Domingo, 29 de Março de 2020
PUBLICAÇÃO BARÉ

Livro sobre verbetes ribeirinhos do Amazonas concorre a prêmio nacional

A obra ‘Fala Beiradão’ reúne expressões usadas em diferentes comunidades ribeirinhas do Amazonas



1510845_B577504C-5698-4D8E-8EA6-2EFF3D6FD836.JPG Ao visitar as comunidades do interior, Emerson Munduruku começou a notar uma pluralidade linguística de cada uma delas. Foto: Bruno Kelly/FAS
30/08/2019 às 11:41

Nas comunidades próximas ao rio Mariepaua, situadas no município de Novo Aripuanã, a água que surge da terra após o período da seca é chamada de xororo. Paxiba!, diria algum indivíduo bem-humorado da comunidade indígena Kambeba, na zona ribeirinha de Manaus, caso observasse o fenômeno – a expressão é equivalente ao popular “tá legal”.

Trata-se de exemplos da linguagem típica das populações tradicionais do Amazonas, reunidos no livro “Fala Beiradão: registro e valorização da linguagem ribeirinha do Amazonas”, organizado pelo biólogo e arte-educador Emerson Munduruku. O lançamento oficial do volume deve ocorrer após o resultado do Prêmio Rodrigo 2019, ao qual o projeto concorre. Promovida pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), é considerada a maior premiação do setor no Brasil. O resultado deve ser divulgado no dia 5 de setembro.



A ideia do “Fala Beiradão” surgiu quando Emerson ministrava oficinas do projeto Inceturita, do qual é coordenador e que integra o Programa de Educação e Saúde (PES) da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), realizadas semanalmente com jovens de 40 comunidades. Durante os encontros, ele começou a notar uma pluralidade linguística, cujos elementos, ao mesmo tempo, se constituíam como específicos de cada localidade.

“As comunidades são lugares que têm formas de linguagem diferentes entre si e da cidade”, observa. “Decidimos olhar para a riqueza desses espaços”. A partir de então, Emerson propôs aos alunos uma investigação sobre o significado dos termos que revelam a identidade e os processos de cada população.

“É um barato quando eles se questionam sobre esses termos, até então restritos à fala. Também incentivamos que os jovens fizessem o registro dessas palavras e como elas são aplicadas no dia a dia”, acrescentou. Em março do ano passado, Emerson iniciou o trabalho de pesquisa desse vocabulário. Da colaboração de 150 autores – os próprios alunos – resultou o dicionário com 180 páginas e sessenta verbetes. Posteriormente, foram acrescidas à obra informações de cada Unidade de Conservação (UC), além de cenários, imagens e mapas detalhando o local de origem das palavras.

Na opinião do organizador, o dicionário pode ser considerado um complemento ao “Amazonês: expressões e termos usados no Amazonas”, compilação feita pelo professor Sérgio Freire, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). “É o primeiro livro protagonizado por jovens ribeirinhos”, sintetiza o organizador, referindo-se ao fruto da parceria com seus aprendizes.

Ideia do dicionário surgiu durante trabalhos no ‘Inceturita’

O Projeto Inceturita (abreviação de “Incentivo à Leitura e Escrita”) é uma das iniciativas desenvolvidas no Programa de Educação e Saúde (PES). Criado em 2012 pela Fundação Amazonas Sustentável (FAS), o programa implementa um conjunto de projetos para promover o acesso à educação de qualidade, formação profissionalizante e atenção básica de saúde nas Unidades de Conservação (UC) onde atua.

O programa tem apoio da Samsung do Brasil e Bradesco, e todas as ações estão alinhadas com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas (ONU) relacionados à erradicação da fome, saúde de qualidade, educação de qualidade, água limpa e saneamento, inovação e infraestrutura, redução das desigualdades, vida sobre a terra e parceria pelas metas. A Fundação Amazonas Sustentável atua em dezesseis Unidades de Conservação (UCs) do Estado.

Estreitar o contato

Emerson considera a pesquisa uma tentativa de estreitar o contato da metrópole com a cultura nativa e promover questionamentos sobre a preservação da floresta. “Manaus conhece muito pouco o interior. A população tende a ficar na cidade, e essas linguagens e histórias acabam passando batidas”.

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Repórter de Cidades
Formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Além de A Crítica, já atuou em uma variedade de assessorias de imprensa e jornais, com ênfase na cobertura de Cidades e Cultura.

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