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Cotidiano
SEMANA DA VOZ

Profissionais da voz no Amazonas revelam cuidados com o instrumento de trabalho

Hidratação, repouso vocal, evitar o consumo de cigarro e bebidas alcoólicas excessivamente estão entre as recomendações 17/04/2018 às 05:06 - Atualizado em 18/04/2018 às 18:46
Show voz
‘Não bebo’: Waltemir é locutor de rádio comunitária há quatro décadas. Foto: Euzivaldo Queiroz
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Ter uma voz saudável passa por disciplina no dia a dia em hábitos como, por exemplo, a alimentação. É o que dizem especialistas e pessoas que utilizam as cordas vocais para os mais diferentes fins, inclusive profissionais.

Na região amazônica o principal problema da voz é o refluxo laringofaríngeo, pelo fato da dieta do amazonense ser bem condimentada, atingindo 70% dos casos de pessoas que procuram atendimento, informa a otorrinolaringologista Súnia Ribeiro, chefe do Serviço de Otorrinolaringologia da Fundação Hospital Adriano Jorge (FHAJ), entidade que está organizando junto com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) a Semana Mundial da Voz, com uma programação especial de atendimento.

“Em seguida vêm as doenças benignas como os nódulos, e os pólipos, dos profissionais da voz, depois as fendas glóticas, e mais raramente o câncer de laringe. São os profissionais da voz como professores, jornalistas de telejornais, trabalhadores de telemarketing e vendedores são as categorias em que existem mais problemas de voz”, disse Súnia.

A especialista faz várias recomendações para os cuidados da voz. Ela recomenda, por exemplo, que a pessoa se hidrate, ingerindo bastante líquido e que, além disso, faça repouso vocal, não fume e evite bebidas alcoólicas excessivamente.

O jornalista esportivo Adeílson Albuquerque, narrador oficial do Campeonato Amazonense pela TV A Crítica, é um dos profissionais que não descuida da voz. Ele dá a receita, que passa pela hidratação e a realização de exercícios intercalados pré-narração.


Adeílson Albuquerque sabe da importância da sua voz / Foto: Divulgação

“Tomo muita água! Evito refrigerante e doces. Se eu tomo uma lata de refrigerante por mês é muito. Agora, eu esbanjo na água. Quando vou narrar uma partida de futebol, seja no radio ou na TV, eu tomo em média de 3 a 4 garrafinhas de água mineral de 300ml. A água suaviza, acalma minhas pregas vocais que ficam ‘afoitas’ durante uma narração. Inclusive, a água me ajuda na estabilidade emocional de minha voz em uma transmissão”, contou.

“Outra coisa que eu não hesito é o retorno de ouvido. Eu preciso dele pra saber o que estou falando e fazendo. No mais, faço, ao menos, 30 minutos diários de exercícios vocais. Agora, no dia em que eu vou narrar um jogo faço de 30 a 40 minutos de exercícios intercalados, antes de a bola rolar. Evito também falar alto, tipo gritando, pois percebo que isso me prejudica em alguns momentos, cansa a voz”, destacou o narrador.

Do ‘boca de ferro’

Atuante há mais de 40 anos na área da comunicação, o locutor Waltemir Mendonça, 73, da “Voz Comunitária Seis Irmãos”, é uma das pessoas mais conhecidas da área do Porto do São Raimundo.


"Foi da voz que eu criei a minha vida", disse seu Waltemir Mendonça, 73, da “Voz Comunitária Seis Irmãos”, subindo no poste para ajeitar os alto-falantes / Foto: Euzivaldo Queiroz

Para seu Waltemir, a voz como ferramenta é importantíssima. Tanto que ele não bebe refrigerantes nem bebidas com álcool. “E não bebo gelo nem água gelada. Tomo água com limão para os fungos não se difundirem. A voz que eu e outros colegas locutores temos é primordial do ser humano. Se eu ficar rouco jamais poderei falar ao microfone. Nesse dia internacional eu quero que todos os profissionais tenham a voz firmada, padronizada e que não saia do ritmo. Foi da voz que eu criei a minha vida”, contou.

"Aqueço para cantar, mas para falar..."

