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CINEMA

Documentário sobre projeto de Henry Ford na Amazônia é tema de debate na França

Marcos Colón assina a direção, roteiro e produção de “Beyond Fordlândia”. Evento em Paris conta com a presença dos professores Marilene Corrêa e Marcus Barros 24/01/2018 às 14:31 - Atualizado em 24/01/2018 às 15:30
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Fotos: Divulgação e Arquivo AC
Tiago Melo Manaus (AM)

Lançado originalmente em Manaus em setembro do ano passado, o documentário “Beyond Fordlândia”, escrito, dirigido e produzido por Marcos Colón, será exibido hoje no Anfiteatro François Furet, da École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. O evento contará com uma mesa redonda de debates sobre a temática “Amazônia Contemporânea” com a presença dos professores doutores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Marilene Corrêa e Marcus Barros, além do próprio Colón. 

Apresentando uma Amazônia atual devastada, o documentário aborda a trajetória do projeto do empresário estadunidense Henry Ford na Amazônia, mais especificamente no Oeste do Pará. Em 1927, ele criou uma cidade, Fordlândia, e outra depois, Belterra, no coração da selva para o plantio da seringueira, da qual se extrai o látex, importante produto para a indústria automobilística Ford. O filme também mostra o avanço do plantio de soja na região nas últimas décadas, processo do qual o empresário foi pioneiro nos anos 30.

Para Colón, a importância do documentário ser exibido internacionalmente vem justamente da necessidade de se expor o cenário atual da floresta para o mundo todo. “Minha expectativa é de que a Amazônia ganhe mais visibilidade no cenário internacional, de forma que questões latentes, como o desrespeito à floresta, ao homem e à sociedade venham à luz. A importância de estar neste espaço tão privilegiado aqui na França é que ela permite dar visibilidade a essas agruras enfrentadas pela região de forma que traga uma reflexão de fora para dentro do País”, afirmou o autor do filme.

Segundo ele, a diferença da recepção do filme entre o público brasileiro e o público estrangeiro é muito grande. Nas palavras de Colón, o estrangeiro, sobretudo o europeu, ainda possui uma visão de colonizador, segundo a qual a Amazônia é um lugar mítico e grandioso, uma espécie de paraíso, ou, para citar o escritor e historiador Euclides da Cunha, é um “paraíso perdido”. 

“Ao vê-la em seu estado atual, dilapidada, eles se sentem impactados. Existe um interesse no europeu de salvar esse espaço. Diferentemente do brasileiro, onde o que nós temos é uma negligência de olhar para o espaço, um verdadeiro analfabetismo. O brasileiro tende a pensar que o maior vilão da Amazônia são os capitais estrangeiros. No filme, advogamos que não, que na realidade são os nacionais”, comentou. 

Contribuição do filme

De acordo com o diretor, o objetivo do filme é expor o impacto sobre as pessoas das experiências nocivas dos enclaves capitalistas e de que forma a ausência de projetos nacionais para a região Norte e a opção por políticas predatórias de exploração de recursos naturais tem sido o maior infrator dentro da região.

“O filme busca sublinhar a tensão permanente entre a política de ocupação econômica da Amazônia e a dependência geradora de expectativa de um progresso que nunca chega. E isso se faz através das vozes das vítimas, que são os agricultores, a população ribeirinha, o homem amazônico. São os governos os responsáveis pelos impactos no ecossistema amazônico”, explicou Colón.

Ainda conforme o diretor, a atual situação da Amazônia pode ser comparada ao problema de gestão da segurança pública no Rio de Janeiro. “A Amazônia está ocupada por quadrilhas cujo grande negócio não é a droga, mas sim a natureza e o homem. Aqui acontece uma violência lenta bem debaixo dos nossos olhos e não nos damos conta. E eu pergunto, como ser crítico de algo que não enxergo?”.

Carreira internacional

O documentário “Beyond Fordlândia” está se fazendo notar entre os aficionados do cinema documental. O resultado de três premiações sucessivas é prova disso. Recentemente, o filme foi selecionado para o Green Image Film Festival de Tokyo, além de ter agenda confirmada para exibição no 8º Fórum Mundial da Água, em Brasília, e em Universidades e Centros Culturais de diversas cidades dos Estados Unidos e Europa, durante o primeiro semestre deste ano. Em 2017, o filme foi premiado no Festival de Cinema Ambiental de Cabo Verde e de Barcelona.

Novos projetos

Com vários projetos em andamento, Colón destaca dois deles. O primeiro é um filme, já em andamento, que segue a mesma narrativa de “Beyond Fordlândia”, cuja ideia é filmar o “inimigo”. O segundo projeto, intitulado “Amazônia Modernista”, está sendo desenvolvido em parceria com a Ufam, por meio da professora Marilene Corrêa, e trata-se de um documentário mapeando alguns pensadores e pensamentos amazônicos.

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