Segunda-feira, 18 de Novembro de 2019
ARTES PLÁSTICAS

Quadros de Rui Machado ilustram revista da Academia Amazonense de Letras

Pela primeira vez em sua carreira, o artista plástico Rui Machado ilustra a capa, contracapa e miolo da revista da Academia Amazonense de Letras (AAL)



zbv0120-002F.JPG Foto: Jair Araújo
20/12/2017 às 05:30

São 35 anos dedicados à arte. Durante esse tempo publicou inúmeros trabalhos em diferentes meios. E neste mês, pela primeira vez em sua carreira, o artista plástico Rui Machado ilustra a capa, contracapa e miolo de uma revista da Academia Amazonense de Letras (AAL). A  edição de nº36 da publicação será a que vai contar com o talento de Rui.

Com sentimentos de gratidão, o também poeta amazonense vê a publicação definida na palavra “honra”, pois em 2018 a AAL comemorará o Centenário e, para ele, ter obras ilustrando um dos periódicos anuais da entidade é uma menção honrosa. “A revista estará durante todos os festejos do centenário. A próxima só vai ser lançada em dezembro do ano que vem, então nesses festejos estarei lá com meus trabalhos expostos”, disse. 



Os quadros que ilustram a revista são todos do acervo pessoal de Rui. O da capa, por exemplo, foi pintado em 1987 e é uma das peças que decoram a casa do artista. A pintura feita em óleo sobre tela chama-se ‘Extinção’. Segundo Machado é um alerta para a violência que o ser humano vem cometendo contra a Amazônia. “A figura da onça decapitada e a cabeça enfiada num pedaço pau, e os olhos vivos e abertos simboliza que sempre há uma esperança de não acabarmos com a vida, a fauna. A mancha de sangue demonstra a violência e a agressão que os povos da Amazônia vêm sofrendo. Esse quadro é um alerta de 1987 e que continua atual”, explica Rui. 

No editorial, a presidente da AAL, Rosa Brito escreveu: “A Revista da AAL traz em seu bojo extraordinário portfólio composto por pinturas com temáticas amazônicas e humanas de traços fortes e inconfundíveis do artista plástico Rui Machado que, como diz Nélida Piñon “revela, com esmero, sentimentos intensos. Uma humanidade, enfim, filiada ao amor pelo mundo, pelos reclamos da terra. A arte é a sua voz. Como a sumaúma, Rui Machado brada, comunica, defende, protege, reparte com todos a seiva que retira da vida...”, escreveu.

E por falar nisso, a publicação reúne na seção portfólio três textos que falam sobre a arte de Rui escritos por  Nélida Piñon, Márcio Souza e Moacir Andrade. O texto de Moacir Andrade é inédito, jamais publicado anteriormente e foi escrito à mão pelo poeta em 2009 e entregue de presente a Rui. “O Moacir é um dos artistas que mais admiro. Foi ele quem me fez a apresentação da minha primeira exposição em 1982, no Teatro Amazonas. O Márcio Souza, que além de ser  membro da AAL é um dos escritores mais promissores do nosso Estado. Eu gosto muito dele e o texto está muito bonito. O outro texto que ganhei de presente foi da Nélida Piñon. Fiquei muito lisonjeado”, comenta Rui Machado.  

Abaixo os textos dos escritores:

BLOG: Nélida Piñon - escritora e membro da Academia Brasileira de Letras

O RIBEIRINHO

Rui Machado, nasceu no Amazonas, descende de portugueses e tem inscrito em seu sangue a navegação. Seu ofício é singrar as irresistíveis correntezas da arte. Seu talento se manifesta na poesia, na música, na ilustração, mas tem na pintura sua expressão máxima. Com tintas e telas seu pincel é a ponta de lança do que lhe vai na alma. Sua temática envolve a floresta, os rios, a face e a herança dos povos indígenas. Por meio dos utensílios do cotidiano, dos artefatos de guerra, dos brinquedos dos curumins, dos elementos sagrados dos rituais, Rui revela, com esmero, sentimentos intensos. Uma humanidade, enfim, filiada ao amor pelo mundo, pelos reclamos da terra.

A arte é a sua voz. Como a sumaúma, Rui Machado brada, comunica, defende, protege, reparte com todos a seiva que retira da vida, sua causa maior. E cuida, com memória atenta, a natureza e os registros dos povos da floresta. Tudo em sua criação anseia por perpetuar uma história que urge ser constantemente relembrada.

Tenho, em minha casa, no Rio de Janeiro, uma tela de sua coleção “Sabor & Arte”, presente do artista, onde ele conjuga grafismo e peças indígenas com o respeitável universo da culinária. Esse quadro de bela composição, cujas cores e imaginação me comovem, está dependurado na porta de entrada da cozinha, lugar essencial do meu lar. Afinal há muito digo que a cozinha é o mundo mais fascinante da casa, o mais coletivo. Um espaço que reúne sobrevivência, prazer, refinamento e civilização. Assim, tendo em vista sua arte como introito da vida, homenageio o trabalho de Rui. Dou prova do meu alto apreço pela delicada cerâmica indígena completada pelas colheres de pau, preciosos emblemas que agasalham a fome dos seres.

