A CRÍTICA entrevistou os responsáveis pela produção e tradução de mais de 20 mil expressões, frase, comandos, formato de data e hora, entre outras informações, dos idiomas nheengatu e kaingang, na nova linha Moto G
(Foto: Reprodução/Internet)
A Motorola lançou, nessa quinta-feira (25), sua nova linha de smartphones Moto G, e incluiu na opção de configuração de idiomas dois que estão ameaçados de extinção na América Latina: o nheengatu e o kaigang. Ambos são indígenas, sendo o nheengatu predominante na bacia do Alto Rio Negro, nos estados do Amazonas e Roraima; e o kaingang, com extensa difusão no Sul e Sudeste do país. A iniciativa inédita foi realizada em parceira com a Universidade de Campinas (Unicamp). Foram traduzidos mais de 20 mil expressões, frases, comandos, instruções de orientação, formato de data e hora, e outras informações.
"O povo Kaingang tem mais de 45 mil pessoas, a língua é falada por mais de 20 mil pessoas, pelo menos, e é a terceira língua com maior número de falantes no Brasil. E a nheengatu que é outra língua disponível nesse smartphone pra ser configurado nela, que é uma língua amazônica surgida a partir do século XVII e que espalhou em grande parte da Amazônia e que hoje é falada em muitas comunidades indígenas no Alto Rio Negro, no Médio e Baixo Amazonas", explica o pesquisador em Antropologia cultural e de línguas indígenas da Unicamp, Wilmar da Rocha D'Angelis.
Foram oito meses de intensa produção que contou com a ajuda de indígenas representantes de ambos os idiomas. Para Edson Baré, de São Gabriel da Cachoeira, um dos indígenas consultados para tradução nheengatu, a ação da empresa é uma vitória para os povos indígenas. Edson defende que mais idiomas indígenas devam ser contemplados e inseridos nos smartphones, e que esta inserção pode ajudar a reduzir preconceito contra os falantes das línguas.
"É muito valioso para nós, uma vitória não só minha, como falante de nheengatu, mas uma vitória de todos os povos tradicionais, porque muitas vezes dizem que a nossa língua não serve, que a gente é minoria, enfim, a gente sofre muito esse preconceito por conta disso. Mas, através desse trabalho demonstramos que temos voz, que temos conhecimento e que somos capazes de contribuir com a inovação desse mundo, ainda mais uma inovação tecnológica que poderá estar sendo utilizada por muitos parentes, falantes de nheengatu. Eu espero que possamos ter também outras línguas aqui da região que possa também inspirar as outras empresas a valorizar as línguas indígenas para que possamos entrar nesse mundo virtual também que é de suma importância para nós", defende Edson Baré.
Como surgiu a ideia
De acordo com o professor D'Angelis, o projeto partiu de uma proposta da Motorola, que procurou o grupo de pesquisa em idiomas coordenado pelo pesquiador na busca por 'revitalizar' idiomas indígenas em risco de extinção. "É uma coisa que temos defendido importante, insistido, é que as línguas minoritárias, as línguas para serem fortalecidas precisam estar cada vez mais presentes em suportes de prestígio, precisam ser vistas pelas novas gerações dessas comunidades, em lugares públicos e de relevância, e nada melhor do que os computadores, os celulares, as tecnologias de informação e comunicação como lugar de autoprestigio e de autovisibilidade, o outro aspecto inclusive é esse, a visibilidade que as línguas indígenas precisam ganhar para serem reconhecidas como línguas ao lado de todas as outras de maior número de falantes", diz o professor.
O grupo de idiomas da Unicamp conduz pesquisas acerca da capilaridade de falantes de línguas indígenas no Brasil. Conforme o pesquisador, é preciso reconhecer a riquezas do conhecimento indígena, e isso se torna cada vez mais possível com a leitura do idioma.
“Há muito equívoco, há muitas ideias erradas a respeito das línguas indígenas. Muita gente pensa que são línguas pobres ou são línguas simples, nada mais errado que isso. Uma língua é uma riqueza criada e desenvolvida ao longo de centenas ou de milhares de anos pelo povo que a fala. Para efeito de comparação basta dizer que existem línguas tupi com mais de 4.000 anos, enquanto que a língua portuguesa ainda não completou seu primeiro milênio de vida. O que eu acho importante é que é preciso superar os preconceitos e conhecer melhor a riqueza das línguas e dos conhecimentos dos povos indígenas para que finalmente eles sejam respeitados e mais do que isso, valorizados. Essa inclusão de duas línguas indígenas brasileiras, uma do sul e uma do norte, em smartphones que serão vendidos e já são vendidos no mundo inteiro é um passo muito valioso no esforço de tornar essas línguas reconhecidas, respeitadas e valorizadas", finaliza D'Angelis.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), o nheengatu entrou na lista de ameaça de extinção no início de 2014, e o kainkang é listado como definitivamente ameaçado desde 1998.