Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
Copa do Mundo

Futebol Feminino mobiliza talentos de São Gabriel da Cachoeira

Mobilização para assistir a final da Copa Feminina juntou uma cidade inteira em torno da competição. Movimento é fruto de uma longa luta das mulheres para fazer o que amam: jogar futebol



sgc5_CCD82DE2-7B49-4427-9754-BACFCCBA6D1F.jpg Foto: Arquivo pessoal
07/07/2019 às 15:15

Durante da Copa do Mundo, a campanha ‘Jogue Como uma Garota’ mobilizou a torcida brasileira para acompanhar os jogos da Seleção Feminina na Copa do Mundo, como forma de incentivar o futebol feminino. Em São Gabriel da Cachoeira (distante a 852km de Manaus), as reuniões aconteceram em dois bares da cidade – Recanto do Gringo e Tio Jhon –, neste domingo, não será diferente: os moradores da cidade localizada no Alto Rio Negro, se juntaram para assistir a partida entre Holanda e Estados Unidos, que terminou com as americanas ganhando o título do Mundial. Para as mulheres do município ‘jogar como uma garota’ tem um significado diferente.

Antes da final da Copa do Mundo começar, as mulheres do Asa e do Graciliano entram em campo. Às 7h30 da manhã, no campo do Quirinão, elas jogam a 20ª rodada do primeiro turno do Campeonato Feminino de São Gabriel da Cachoeira. Pode parecer mais uma partida entre dois times de mulheres, mas jogar futebol simboliza a vitória de uma das lutas que foi iniciada em 2005. O município não possuía um campeonato para as mulheres e nem espaço para jogar as peladas.

“Presenciei uma época que as mulheres precisavam pular muro para jogar uma pelada, porque quando a gente pedia, era sempre não. Nunca tinha espaço para a gente brincar. Então começamos a nos unir para correr atrás de espaço e oportunidades para termos um torneio. E assim a gente foi fortalecendo a nossa luta”, relembra Erlange Figueiredo, coordenadora do Campeonato Feminino de São Gabriel.

As jogadoras acordam cedo no fim de semana para a disputa dos jogos do campeonato local (Foto: Arquivo Pessoal)

Entre discussões e muita persistência, o Campeonato finalmente saiu, mas apenas no ano de 2014. A ajuda veio quando Ednéia Teles, que fazia parte do movimento pelo futebol feminino do município assumiu a Secretaria Municipal de Esportes (Semjel). “Temos seis anos desde a legalização da existência do campeonato. Entre altos e baixos estamos no movimento e apoiando as mulheres”, conta Ednéia, que é embaixadora do movimento Jogue Como uma Garota no município. Hoje, o campeonato conta com 10 times que se dividem em duas chaves e jogam turno e returno. A edição de 2019 iniciou em abril e deve terminar apenas em dezembro. Apesar dos jogos começarem bem cedo – às 7h30 da manhã, o que, segundo Erlange ainda é uma luta para levar jogos para o ‘horário nobre’ – a torcida comparece para torcer pelos times.

“Antes o pessoal falava: eu lá vou acordar cedo para ver essas meninas. Tinha preconceito, ou piadinha com relação à sexualidade das meninas. Aquele comentário machista que as jogadoras eram machudas, ou que tinham que ficar na cozinha, mas hoje a realidade é diferente. Você chega 7h30, está cheio de gente esperando para ver os jogos e só tendo a melhorar. Tem homem que diz que vale a pena ir para os jogos das mulheres, que é emocionante. Então ouvir isso é emocionante, mas continuamos na luta de cada dia para melhorar o campeonato e dar visibilidade ao movimento”, comemora Erlange.

As mulheres trabalharam para arrumar o local de transmissão dos jogos (Foto: Arquivo Pessoal)

Com tantas garotas jogando futebol na cidade, os jogos do Mundial foi abraçado não apenas pelos times, mas pela cidade de São Gabriel que encheu dois bares oficiais para ver os jogos. Além da partida, houve bolão e decoração dos ambientes para entrar no clima da Copa. “Nesta Copa houve a mobilização com parceria dos donos dos bares que ajudaram na exibição dos jogos com telões e o futebol ganhou maior visibilidade não só aqui, mas no Brasil todo”, diz Teles. Segundo as organizadoras a aceitação foi tão grande que superou as expectativas.

