Sexta-feira, 03 de Abril de 2020
LIDERANÇA

Mulher e quilombola, ela superou a fome e hoje é chefe em fundação

Nascida no território Murumuru, Valcléia tem história de identificação com movimentos sociais e interioranos e é engajada nas causas sociais e ambientais.



Mulher_e_quilombola01_E635EE4B-CC88-4772-89B4-8324DBDEFF7E.JPG Fotos: Aguilar Abecassis
10/03/2020 às 15:58

Força, garra, determinação. São essas qualidades que definem muitas mulheres. O que não foi e não é diferente na vida da superintendente de Desenvolvimento Sustentável da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), Valcléia Solidade, que contou um pouco sobre sua trajetória à reportagem de A CRÍTICA.

Ela, que nasceu no território quilombola Murumuru, em Santarém (PA), conheceu o Amazonas após se contratada para trabalhar em uma empresa responsável por instalar o sistema gasoduto Coari-Manaus, o que proporcionou a ela um conhecimento profundo sobre as comunidades no interior do Estado e suas necessidades.



Valcléia conta que a vivência no local onde morava e o envolvimento dos pais em movimentos sociais ajudou no seu processo de engajamento nas causas sociais e ambientais.

“O fato de eu ter me inserido nessa questão do meio ambiente foi muito de onde eu vim. Eu costumo dizer que sou comunitária, porque a minha vida toda eu nasci em comunidade, cresci em comunidade. Meu pai era uma liderança, que por muitos anos foi presidente da comunidade, e minha mãe envolvida com educação de base. Meus pais tinham esse viés de liderança, de olhar para a comunidade, de se doar em prol do coletivo. Isso foi um exemplo para nós como filhos que tivemos avós escravizados”, contou.

Superou a fome

Antes de atuar na função que esta desde o ano passado, ela superou a fome, o abandono da mãe e trabalhou em troca de comida e moradia para concluir os estudos, que eram limitados na comunidade onde morava.

“Com 12 anos eu fui trabalhar em uma casa. Assim que acontecia naquela época. A gente ia morar na casa de alguém na cidade para estudar e em troca trabalhávamos no local. Então aos 12 fui parar em Belém. E vivi uma situação delicada, porque cuidava de uma casa de dois andares e de duas crianças. Eu dormia, em média, quatro horas por dia. As vezes, eu dormia na escola. Essa foi uma situação delicada e meu pai soube e eu voltei para Santarém e fui morar na casa de um historiador e continuar os estudos”, falou.

Nesse período, já com 15 anos ela engravidou e como a mãe foi embora, teve que voltar a morar com os pais e os irmãos, que ainda estavam na casa, para ajudar a cuidar dos pequenos. Isso, porém não a impossibilitou de estudar, concluir o ensino técnico e se tornar uma técnica em agropecuária.

“Foi essa formação que me permitiu levar meu conhecimento técnico e muito mais a minha vivência de comunidade. Com isso eu fui fazer uma estágio em uma ONG em Santarém e de lá fui convidada por eles para trabalhar com um projeto, ‘Saúde e Alegria’, que atuava em uma comunidade ribeirinha da região do Tapajós. Fiquei dez anos lá e saí para o gasoduto”.

Ela ficou no Amazonas por alguns anos; em 2008 chegou a voltar ao Pará até ser convidada para atuar na FAS e voltar para o Estado, onde chegou a ser coordenadora-geral do programa “Bolsa Floresta”.

Inúmeros desafios

Hoje à frente de um cargo de chefia na fundação, ela conta que são inúmeros os desafios.

“Nós trabalhamos em ambientes muitos sensíveis. Você chega a comunidades onde ainda vê a questão da postura patriarcal muito forte. De muita submissão nos lugares. De mulheres que sofrem violência. Aí você tem que ter um posicionamento cauteloso", explica.

Ela fala sobre a postura adotada nesses casos. "Existe conflito, problemas de violência, uma série de coisas. Então tem que saber chegar, falar de igual para igual, ser humilde, não levar sua opinião formada para dentro da comunidade. Porque muitas vezes você leva a sua necessidade para suprir a do outro, mas não é aquilo que ele quer”, destacou.

Em uma fase da vida ela cuidava de uma casa de dois andares com duas crianças e dormia, em média, quatro horas por dia

Na função em que atua a superintendente diz nunca ter enfrentando preconceitos ou dificuldades por ser mulher, mesmo isso sendo presente em vários setores da sociedade. Neste Dia Internacional da Mulher ela acredita que muita coisa já foi conquistada por quem nos antecedeu, mas ainda é preciso mais parceria.

“Algumas coisas precisam melhorar. Uma delas é relacionada às políticas mais especificas voltadas para as mulheres. Que vejam a mulher e as valorize pelos seus conhecimentos. É preciso valorizar que as mulheres têm uma força e que podem contribuir muito".

"Em tempos difíceis como esse, onde estamos em um cenário muito conturbado, onde as pessoas pararam de amar mais e se colocar no lugar do outro, precisa-se valorizar mais as outras mulheres. Precisamos nos unir e nos apoiar mais. Precisa haver um pouco mais de laço e paixão”, opinou.

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Repórter de Cidades
Formada em 2010 pela Uninorte, é pós-graduada em Assessoria de Imprensa e Mídias Digitais pela Faculdade Boas Novas. Repórter de Cidades em A Crítica desde 2018.

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