Expressões artísticas

Música, grafite e cinema: união da arte e do ativismo

'Artivistas' amazonenses transformam trabalho em luta pelas causas sociais e políticas

Gabrielly Gentil
16/01/2022 às 15:39.
Atualizado em 08/03/2022 às 16:09

A arte e o ativismo estão presentes em união no dia a dia de artistas amazonenses que se posicionam de maneira direta ou indireta sobre temas sociais e políticos; seja através do grafite, da música, do audiovisual ou de diversas outras formas de manifestações artísticas. O termo ‘artivismo’ pode representar muito bem as pessoas e/ou coletivos que operam a arte como ferramenta para chamar atenção de causas sociais importantes, como é o caso da cantora indígena Djuena Tikuna, do compositor e músico Paulinho Du Sagrado, do grafiteiro Raiz Campos e do cineasta Zeudi Souza.

Cantora do povo Tikuna

A cantora, jornalista e ativista indígena Djuena Tikuna canta a cultura do seu povo, mantendo viva a sua história; um canto de luta e resistência. São mais de dez anos de carreira, na qual a artista Tikuna chama atenção para a causa dos povos indígenas. Ela lançou o primeiro disco (Tchautchiuãne – Minha aldeia) num evento histórico, exclusivamente indígena em 2017, no Teatro Amazonas; lugar que se transformou em uma grande maloca com uma plateia de indígenas e parceiros da causa. O protagonismo de Tikuna ao defender os direitos do seu povo tornou-se, desde então, ainda mais evidente.

“Esse mundo é nossa aldeia. Então os ‘artivistas’ se reconhecem e sabem que é necessário criar redes que favoreçam a luta dos que tem na arte uma ferramenta de transformação social. Por isso sigo construindo parcerias na minha arte, lembrando que a luta dos povos indígenas é uma luta de todos nós, pois ela diz respeito à saúde da vida na Terra e ao futuro da humanidade”, destaca Tikuna, que em breve lançará um novo trabalho intitulado Torü Wiyaegü (Nossa Música) contemplado no edital da Natura Musical; o projeto é composto por um documentário, um livro e um álbum sobre a música tradicional e contemporânea do povo Tikuna.

Toadas como porta-voz

“A Consciência Negra, A Bela arte Negra, A Ciência Negra, A Ascensão dos Negros” esse é o trecho inicial da toada “Consciência Negra” escrita por um dos mais renomados compositores do Boi Garantido, Paulinho Du Sagrado. De acordo com ele, essa canção, assim como muitas outras de sua autoria, tem o papel de ser porta-voz na manifestação das classes sociais que lutam constantemente para adquirirem seus espaços no conceito sócio-político-cultural.

“Temos o exemplo da toada de minha autoria intitulada ‘Consciência Negra’,  que foi selecionada pra participar do projeto da Fundação Roberto Marinho da Rede Globo, nas escolas de ensino fundamental e médio em todo território Nacional. O negro não pode ser julgado pela cor da sua pele, e sim pelo grau do seu conhecimento intelectual”, enfatiza Paulinho, que está a finalizar as toadas para o projeto do boi-bumbá Garantido 2022. “Firmando um compromisso sério com as pessoas que admiram o meu trabalho em manter um padrão de qualidade”, destaca.

Mensagens em grafites

O grafiteiro Raiz Campos transforma a sua arte em algo que vai além dos traços, cores e formas. O artista visual busca, acima de tudo, sempre passar uma mensagem por meio de seus grafites, que são trabalhos inspirados na cultura amazônica com destaque para a preservação do meio ambiente e defesa dos povos indígenas. Raiz têm trabalhos ligados ao ativismo social, cultural e ambiental, entre os mais recentes está o mural que fez no Centro Cultural dos Povos da Amazônia, na Bola da Suframa, em homenagem a líder indígena Vanda Ortega, que atuou na linha de frente no combate a Covid-19, no Parque das Tribos, em Manaus.

“Eu tô sempre usando a minha arte pra essas causas maiores, que é a preservação da nossa região, do Amazonas, esse estado belíssimo, rico, que era pra ser bem mais cuidado, bem mais preservado, melhor dividido, melhor explorado. Uso a arte pra defesa dos povos indígenas, povos originários que já estavam aqui antes da invasão acontecer e são tratados como povos secundários; eles merecem reparo e total educação, assim como os povos negros, quilombolas e as grandes minorias” ressalta Raiz.

Projetos futuros

O artista visual Raiz Campos planeja uma ação de valorização e divulgação que será realizada em breve, com os indígenas Uaiuais, no estado de Roraima, onde eles trabalham com a castanha da Amazônia.

Outro projeto de Raiz em andamento é em parceria com a Unicef e o projeto Cáritas, de levar arte e saúde por meio de instalações de pias e grafites em espaços públicos.

Ativismo audiovisual

O cineasta amazonense Zeudi Souza busca sempre comunicar algo a alguém em suas produções que chamam atenção para temas relevantes na sociedade; é o caso do  filme ‘O Buraco’ dirigido por ele, no qual retrata a violência doméstica. Para ele “A arte sempre foi ativista, desde que arte é arte, ela sempre está nos mostrando algo que nos faz refletir. Quando eu realizo um filme ou escrevo um texto, busco nessa interação uma comunicação universal que de alguma forma impacta quem tem contato com a obra, ninguém sai incólume ou indiferente a uma obra de arte, seja ela qual for”, destaca Souza, que também acredita que o filme cumpre um papel de denúncia.

 “Vivemos em um país que vive a cultura da violência impregnada no seio familiar, e quase nunca queremos nos dá conta da existência desse mau; quando percebemos enquanto sociedade muita das vezes é tarde. O número de mulheres espancadas, assassinadas e silenciadas é muito grande, e o filme cumpre um papel de denúncia. No lançamento do filme recebi inúmeras mensagens de varias partes do Brasil e do mundo, e, em algum momento alguém se via como um dos personagens; e isso é assustador”, comenta.

O cineasta Zeudi atualmente está empenhado em dois projetos: o longa ‘Babete’ e o longa Doc sobre a vida e obra de David Assayag, ambos em processo de escrita.

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