Sexta-feira, 30 de Julho de 2021
ENTREVISTA

‘O Brasil é vítima de uma pandemia de desinformação’, afirma pesquisadora Raquel Recuero

Pesquisadora avalia que informações falsas sobre a covid-19 veiculadas nas redes sociais e endossadas por autoridades ampliam o estrago da pandemia



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20/06/2021 às 17:35

Uma das participantes do ciclo de lives 'Jornalismo em Movimento' do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que debate desinformação e covid-19, a professora da Ufpel Raquel Recuero, em entrevista ao A CRÍTICA, explicou que quando autoridades médicas e políticas usam da sua posição para disseminar informação falsa, o conteúdo se espalha de forma mais contundente.

Analisou que a CPI da Pandemia tem pecado dando espaço para negacionistas enfatizarem teorias da conspiração que colocam em cheque vacinas e o isolamento social.



A pesquisadora, que possui vários artigos e livros sobre discursos mediados por redes sociais e comunidades virtuais na internet, ponderou ainda que o jornalismo na ânsia de ouvir o outro lado acaba se tornando “palco” de mentiras e defendeu que matérias jornalísticas não devem dar ouvidos à desinformação. Abaixo, acompanhe trechos da entrevista.

Perfil

Nome: Raquel Recuero

Idade: 43 anos

Estudos: Doutora em Comunicação, professora da Universidade de Pelotas (Ufpel) e da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e uma das coordenadoras do Midiars (Laboratório de Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais). Formada em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas e em Direito pela Universidade Federal de Pelotas, além de mestre em Comunicação pela UFRGS.

Qual é o peso da desinformação na pandemia de covid-19 no Brasil?

É um peso muito grande. Primeiro, porque essa desinformação tem sido espalhada através da mídia social que é um portal de informação para a maior parte da população brasileira. Essa desinformação tem sido legitimada por autoridades tanto autoridades públicas, quanto algumas autoridades médicas. Como a maior parte da população tem o acesso bastante limitado, muitas pessoas recebem essa informação, mas não recebem nada que contradiga essa informação falsa. O Brasil é vítima de uma infodemia, sim, uma grande pandemia de desinformação que também outros países do mundo sofrem do mesmo jeito. No entanto, no Brasil tem um impacto gigantesco.

A postura do presidente Jair Bolsonaro de espalhar informação falsa nas redes sociais sobre o combate à pandemia prejudicou a percepção da população a respeito da gravidade da doença?

Com base nos dados de mídias sociais da nossa pesquisa, na mídia social, posso dizer que sim. Existe uma radicalização que as pessoas se afastam daquelas fontes que seriam de informações apuradas e começam a reproduzir informações sem fonte, ou seja, informações oriundas de fontes apócrifas que tentam se passar por veículos jornalísticos ou mesmo autoridades que não têm nenhum fundamento. Isso radicaliza as pessoas, afasta as pessoas do conteúdo e as pessoas começam a reproduzir essa informação de uma maneira muito engajada. Reproduzem muito mais do que conteúdo que foi verificado e que contradiz essa desinformação.

Durante toda a pandemia tivemos informações desencontradas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) dizia uma coisa e o governo Brasileiro dizia outra. É uma desinformação e justamente, por isso, ela tem um enquadramento político, por conta desse enquadramento político, aliás a gente está discutindo saúde pública, que é uma coisa que demanda cooperação de todos, a gente acaba enquadrando a adoção de certas medidas não farmacológicas para prevenção pessoal contra o vírus a posicionamento político. Infelizmente, isso acaba prejudicando a população e beneficiando autoridades públicas.

Que papel o jornalismo profissional pode desempenhar no combate a informações falsas sobre a pandemia?

O jornalismo precisa parar de dar palco para desinformação. A gente não precisa noticiar a informação falsa, justamente, porque não é notícia. Se a pessoa está falando um absurdo, a gente não pode trazer isso como algo que pode ser ouvido pela população. O trabalho de apuração, um trabalho de comprometimento, para se mostrar a grande diferença de uma matéria jornalística para uma matéria desinformativa: o jornalismo tem um processo de apuração e, no caso da desinformação, inventa-se qualquer coisa mesmo. O jornalismo precisa de um trabalho de qualificação para estimular o surgimento de um jornalismo de qualidade, além de um espaço melhor de trabalho, tempo para o jornalista apurar adequadamente uma matéria.

O jornalismo da grande imprensa nacionalmente tem um modelo virtual de assinaturas que cobra por acesso, talvez fosse o caso de rever isso, mas entendo ao mesmo tempo que o jornalismo precisa sobreviver e essa sobrevivência hoje está dependendo de um modelo jornalístico que não existe. Toda matéria que envolve uma camada de interesse público deveria ser aberta para acesso público. Embora todo o jornalismo seja de interesse público, mas entendo que em momentos extremos como esse, isso é fundamental. A gente precisa também pensar na produção desse jornalismo, se abrirmos tudo, se não houver nenhuma fonte de renda para sustentação do fazer jornalístico, fica impraticável.

A senhora considera que a abordagem das plataformas de redes sociais tem sido branda quando o assunto é conteúdo que coloca em dúvida a eficácia de vacina, isolamento social e máscaras?

Com toda certeza, principalmente, no idioma português. Acho que essas plataformas teriam condições de fazer um monitoramento muito melhor e marcar, porque existe pesquisa provando que quando a própria plataforma marca aquele conteúdo como desinformação, ele circula muito menos, impedindo a circulação de discursos de autoridades que influenciam o não uso de máscaras, por exemplo.