A professora de História e cantora lírica do Grupo Vocal do Coral do Amazonas Lia Carvalho Pimentel, 27, sabe bem da responsabilidade que tem com a voz.  “Já tive vários períodos longos de rouquidão e já até cantei rouca. No início desse ano a situação ficou insustentável e eu tive que me ausentar do Festival de Ópera”, comentou.


Lia é cantora lírica e professora e falou sobre os sacrifícios da "jornada dupla" / Foto: Euzivaldo Queiroz

Ela disse que ser professora lhe sacrifica mais a voz. “Apesar de eu ser soprano e exercer muito da minha voz, antes de qualquer canto eu faço um aquecimento vocal e um desaquecimento. Mas, sendo professora, não adianta aquecimento vocal que você passa, pois passa muito tempo falando”, disse.

FHAJ e UEA realizarão 100 exames em pacientes que passaram pela triagem

Durante a Semana da Voz, de hoje até dia 20 deste mês, na unidade da Fundação Hospital Adriano Jorge (FHAJ), localizada na avenida Carvalho Leal, 1778, Cachoeirinha, Zona Sul de Manaus, serão realizados 100 exames - sendo 25 por dia, até sexta-feira (20) - de videolaringoscopia para as pessoas que passaram pela triagem de ontem (16).


Semana tem por objetivo conscientizar a população sobre a necessidade dos cuidados. Foto: Euzivaldo Queiroz

O público-alvo é todo paciente que apresente alteração na voz. Os casos que tiverem indicação serão encaminhados para posterior realização de consultas e exames, no ambulatório de Otorrinolaringologia. Os pacientes, após exames, receberão orientações para tratamento ou encaminhamento, conforme indiquem os resultados.

Os eventos alusivos ao Dia Mundial da Voz são realizados em parceria com a UEA, preceptores e residentes do Programa de Residência Médica em Otorrinolaringologia do Hospital Adriano Jorge e contam ainda com o apoio da Liga Amazonense de Otorrinolaringologia (Laor) e Cirurgia Cérvico-Facial (ORL-CCF), além de alunos da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).


A otorrinolaringologista Súnia Ribeiro, do Hospital Adriano Jorge / Foto: Euzivaldo Queiroz

Segundo a otorrinolaringologista Súnia Ribeiro, o foco é “promover o diagnóstico precoce das doenças de garganta, especialmente das pregas vocais e conscientizar sobre a importância dos cuidados da saúde vocal e implicações na comunicação”.

Balanço do ano passado

Em 2017, a Semana da Voz teve 77 pacientes triados para exames de videolaringoscopia. Dos pacientes submetidos ao exame, 76% eram do sexo feminino e 24% do sexo masculino, sendo que quase metade dos pacientes atendidos (49%) estavam na faixa etária de 41 a 60 anos. Na triagem, a queixa mais comum é a rouquidão persistente, seguida de dor de garganta e pigarro. Após exames de videolaringoscopia, o diagnóstico prevalente é a laringite posterior, cuja principal causa é o refluxo faringolaríngeo.

Dos 71 pacientes atendidos – visto que seis não conseguiram realizar o exame de videolaringoscopia –  40,8% utilizavam a voz como instrumento profissional, 26,7% faziam uso de álcool e 26,7% de tabaco. Do total de pacientes da triagem, 2,82% dos foram encaminhados para outras especialidades para investigação ou tratamento de urgência.

Reflexão

"Este dia faz com que venhamos a refletir com relação à saúde da voz e falar isso para a comunidade, para os pacientes começarem a ter essa consciência de que a voz também precisa ser saudável. No geral, as pessoas, de forma inconsciente, por não saberem como a voz funciona, acabam abusando dela e isso traz consequências negativas que alteram a qualidade da voz", afirma a fonoaudióloga Raquel Barbosa Ferreira.


No geral, as pessoas, de forma inconsciente, por não saberem como a voz funciona, acabam abusando dela e isso traz consequências negativas", afirma a fonoaudióloga Raquel Barbosa Ferreira / Foto: Euzivaldo Queiroz

"Gritar, tossir, pigarrear e o estresse são prejudiciais, bem como a falta de dormir, alimentos que são ingeridos inadequadamente quando a pessoa vai falar por um período prolongado, como com alto teor de gordura e condimentos, laticínios. Outro cuidado a ser observado é o posicionamento frente ao ar-condicionado e postura", recomenda.

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