em xeque a instituição, se pode colocar em xeque se a instituição está fazendo o que o governo quer ou não, mas não a veracidade. Ciência é verdade, não tem como manipular. O problema é que esse governo está trazendo o obscurantismo de volta, não se pode misturar ciência e educação com religião. Fé é uma coisa que você acredita sem ver, a Ciência produz o que se pode comprovar. A Ciência é absoluta. Estou melancólica com o que esse governo tem trazido para as descobertas científicas, denegrir a imagem. A falta de cultura, de conhecimento é muito perverso para qualquer um. A começar pelo do presidente e o secto que o seguem, nós temos incultos e ignorantes dirigindo esse país. Nós estamos à deriva.

E como a comunidade científica pode se posicionar contra esse tipo de comportamento e para que não impeça o avanço?

Acredito que podemos nos manifestar escrevendo, fazendo abaixo-assinados, indo às ruas quando há manifestações, fazendo marcha pela ciência, espalhando feiras de ciência por aí, tendo um trabalho dos cientistas junto às escolas fundamentais e médias.  A SBPC tem o programa “SBPC Vai à Escola” que funciona muito bem, que contém uma ciência com linguagem mais para a criança e o adolescente, há muito material que pode ser feito, o problema é que somos poucos. Nós temos, na Amazônia inteira, a mesma quantidade de doutores que se tem na USP, quer dizer somos muito concentrados em alguns lugares e poucos em outros.

A senhora está como secretária regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Qual sua relação com a SBPC?

A SBPC é composta por um presidente, dois vices, um secretário-geral, três secretários e dois tesoureiros.  Eu sou uma das secretárias. Eu namoro a SBPC desde os anos 1970, porque sempre foi um fórum legítimo de resistência aos ditames da ditadura. A SBPC ocorria dentro das universidades e, no tempo da ditadura, as universidades eram o único solo em que polícia e Exército não entravam, o que hoje não existe mais isso. Era o refúgio onde se podia falar, ter liberdade de pensamento e traçar rumos que a gente acreditasse. Semana passada tivemos membros do Exército filmando palestras sobre determinados assuntos, teve gente que se sentiu intimidada. Eles estavam participando também e nunca foram hostis, sempre foram cordiais. Eu estou acostumada com o Exército daqui que é social, que leva serviços aonde o Estado não chega, que dá dignidade para as pessoas. Para mim, é complicado ver aquele tipo de comportamento.

Nessa semana a Terra chegou à sobrecarga, que é quando consumimos os recursos naturais de um ano. Ainda podemos reverter os danos ou preservar o que resta?

Há muitas maneira, a ciência já desenvolveu muitas metodologias de sustentabilidade, o lixo reciclável, alternativas ao plástico. O plástico foi um grande avanço para a sociedade em termos de higiene e serviço. Há outros materiais mais naturais facilmente degradáveis, como as resinas. Mas não podemos esquecer que ele vem da indústria do petróleo e assim como ela faz um lobby contra o álcool ou outro tipo de energia para mobilizar carro, vai fazer lobby contra deixar o uso de plástico, óbvio.

O presidente sinalizou para a liberação de extração de minérios em terras indígenas. Que impactos isso nos causaria?

É um retrocesso. Nós somos um dos últimos redutos da terra onde ainda há várias línguas indígenas, várias tribos que não se misturaram com o homem branco, essas tribos têm culturas e modo de viver próprios que ajudam a manter o ambiente saudável. Se você perde muita madeira, muita floresta, vai substituindo por outros tipos de planta que não tem o mesmo efeito de captura de CO2 nem o mesmo nível de fotossíntese. Por enquanto a floresta é ainda uma salvaguarda para o aquecimento global

O MEC lançou o programa Future-se, que visa a inserção de verba privada nas pesquisas. Esse é um caminho para as universidades?

A inserção é interessante desde que a busca seja feita pela universidade. Não pode ter contingenciamento de verbas públicas para a pesquisa e deixar que as empresas determinem o que as universidades têm que fazer. A Unicamp e Ufscar tem parcerias com empresas e é muito bacana, mas desde você descobrir o princípio ativo de uma planta até a ponta da fábrica que vai comprar aquela fórmula, industrializar e vender, vai todo um trabalho de financiamento que tem que ser público, porque nenhuma fábrica vai financiar o estudo básico. 

Esse tipo de política seria interessante para as pesquisas sociais e de humanas?

Não, porque o governo não entende que a base cultural de um país é importante para que ele desenvolva. A filosofia e a ética promovem um conhecimento científico importante para profissões como medicina, odontologia, que lidam com seres humanos.

A volta do Centro de Biotecnologgia da Amazônia para a Suframa garante desenvolvimento local?

Eu sei que houve muito trabalho e não se agora tudo retrocedeu, o CBA voltou para a Suframa, quem sabe agora o Ministério contrata pesquisadores. O CBA existe como estrutura, mas não existe no papel. Legalmente, ele não tem CNPJ. Eu não sei qual é a filosofia desse governo quanto ao CBA nem à Amazônia. Da Amazônia ja deu para ver que é uma desconstrução de tudo o que a gente vinha trabalhando pra não acontecer.

Qual o impacto social de ter o Bosque da Ciência fechado para visitação?

Impacta muito. O Bosque foi criado como forma de divulgação científica para as crianças, para estimular o conhecimento, e o Bosque sendo fechado é um desserviço. O Bosque não foi criado para turismo, ele é um bom ponto turístico, mas ele foi criado com o intuito de educação ambiental, mostrar para a criança que não existe leão aqui, existe onça.

Perfil

Nome: Vera Maria Fonseca de Almeida e Val

Idade:62 anos

Estudos: Bióloga, Mestre em Ecologia e Recursos Naturais, Doutora em Biologia de Água Doce, e Pós-doutora em Adaptação de Peixes,pela Universidade de Columbia.

Experiência:  Pesquisadora do INPA, professora, coordenadora do doutorado em Biologia, secretária da SBPC.

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