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Cotidiano
Saúde mental

Psicofobia é um preconceito que deve ser combatido, alerta psiquiatra

Especialista Alessandra Pereira explica que a discriminação e desinformação existentes por parte da sociedade, contra quem possui transtorno mental, dificulta, e atrasa o tratamento, de quem sofre com o distúrbio psíquico 23/04/2018 às 07:06 - Atualizado em 23/04/2018 às 15:22
Show psicofobia
Segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS, cerca de 720 milhões de pessoas sofrem com doenças mentais em todo o mundo / Foto: Divulgação
Paulo André Nunes Manaus (AM)

“A educação em saúde mental é fundamental, pois a ignorância e a desinformação são os principais culpados pelo estigma e pela psicofobia!”. A declaração é da psiquiatra Alessandra Pereira, alertando sobre a psicofobia, que é o preconceito contra as pessoas que têm transtornos e deficiências mentais. Abril é o mês de Enfrentamento à Psicofobia, e o último dia 12 foi instituído como data nacional pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) contra esse preconceito em homenagem ao nascimento do humorista Chico Anysio, patrono da campanha - ele sofreu de depressão por 24 anos e relatou, antes de morrer, que se não fosse o tratamento psiquiátrico, não teria produzido nem 20% do que produziu em carreira.

Segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS, cerca de 720 milhões de pessoas sofrem com doenças mentais em todo o mundo - aproximadamente 10% de toda a população mundial. A ABP lançou oficialmente a campanha #Psicofobiaexiste, e alerta sobre o assunto nas suas mídias sociais Facebook, Twitter, Instagram e Linkedin.

“O que faz a psicofobia é a desinformação, a falta de informação é ‘fundamental’ nesse processo e por isso é tão importante levarmos para todas as pessoas informações sobre as doenças e sobre os medicamentos. Qual o pensamento social? É que a pessoa que tem um transtorno mental é louca, e na verdade temos diversos transtornos mentais que não configuram loucura, como depressão e ansiedade, que são os mais comuns. Mas temos outros critérios. E em relação aos medicamentos há um preconceito muito grande de quem o toma é dependente. Eu até sempre brinco dizendo que ‘não sou traficante e o medicamento não é ilícito’, e portanto não vai gerar dependência química”, comentou Alessandra Pereira, membro da ABP e diretora de eventos da Associação Amazonense de Psiquiatria (AAP).

A psiquiatra Alessandra Pereira é diretora de eventos da Associação Amazonense de Psiquiatria (AAP) e membro da associação nacional (ABP) / Foto: Facebook

A médica frisa que o principal componente que faz com que uma pessoa retarde o diagnóstico e o tratamento da psicofobia é o estigma, “que faz com que ela não queira ser rotulada como portadora de transtorno mental, consequentemente como doido, e que a sua família também não queira ter uma pessoa rotulada em casa”.

Ou seja: nem o próprio paciente se aceita como portador de transtorno mental, e nem a sua família, e isso gera retardo. “Segundo estudos, demora-se uma média de três anos para a pessoa com transtorno mental chegar a um consultório de atendimento médico especializado e adequado para tratamento daquela patologia”, explica a psiquiatra.

Frase

"A pessoa com transtorno mental é considerada louca, mas há diversos transtornos mentais que não configuram loucura, como depressão e ansiedade” 

Alessandra Pereira, psiquiatra e diretora de eventos da Associação Amazonense de Psiquiatria (AAP)

Palavras soavam como agressão, diz paciente

A professora   amazonense *Maria Santos, 51, é uma vítima de psicofobia. Em tratamento desde 2013 contra ansiedade e depressão, ela conta que qualquer palavra contra seu transtorno soa como agressão.

“A grande maioria das pessoas têm preconceito e acham que a depressão e a ansiedade facilmente se resolvem como se troca de roupa. Fiquei sem coragem de sair de casa. Não cuidava da aparência e nem de falar com as pessoas. Me isolava”, disse ela.

A entrada na menopausa, o estresse em sala de aula, o insucesso numa aposentadoria e mais problemas com a saúde de familiares contribuíram para a ansiedade e a depressão de Maria, que hoje vê melhorias no seu quadro. “Com o tratamento eu já consigo ir a um supermercado e fazer atividades físicas”.

*Nome fictício a pedida da entrevistada 

Campanha contra a Psicofobia

A Campanha contra a Psicofobia é considerada um grande sucesso no Brasil e no Mundo, divulgou a Associação Brasileira de Psiquiatria. Esse ano a campanha apresenta vídeos com frases reais que foram enviados por pacientes para as redes sociais da entidade, falando o que eles escutam quando contam sobre seus transtornos - as frases são interpretadas por atores.

No último dia 12 de abril foi realizado o lançamento oficial do teaser da campanha, com a ação entrando nas redes sociais e no site da ABP quatro dias depois. "Você, associado, pode participar nossa campanha compartilhando em suas redes sociais as mensagens contra a Psicofobia orientando a população sobre os efeitos do estigma. Todos sofrem com esse estigma, o paciente, o psiquiatra e a nossa especialidade", destaca a associação em suas mídias sociais.

Esse ano a campanha recebeu o apoio do Twitter que compartilhou o vídeo teaser em seu perfil no Twitter e em menos de 12 horas foram mais de 16 mil visualizações na plataforma.

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Alessandra Pereira, Psiquiatra

“Nós precisamos entender a psicofobia dentro do seu contexto histórico. Se formos observar como a sociedade vivia e lidava com pessoas com transtornos mentais eram em situações de isolamento, onde essas pessoas eram mandadas para manicômios, hospícios, com uso de camisas de força e eletrochoques e de maneira antiquada, e num contexto onde os hospitais psiquiátricos eram muitas vezes usados como castigo ou pena para quem era considerado subversivo, sem serem necessariamente loucas. A partir do momento onde pela primeira vez houve o medicamento antipsicótico em 1952 que começou a mudar a história natural  da loucura, da doença, a sociedade começou a ter que se adaptar a aceitar as pessoas, portadoras de transtorno mental, dentro do seu contexto social. Só que os ganhos que temos em relação às políticas públicas dos transtornos mentais são muito recentes. No Brasil só em 2001 que viemos ter uma lei federal dos portadores dos transtornos mentais, que redirecionou o modelo assistência, e mudou os rumos da política de saúde mental. E só agora em 2017 que começamos um novo tempo, onde as políticas defasadas foram revistas e estão sendo resstruturadas sob uma nova ótica. O que faz a psicofobia é a desinformação, a falta de informação é fundamental nesse processo e por isso é tão importante levarmos para todas as pessoas informações sobre as doenças e sobre os medicamentos. Qual o pensamento social? É que a pessoa que tem um transtorno mental é louca, e na verdade temos diversos transtornos mentais que não configuram loucura, como depressão e ansiedade, que são os mais comuns. Mas temos outros critérios. E em relação aos medicamentos há um preconceito muito grande de quem o toma é dependente.  Eu até sempre brinco dizendo que  não sou traficante e o medicamento não é ilícito, e portanto não vai gerar dependência química. Essa imagem distorcida sobre os pacientes psiquátricos serem todos loucos, e de que o médico psiquiatra só trata loucos, tambén é uma visão que se passa pro médico. É comum nós, psiquiatras, sofrermos bullyng dentro da profissão, entre os próprios colegas, por tratarmos de transtornos mentais. Essa segregação social existe dentro da sua própria casa, dentro do convívio social, e a sociedade precisa reavaliar o quanto é importante, além dos cuidados físicos, que precisamos alinhar o bem estar físico com o bem estar mental".

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