BLOG: Moacir Andrade - artista plástico, escritor e imortal da Academia Amazonense de Letras (Faleceu em 27 de julho de 2016)

RUI MACHADO – UM GÊNIO

Quando o vi pela primeira vez, isso há mais de 20 anos, Rui Machado era ainda um garoto cheio de energia, persistência, dinamismo, e uma  vontade incrível de vencer como um autêntico artista. Suas obras, cheias de erudição, invadem e dominam o nosso sentimento estético de uma admiração emotiva. Basta ver um de seus quadros que escolhido ao acaso dentre os que compõem sua mostra para verificar que não se trata de um simples amador, tomado de vulgar ânsia de um efêmero artista enleiando-se aos círculos viciosos das controvérsias ociosas dos nossos falsos pintores.

Rui Machado é, sobretudo um espírito honesto e atilado, ao serviço da criatividade, da curiosidade vivíssima. Os temas que ele consagra em suas telas são variados e interessantes, postos em relevos por notável capacidade de análise. O que torna a beleza de suas obras segura erudição, fácil e até superiormente agradável aos nossos olhos. De uma criatividade surpreendente, Rui Machado arranca do seu poderoso inconsciente, todo um universo de belezas plásticas que tornam o nosso patrimônio cultural mais rico e mais brilhante cada vez que ele se propõe a brindar o público com suas mostras espetaculares. Rui Machado demonstra ser um gênio e isso pode ser provado a cada vez que ele exibe uma das facetas do seu poder criador.

Homem de ciência, sua dedicação as belas coisas da vida elevaram-no aos píncaros da admiração do povo do Amazonas e do Brasil. De fácil  comunicação, esse artista atrai para si, todos os eflúvios que o tornam um ícone da cultura planiciária, espargindo sobre todos nós, o milagre batismal de sua alma generosa e boa. Por ser um artista rico de imaginação e inspirações inéditas e mesmo insólitas, Rui desperta a todos que o amam, essa emoção divina que é a empatia estética e profundamente humana.

Todos os seus quadros iluminados pela benção de sua inteligência privilegiada, até hoje demonstram na unidade de seu espirito, a profusa variedade de tons e de luzes, de ideias e de sentimentos. Rui Machado, é talvez por isso, único pela exuberância e latitude ampla de irradiação. Por ser grande e exageradamente impulsivo, por ser completo, ele se metamorfoseia nessa figura imponente e iluminada de um verdadeiro profeta e missionário abençoado das artes brasileiras.

Rui Machado é uma voz talvez mais autorizada no sentido de criatividade. Ele vive como os gênios, inserido num estado de espírito coletivo, quando a nossa arte parece isolar-se inteiramente, tornar-se incomunicável a grande massa e a grande realidade brasileira. É um pintor diferente; de expressão plástica mais acurada, mais espiritual, muito cuidada e elegante como são também seus gestos cavalheirescos e profundamente nobres.

Rui Machado é hoje um dos artistas mais puros do Brasil. A força límpida, segura, sem jaça de uma pureza de tons, a elegância de suas imagens, a densidade de seus traços, a segurança dos ritmos que ele impõe a sua obra, a humildade santificada, constituem a força expressiva e comunicativa de sua mente iluminada, imaginação vivaz, faz de sua obra opulenta uma voz colorida que ecoa profundamente na mente do povo, como um bálsamo vivificante de ternura e amor.

Escritor, poeta, pintor, bancário e companheiro no sentido lato da palavra, Rui Machado é essa brisa perfumada que inebria os momentos mais humanos dos que com ele convivem.

BLOG: Márcio Souza - romancista e membro da Academia Amazonense de Letras

 A EXPRESSÃO PRIMEVA DE RUI MACHADO. 

As artes visuais criadas no Amazonas sempre primaram pela diversidade de formas de expressão, pela invenção técnica e estética visionária. Rui Machado é um dos representantes desta diversidade, no tratamento da imagística regional e no grafismo quase cubista de suas telas. Sua aproximação com a visualidade amazônica é de rigorosa coerência com uma percepção própria que é a sua individualidade, de sua formação visual de homem da Amazônia. Agora que chega a maturidade de sua criação, tem se distanciado dos temas ecológicos e políticos e começa a palmilhar uma arte de invenção gráfica, bidimensional, de blocos de cor que se organizam na tela, em pinceladas que espargem a cor com delicadas pinceladas.

Na verdade, quanto mais evolui Rui Machado, aprofunda a captura do mundo amazônico que é seu horizonte, distanciando-se da ingenuidade graciosa de suas telas mais antigas. Creio que isto é consequência da precoce descoberta do desenho indígena, do grafismo que são na verdade ideogramas comuns nas culturas do alto Rio Negro, norte amazônico. É a herança do reencontro de todos os nativos da Amazônia com seu universo primevo, em que o mundo pode ser reduzido e às linhas, convergências e fugas. 

Assim, Rui Machado encanta porque sua busca de artista não vem de escolas, nem da lógica antropológica, de nenhum nicho teórico, mas de sua vivência e sua criteriosa percepção do inconsciente amazônico materializado nas linhas das cestarias, nas decorações das cerâmicas utilitárias e nas pinturas corporais. Menos nos momentos em que quer ser explicito, como na tela em que um pajé aspira a América do Sul como se fosse paricá, a força da arte de Rui Machado está no território do grafismo étnico apropriado como expressão artística, na singela brutalidade das cores e na inexorabilidade das linhas e massas de luz. A força de Rui Machado está na sua coerência, no amor que expressa à cultura de sua terra e na paixão que reflete em suas telas. 


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.