Quarta-feira, 21 de Abril de 2021
Brasil no Oscar

Por mãos brasileiras: Julia Rodrigues integra equipe de curta indicado ao Oscar 2021

Em entrevista exclusiva para A CRÍTICA, a artista de storyboard fala sobre o processo de produção do curta e momentos da infância vividos em Manaus



julia_rodrigues_animadora_oscar_2021_01D116C8-B205-4FE3-83CF-0929BABD95E9.jpg Foto: Arquivo Pessoal
04/04/2021 às 20:33

Com menos de um mês para a cerimônia da premiação mais importante do cinema, não vai ser esse ano que o Brasil levará a estatueta do Oscar para casa. A última vez que o País teve uma indicação foi no ano passado, quando "Democracia em Vertigem", da cineasta brasileira Petra Costa,foi indicado a "Melhor Documentário".

Apesar do Brasil não ter sido indicado a nenhuma categoria no Oscar 2021, o País não deixou de ser representado na premiação. A artista de storyboard Julia Gomes Rodrigues, de 25 anos, está na equipe de animação do curta-metragem da Netflix, "Se Algo Acontecer... Te Amo" (“If anything happens I love you”). A produção, que conta a história de um casal que perdeu sua filha e vive um declínio no casamento, é a mais cotada a vencer na categoria de "Melhor Curta-Metragem em Animação" deste ano.



Julia Rodrigues compõe um time de três mulheres responsáveis pela animação do curta. Em entrevista exclusiva a A CRÍTICA, Julia conta qual é a sensação de fazer parte de uma produção que teve tamanho reconhecimento internacionalmente.

"Tenho muito orgulho de fazer parte do filme. Tive muita sorte também porque pude trabalhar com outras duas animadoras que são minhas amigas e colegas da CalArts [Instituto de Artes da Califórnia]. Não só somos mulheres, mas somos todas estrangeiras: elas são coreanas. Nós vivemos experiências parecidas, então foi sempre fácil de se conectar.Todos tinham uma voz no filme e todos se ajudavam. Foi um time pequeno, mas todos deram o seu máximo para produzir esse filme, então fiquei muito feliz quando vi a indicação ao Oscar", alega a animadora.

Julia é a única brasileira a compor a equipe | Foto: Arquivo Pessoal

A artista conta também que, geralmente, as animações que ganham destaque são as produzidas por grandes estúdios como Pixar, por exemplo. Porém nos últimos anos, Julia observa que a Academia tem dado mais espaço para produções independentes, como a produção brasileira "O Menino e o Mundo" - indicada a “Melhor Animação” em 2016.

"Geralmente as pessoas veem animação como algo mais infantil, então achei incrível ver como um curta animado conseguiu se conectar com um público tão grande. Espero que as pessoas estejam mais abertas a explorar as possibilidades de histórias que uma animação pode contar. É bom ver que o Oscar está reconhecendo mais filmes de produções independentes do que apenas de grandes estúdios. Todos os anos aparecem mais curtas independentes e acho que é um incentivo grande para mais pessoas investirem em seus próprios curtas", destaca Rodrigues.

Amazônia

Apesar de ter nascido em São Paulo, Julia possui familiares que moram em Manaus. Por conta de sua mãe ser bióloga, Rodrigues estava sempre acompanhando a mãe em suas viagens rumo a capital amazonense, para realizar algum trabalho ou pesquisa científica. A artista conta também que sente vontade de produzir animações inspiradas na Região Amazônica. Em seu perfil nas redes sociais, a maioria de seus desenhos são inspirados em animais e na natureza.

Ilustração da artista inspirada na floresta amazônica | Foto: Arquivo Pessoal

"Eu visitava Manaus muitas vezes quando criança! Eu tenho familiares pela cidade e adorava navegar pelo Rio Negro e a Floresta Amazônica. Espero poder voltar para explorar mais a natureza. Eu sempre quis fazer filmes animados inspirados pelas florestas no Brasil, e eu adoraria fazer algo relacionado ao Amazonas. Acho que algo que sempre vai estar presente no meu trabalho é a natureza, não importa de qual lugar. Tenho alguns projetos pessoais que faço no meu tempo livre, e alguns são inspirados e localizados no Brasil. Espero poder torná-los em curtas pessoais ou filmes no futuro", contou Rodrigues.

Adaptação no exterior

Residente nos Estados Unidos há mais de cinco anos, Julia conta que o principal desafio foi a adaptação cultural e a burocracia para conseguir emprego por ser estrangeira. O que ajudou, segundo ela, foi o fato da indústria da animação ser aberta a profissionais estrangeiros com histórias de vida diferentes.

"Eu me mudei para estudar na CalArts, uma faculdade de animação na Califórnia. Eu me formei há dois anos. Acho que as coisas mais difíceis de me adaptar foram com a língua e a comida daqui, ficar longe da minha família e amigos do Brasil. O tempo aqui é super seco, não chove e eu tenho muita saudades de chuva! E os desafios que eu tive começaram mais a partir da eleição de Trump e ter que lidar com toda a burocracia extra dos vistos de trabalho. É muito estressante procurar trabalho após a faculdade com o visto de estudante. Mas apesar disso, na minha faculdade havia muitos estudantes estrangeiros, então a gente está sempre ajudando uns aos outros, e a indústria de animação é bem aberta a nos contratar porque eles estão sempre procurando trabalhar com pessoas com histórias de vida diferentes", descreveu a artista.

Valorização do artista

Mesmo que para conseguir reconhecimento na indústria da animação, Julia precisou sair do Brasil. A animadora ressalta que os artistas brasileiros não precisam se mudar para os Estados Unidos para trabalhar com animação.

"Acho que o que eu posso dizer pra artistas brasileiros é que você não precisa vir para os EUA pra trabalhar em animação. Além de você conseguir trabalhar do Brasil para estúdios de fora, a indústria de animação brasileira está crescendo todo ano, até nesta pandemia. Você consegue encontrar milhares de informações online sobre como aprender a desenhar, cursos de animação, e até como entrar nessa indústria. A maioria dos profissionais de animação que eu conheço são sempre muito abertos e não se importam em responder perguntas, é bem fácil de se comunicar e trocar informação, especialmente com as redes sociais atuais", ressaltou a animadora.

Curta aborda um casal em declínio após perdar a filha | Foto: Reprodução

Trabalho em equipe

Julia Rodrigues acrescenta ainda que não é necessário ter equipamentos caros para ingressar na animação, basta apenas ter noções básicas de desenho e sempre buscar trocar conhecimentos ao trabalhar em grupo.

"Além disso, você não precisa ter produtos caros para começar, você pode aprender o essencial só com papel e lápis. Acho que ter uma base sólida é o mais importante em animação, não importa se é pra storyboard, design de personagem e cenário ou animação. Se você tem um desenho sólido você já está mais que meio caminho andado, e o resto é focar em qual área você se identifica mais. Não importa a área que você escolha, elas sempre se intercalam de um jeito ou de outro e quanto mais você sabe sobre diferentes áreas, melhor o seu trabalho será. Trabalhar em animação é trabalhar em grupo, e quanto mais você consegue ajudar o seu grupo, melhor", aconselhou Rodrigues.

Confira o trailer do curta indicado ao Oscar 2021:


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