Todo conteúdo que tem uma autoridade por trás ele circula muito mais do que um conteúdo que não. Especialmente em relação à pandemia por conta dessa polarização, que na verdade, é uma falsa polarização, porque de um lado tem uma extrema direita dizendo para as pessoas que elas não têm que usar máscara, que tudo isso é uma conspiração e do outro lado está o contrário disso.

Para traçar o impacto de conteúdo falso em aplicativos como Whatsapp e o Telegram é muito difícil, precisaríamos da cooperação dessas plataformas, até porque o pesquisador não tem acesso a essas publicações, porque são privadas. Esse esforço em outras partes do mundo já iniciou, mas para mim, esse mesmo esforço está mais atrasado em português.

Se o governo federal tivesse investido numa estratégia de comunicação mais profissional que alertasse as pessoas sobre os riscos do novo coronavírus, ainda no início da crise, o número de mortes poderia ser outro?

Sem dúvida nenhuma. O trabalho de comunicação é fundamental na saúde pública, a gente precisa que as pessoas cooperem. Não precisamos criar inimigos entre as pessoas. O Brasil já fez esse trabalho muitas vezes, mas infelizmente, desta vez não está fazendo. A gente tem uma recomendação no nosso relatório que no momento atual, se essa estratégia de comunicação fosse feita desde o início, talvez não precisasse, mas com tanta desinformação circulando precisamos de uma estratégia muito mais forte para combater isso. Instituições precisam combater a desinformação, não é para dar palco para ela, é importante combatê-la imediatamente. Uma informação falsa precisa de um contraponto, ser enfatizado numa matéria e ser trazido a público.

Essa abordagem também deve ser feita na mídia de massa, pois ela atinge muito mais gente uniformemente. A mídia social circula em bolhas. Seja por matérias ou publicidade do governo federal e isso precisa ser bem cirúrgico a fim de desconstruir falsidades.

Qual é o risco quando médicos invocam a sua posição técnica para propagandear medicamentos como cloroquina e ivermectina que não têm nenhum efeito prático contra a covid-19?

Um dos resultados do nosso relatório é que autoridades médicas e políticas têm uma importância gigantesca na propagação de desinformação. Cada vez que essas pessoas com esse lugar na sociedade que é reconhecido por todos, falam tem um impacto descomunal. Porque não é qualquer pessoa que está dizendo, é uma pessoa que tem credibilidade, uma autoridade, muitas vezes pessoas que têm fé pública.

Pessoas com fé pública chegam e dizem ‘tomem quilos de cloroquina todos os dias que vocês não vão pegar covid’. A pessoa toma e morre. E de quem é a responsabilidade?

Como a senhora avalia o esforço da CPI da Pandemia do Senado em rebater informações falsas ditas de forma proposital por depoentes ligados ao governo Bolsonaro?

Foi um pouco modesto. Poderia ter sido até mais veemente e deveriam trazer outras autoridades porque tem muitos pesquisadores no país, epidemiologistas, que poderiam estar mostrando o que poderia ter sido feito e não foi. Não consigo enxergar a estrutura que foi dada para a CPI, mas acho que os especialistas devem ser ouvidos o mais rapidamente possível e não os políticos. Os políticos deveriam ser ouvidos depois, os especialistas vão trazer os insumos para que os próprios senadores possam fundamentar as perguntas

Qual a sua avaliação dos depoimentos na CPI da médica Nise Yamaguchi e da secretária do Ministério da Saúde Mayra Pinheiro que insistiram na teoria de que os medicamentos do ‘tratamento precoce’ funcionam contra a covid-19?

O que posso dizer a partir dos dados que a gente tem acesso é que eles foram muito usados em grupos de desinformação dizendo que os depoentes foram atacados ou que as médicas sabiam o que estavam falando. Foram depoimentos que não acabaram, talvez, trazendo o resultado que se esperava que era desconstruir a ideia da desinformação.

A desinformação pode ser mais nociva em regiões onde existe um deserto de notícias sem cobertura de uma imprensa local dos vários aspectos da pandemia?

Com toda certeza. É o mesmo caso de circulação de outros discursos, por lógica, nessas localidades vai ter menos especialistas, menos pessoas para contrapor. Como solução precisamos de um trabalho institucional de combate à desinformação com campanhas sobre os efeitos de notícias falsas que envolvam prefeituras e governos, instituições e tribunais, o próprio legislativo, que tem sido muito atacado com desinformação. A gente precisa fazer um trabalho de educação midiática nas escolas e universidades para que as pessoas consigam diferenciar conteúdo jornalístico de um conteúdo com uma aparência jornalística, mas que é falso.

O depoimento do ex-secretário de comunicação do governo Bolsonaro, Fábio Wajngarten à CPI revelou que a estrutura da Secretaria de Comunicação era usada para espalhar conteúdo oficial que menosprezava o perigo da pandemia atacando as medidas de distanciamento social tomadas por governos de estado. Como pesquisadora na área de comunicação a senhora se surpreendeu com a ação?

Me surpreendeu fortemente. Esperávamos, evidentemente, que o governo tentasse agir de maneira coletiva junto com os estados, a própria OMS. É um problema gravíssimo, porque a força produtiva do Brasil inteiro está sendo impactada, há pessoas que não vão poder trabalhar que vão ter prejuízo, esperaria que houvesse uma consideração nesse sentido com uma ação para evitar isso e não uma negação. Realmente foi uma surpresa.


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