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ARTE

Artista indígena Duhigó participa de mostra internacional no interior de São Paulo

Com obras que destacam sua inocência, Duhigó foi selecionada para evento em Piracicaba; ela concorreu com outros 583 artistas brasileiros 27/08/2018 às 20:39 - Atualizado em 28/08/2018 às 06:59
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(Fotos: Junio Mattos)
Tiago Melo Manaus (AM)

Duhigó, na língua Tukano, significa ‘primogênita’, ou seja, a primeira da família. Por coincidência do destino, Duhigó é também a primeira artista indígena amazonense a participar da Bienal Naïfs, em Piracicaba. Representando o Amazonas, a artista de 61 anos participará do evento internacional, realizado pelo Sesc São Paulo, com dois quadros, ambos produzidos em 2017.

Segundo ela, as obras selecionadas destacam a inocência e a energia de sua ancestralidade. Não é para menos. A bienal, criada em 1992, tem o intuito de privilegiar a participação de artistas cujas obras revelam a produção de arte ingênua, espontânea, instintiva, popular, naïf (do francês, ‘inocente’), concebidas, em sua maioria, de forma autodidata.

“É um processo difícil, buscar das memórias do passado, da minha infância na aldeia com meus pais e avós, a inspiração certa para compor as obras. Às vezes busco nos livros e na vida de outros artistas, a inspiração necessária. Mas só eu sei o que eu passei, só eu sei da minha história e como transmitir isso através da minha arte”, explicou Duhigó.

Composta por bordados, desenhos, esculturas, gravuras, pinturas, vídeos, entre outras técnicas, produzidas por 121 artistas, de 21 estados do país, a 14ª edição da mostra começou em 18 de agosto a 25 de novembro, sob o tema "Daquilo que Escapa".

Vale ressaltar que Duhigó foi selecionada com duas obras, entre 583 artistas brasileiros que concorreram à rigorosa seleção. “As obras são pinturas em acrílica sobre tela com o título ‘Maloca Tuyuka’, que traz uma lembrança ancestral das malocas dos índios Tuyukas da região do Alto Rio Negro, e ‘Imirõm – Pequeno Cacuri’, que narra uma cena de pesca com o objeto indígena Cacuri”, afirmou a diretora-presidente do Instituto Dirson Costa de Arte e Cultura da Amazônia, Aidalina Nascimento.

Aprendizado

Foi neste Instituto, em 2003, que Duhigó, que nasceu na aldeia Paricachoeira, no município de São Gabriel da Cachoeira, e se mudou para Manaus aos 18 anos, teve o primeiro contato com a arte da pintura.

No local, além de aprender a pintar, a artista teve aulas de como cuidar de sua carreira, estabeleceu contatos profissionais e teve a oportunidade de levar sua obra para o resto do Brasil e do mundo, tornando-se a primeira indígena Tukano a se profissionalizar nas artes visuais.

Para ela, que já havia sido agraciada com o primeiro lugar no Salão de Artes da Marinha, no ano passado, a seleção foi uma surpresa, mas também a certeza de que os temas indígenas e amazônicos estão sendo respeitados e valorizados no olhar nacional.

“Eu fico feliz de ter sido selecionada porque o que eu pinto não existe mais e acho que as pessoas estão finalmente aprendendo a dar valor à cultura indígena. Até mesmo o índio da nova geração precisa dar mais valor à sua cultura e parar de renegar suas origens. Uma grande fonte de aprendizado pra mim, por exemplo, seria conversar com meu pai que ainda mora lá em São Gabriel da Cachoeira e resgatar todo esse conhecimento antigo”, concluiu a artista Duhigó.

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