Sábado, 24 de Agosto de 2019
ENTREVISTA

Fenômeno amazonense do remo, Ailson Eráclito fala do retorno aos treinos no Rio

Após “período sabático” em Manaus, o atleta retomou os treinamentos no Botafogo, na capital fluminense. O objetivo é chegar ao Pan-Americano, em Lima



WhatsApp_Image_2019-02-14_at_07.24.39_18218211-375F-4513-B038-867CB1D60684.jpeg Foto: Divulgação
17/02/2019 às 19:38

Em 123 anos de existência do  Botafogo de Futebol e Regatas, ninguém venceu mais do que o atleta amazonense de remo, Ailson Eráclito. Ailson, 31, deixou Manaus e chegou ao clube em 2009, dez anos atrás. Ele foi o primeiro a conquistar medalhas internacionais para o remo brasileiro, acumulou conquistas e, após um período difícil no ano passado, 2019 será para o ano da renovação de forças e de sonhos no esporte que sempre amou.

No currículo, Ailson traz títulos impressionantes: medalhista de prata e bronze no Campeonato Mundial Sub-23 de Remo, em 2009 e 2010; eleito o melhor remador brasileiro pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), em 2009; bronze na Copa do Mundo de Remo, em 2010; títulos Sul-Americanos, tendo sido campeão em 2010 e 2013, e medalhista de bronze em 2018 (cat. Sênior); campeão brasileiro nos anos 2010, 2013, 2014, 2016 e 2017, sempre pelo seu clube, o Botafogo, onde também foi campeão carioca, entre os anos de 2013 a 2017.

Todas essas conquistas chamaram a atenção da diretora e produtora de filmes inglesa, Lucy Walker, que fez um documentário sobre o atleta em 2013, chamado “Crooked Linhas”, “Por linhas tortas”, em tradução livre, que conta um pouco da história do jovem Ailson, que superou a pobreza e a distância dos grandes centros de treinamento para se tornar um grande nome do remo nacional. O atleta teve a oportunidade de conhecer o esporte através de um projeto social, liderado pelo professor Manasséh Barbosa, acreditou no sonho de se tornar um grande atleta, abriu as asas e voou – de Manaus ao Botafogo, no Rio, para o mundo – ficando de fora, porém, das Olímpiadas.

Nesta entrevista exclusiva ao CRAQUE, Ailson fala do momento que precisou ficar longe do esporte no ano passado, após a conquista de mais uma medalha em Sul-americanos; do seu retorno; da dificuldade de ficar longe da família de Manaus, e dos seus planos para o futuro. 

AC - Você conquistou muitas vitórias nos últimos anos. Como foi o seu ano de 2018? 

Ailson - Ano passado, fui terceiro colocado nos Jogos Sul-Americanos da Bolívia (cat. Sênior Dois Sem) e, depois dos Jogos, parei de remar, passei seis meses em Manaus, e só voltei agora em Janeiro para o Rio e vou brigar pra ir para o Pan-americano deste ano!

AC - E por que vou decidiu vir para Manaus e dar uma parada nos treinos?

Ailson - Parei mesmo, não fazia nada. Queria esquecer de esporte, dar um tempo. Daí passaram quatro meses, até que eu comecei a correr, mas bem devagar, e depois resolvi voltar. Meu treinador (Alexandre “Xoxo”, do Botafogo) me chamou de volta. Na verdade, desde quando eu parei, ele vem me chamando, mas eu queria dar um tempo, descansar.

AC - São muitos anos de dedicação ao esporte, né? Você acha que esse tempo fez bem para você, deu para voltar com ânimo à rotina?

Ailson - Sim, sim. Ano que vem faço vinte anos no remo e a volta sempre é difícil, mas voltei bem animado!

AC - Você falou que seu objetivo são os Jogos Pan-Americanos, no Peru, né? Quais as chances de você conseguir estar lá, e como é a rotina de treinamento?

Ailson - Até agora não tem nada definido de como vai ser. Tem a seletiva FIA, entre os dias 11 a 15 de abril, aqui no Rio, que também é o Brasileiro de barcos curtos, mas também não define nada para o Pan, então é treinar e esperar, e os treinos são todos os dias! Treino das 6h às 10h da manhã, eu começo sempre indo pra água, às 6h, depois tem um intervalo, e 9h30 tem o segundo treino, que pode ser na água, ergômetro, corrida ou bike e, à tarde, peso, que voltei a fazer agora, às segundas, quartas e sextas. E eu pedalo todos os dias. 

AC - O que sente ao relembrar tudo que já viveu no remo, acredita que, até aqui, valeu a pena toda a sua dedicação ao esporte?

Ailson - Quando parei (no ano passado) pensei nisso, relembrei tudo que fiz e que não fiz, e valeu a pena tudo. Sinto muita falta de casa, mas é bom demais fazer parte de uma história porque já faço parte da história do clube e do remo do país também. Conheci vários lugares, fiz e faço muitos amigos; tem as partes de dor, porque dói (risos), e também tem o sofrimento para estar no peso (da categoria), mas tudo está valendo, faz parte.

AC - Acredito que quase toda sua família mora em Manaus, então como é viver longe dela durante tanto tempo?

Ailson - Estou aqui (no Rio de janeiro) desde 2009, todos moram em Manaus, mas meu filho vive aqui no Rio, nasceu aqui, e meu outro filho mora em Manaus, e fica longe da família, então, todo dia dá vontade de ir embora. Fico dividido entre esporte e família, mas vou levando (risos). Aí, se vou embora deixo o remo e meu filho; e lá (Manaus) tem meu outro filho e família (risos), mas não tem o meu primeiro filho e o remo, então, vou administrando. Às vezes vou para Manaus, e quando não dá, eles vêm aqui. No dia 31 de março tem a primeira regata do Estadual, e dia 11 a 14 de abril, o Brasileiro de barcos curtos e seletiva Nacional, e no Estadual vou correr o ‘4 sem’, peso leve, e o ‘2 sem’, Sênior. As duas provas tem no Pan, são meu foco. 

AC - E você já teve algum apoio do Amazonas?

Ailson - Não. Se teve alguma coisa foi da detecção do remo. E quando vou passar um tempo em casa, eles sempre deixam eu treinar, mas do Estado, não que eu lembre. Por isso, fica difícil ficar, bem que eu queria treinar em Manaus sempre e ter um apoio. Se tivesse incentivo, o Estado seria o mundo do remo. O pessoal parece que nasceu para esse esporte. Tenho dois irmãos, e eles eram melhores do que eu, conheci muitos que pararam por falta de incentivo. Poderia ser diferente. No Botafogo, tem a ajuda de custo, almoço, café da manhã, jantar, e eu moro no clube. Também tem escola, faculdade, mas ainda não faço faculdade.

AC - Você pretende fazer faculdade? Qual seu plano para o futuro?

Ailson - Quero fazer faculdade e continuar no meu mundo, mundo do remo. 

AC - Você realmente conquistou muitas vitórias pelo Botafogo. Como se sente por fazer parte da história do clube e seguir sendo um dos principais atletas?

Ailson - Essa é uma resposta que não tenho. Não sei explicar, só sinto orgulho em começar tudo, e orgulho por ainda estar escrevendo essa história porque ela não acabou ainda.

Frase

“É difícil fazer esporte de altorrendimento, mas é gostoso estar nesse sofrimento”, Ailson Eráclito, atleta amazonense de remo, que representa o Botafogo (RJ) e o Brasil nas principais competições da modalidade, desde 2009.

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