Preocupação

Vacinação completa está abaixo de 39% em mais da metade dos municípios amazonenses

Dificuldades de logística e negacionismo são os principais desafios apontados por secretários de saúde

Waldick Júnior
11/12/2021 às 12:16.
Atualizado em 08/03/2022 às 19:49

(Marcely Gomes / Semcom)

Mais da metade dos municípios (34) amazonenses está com o esquema vacinal completo abaixo de 39% para a população total. O dado é do vacinômetro oficial da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) e preocupa por ser considerado baixo, em especial no contexto de alerta para a nova variante Ômicron.

Na lista dos que estão com o melhor índice total aparecem Silves (76,7%), Manaus (62%) e Itapiranga (59,7%). No posto contrário, com as menores taxas de imunização, estão Maraã (22,1%), Ipixuna (20,6%) e Guajará (16,1%).

Os dados acima se referem ao chamado ‘esquema vacinal completo’, que é a soma da população que tomou as duas doses da vacina mais a dose única da fabricante Janssen. Nessa base, o Amazonas está com 51,5% da população total imunizada (incluindo quem pode e quem não pode se vacinar).

“Os nossos municípios não estão com uma cobertura adequada que seria de, no mínimo, 75%, e ideal de 90%. Por isso você viu esses mutirões de vacina que estão fazendo no estado”, comenta Izabel Nascimento, coordenadora do Programa Estadual de Imunização (PNI), da FVS-AM.

Em alerta aos dados baixos da vacina, o governo do Amazonas iniciou na quarta-feira uma megavacinação em todos os 62 municípios do Amazonas que pretende aumentar em 20% a taxa de imunização do estado. A campanha tem o apoio do Ministério da Saúde, Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e prefeituras e deve durar 60 dias.

Zonas rurais

Segundo a coordenadora do PNI, a zona urbana dos municípios está “relativamente bem” na vacinação, no entanto, o problema tem se concentrado nas áreas rurais, especialmente de comunidades ribeirinhas ou de difícil localidade.

Não à toa, o município com a taxa mais baixa de cobertura vacinal, Guajará (16,1%) é um dos mais distantes da capital. Está a 1,6 mil km em linha reta e fica localizado no ‘canto’ do Estado, na fronteira com o Acre. A zona urbana fica na margem do rio Juruá, mas todo o território do município soma mais de 7 milhões de km².

Dados desatualizados

No site da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-RCP) há duas planilhas de vacinação. A primeira tem como fonte o Programa Nacional de Imunizações (SIPNI) e é considerada a mais desatualizada.

“Essa planilha nacional é por onde somos avaliados, mas é a mais complexa para preencher. Exige muitos dados dos vacinados e os municípios têm muita dificuldade para realizar esse trabalho por conta do precário sinal de internet”, explica Izabel.

A segunda planilha tem como base as secretarias municipais de saúde dos municípios e é considerada a mais próxima da realidade. Ainda assim, também sofre atrasos nas atualizações.

A reportagem conversou com Aislan Ruela, secretário de Saúde de Codajás. A planilha da FVS-AM aponta que a vacinação completa no município está em 23,3%, no entanto, segundo ele, está desatualizada. “Na quinta-feira, nós realizamos uma ação de vacinação. Esse dado é o último que passamos, há umas duas semanas”, conta.

Cobertura necessária

A orientação do Ministério da Saúde para a vacinação é a meta mínima de 75% da população totalmente imunizada. Dos 62 municípios do Estado, somente Silves (76,7%) alcançou esse objetivo até o momento. A médica infectologista Ana Galdina atua na fronte da pandemia desde o início e esclarece a preocupação com esse dado.

“Estamos entrando em um período de síndromes respiratórias na região e vamos ter aumento de casos de covid-19 por ser um vírus respiratório. Além disso, as pessoas relaxaram com as máscaras e o álcool em gel”, comenta.

A preocupação é que o Amazonas fique travado em baixas porcentagens da vacina e tenha dificuldades para realizar uma cobertura vacinal da população que freie de uma vez o vírus.

Na quinta-feira, o TCE-AM decidiu que irá auditar a vacinação contra a covid no Amazonas. O Estado ocupa a 22ª colocação nacional. Os membros da corte se mostram preocupados com a possível estagnação no ciclo vacinal da população.

Negacionismo e distâncias

A reportagem procurou secretários municipais para entender os motivos pelos quais a taxa de imunização no interior está em baixa. Boa parte deles ressaltou dois desafios: o negacionismo e a as distâncias no território.

“Temos grande dificuldade porque algumas pessoas estão recusando a vacina. Já aconteceu de viajarmos 8h de barco até uma comunidade, chegar lá e ninguém querer tomar”, diz João Batista, secretário de Saúde de Beruri, município com 26,3% da população vacinada.

Ele conta que as doses disponíveis são suficientes para imunizar toda a população do município, mas a rejeição está alta.

Em Borba, com taxa de 32,7%, apresenta uma dificuldade na mobilidade dentro do município.  “Enfrentamos desafios na logística para chegar até a área rural e também no armazenamento das doses, que precisam estar em uma  temperatura adequada”, conta Ângela Gonçalves, secretária de Saúde.

Outro ponto levantado para a baixa adesão é a sensação de fim da pandemia. Essa percepção é sentida em Codajás, conta o titular da pasta da Saúde. “O município teve poucos óbitos e nosso último caso registrado foi há duas semanas. As pessoas acabam não considerando a gravidade da pandemia”, diz.

A antropóloga Iraildes Caldas desenvolve estudos em populações da Amazônia, em especial com mulheres e indígenas e faz uma análise acerca do negacionismo na região. “Está muito ligado à religião, principalmente a igrejas evangélicas. As pessoas tendem a ouvir muito os pastores nesses lugares, o que não tem a ver com a Bíblia. É que esse discurso da igreja por vezes se funde à política e ecoa o que pensa, por exemplo, o presidente [Jair Bolsonaro]”, comenta, se referindo ao comportamento negacionista do chefe do Executivo.

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