 “A gente abraçou a causa da campanha e, na verdade, a gente não tinha uma expectativa de alcançar um público tão grande. Foi surpreendente porque não teve só mulheres, mas homens, crianças e famílias que iam assistir aos jogos e a gente pôde ter uma dimensão do quanto o futebol feminino cresceu não só no município, mas nacionalmente. Nós pudemos observar a repercussão que foi. As pessoas comentando aqui no município que com uma divulgação maior teriam enfeitado o comércio. Então foi um aprendizado para nós em questão de mobilização e visibilidade”, completou Erlange.

Impacto nos times

O Campeonato que começou com quatro times, hoje possui 10 equipes: Asa, Maf, Independente, Graciliano, Dabaru, São Gabriel, Juventude, Rio Negro, Atlético Amazonas e Nova União. O último é formado por mulheres mais experientes e surgiu da amizade entre Ednéia Teles, Jucilene Albuquerque e Priscila Lavareda. Lavareda, a atual presidente contou que o time de mamães tem feito sucesso no município.

“O nosso time é formado por mulheres e não meninas e, por causa disso, todo mundo achava que a gente não ia chegar a lugar nenhum e surpreendemos: ficamos em terceiro lugar. No início nosso time era para diversão, mas estamos mais competitivas e batendo de frente com os outros times”, relembra.

 Uma das mamães do time é a goleira Jucilene Cruz – que é da etnia Baré – que sempre jogou futebol, "pendurou as luvas" temporariamente, mas voltou aos campos para disputar os campeonatos da cidade. “Eu amo futebol desde o período da escola, mas casei, tive filhos e dei uma parada. Há quatro anos voltei a jogar para disputar os campeonatos do nosso município e estou há três anos no clube do Nova União”, conta a arqueira que enfatiza o apoio da família.

 “Tenho três torcedores fanáticos aqui na minha casa: meu marido, que me dá maior força, minha filha de 16 anos, que me acompanha em todos os jogos e também já está começando a jogar, e meu filho de 12 anos que está sempre comigo”, fala.

 Para Jucilene, acompanhar uma Copa do Mundo Feminina  pela primeira vez foi emocionante. “Foi muito bom ver a mulher sendo valorizada no mundo inteiro. Como mulher, foi um orgulho para mim. Mostramos para o Brasil e para o país inteiro que mulheres têm o mesmo potencial dos homens no futebol. E quero dizer também que mulheres indígenas amam jogar futebol. Como jogadora, me senti representada por elas (a Seleção Brasileira) porque eu amo futebol”, relata emocionada a arqueira, que também aproveitou para observar como se comportam as jogadoras de Seleção e usou alguns pontos para aprendizado.

“Como goleira aprendi que ter voz de comando é importante porque ajuda organizar o time nos posicionamentos que cada uma deve ficar”, concluiu.

De acordo com a presidente do Nova União, Priscila Lavareda, a procura de meninas pelos times aumentou com a Copa do Mundo. Ela também acredita que com a exibição do mundial, comentários preconceituosos em relação à modalidade devem diminuir.

“Desde a Copa, homens e mulheres estavam querendo saber mais sobre o time. Inclusive, tivemos que fazer um grupo de torcedores, pois a procura cresceu nas redes sociais. Os  grupos de WhatsApp ficaram mais movimentados por causa da Copa, as meninas queriam se tornar a nova Marta. Foi uma sensação indescritível, juntar as meninas e os times para assistir aos jogos e as novas meninas vendo como jogaram com raça é o que pode movê–las para serem atletas no futuro, que basta querer e procurar os meios. O esporte tira essas meninas de lugares que você nem imagina. Tira da prostituição, das drogas, de problemas particulares e abre outras portas para elas e enviei aquela última fala da Marta  (após o jogo contra a França)  para que elas possam se inspirar e lutar pelos sonhos dela”, completou.

Seleção

Com o trabalho do Campeonato, o futebol se fortaleceu no município e as categorias inferiores já começam a ser trabalhadas. De acordo com Erlange, já existem projetos para meninas a partir dos 10 anos. Eles preparam as futuras jogadoras até os 14 anos – idade mínima para entrar na competição do município, que tem mulheres de até 50 anos jogando.

O fortalecimento dos times também se refletiu na seleção do município. Com as festas de aniversários das cidades do interior, times dos municípios vizinhos são convidados para participar de torneios comemorativos e as seleções de São Gabriel eram convocadas. Antes do campeonato, o time feminino era saco de pancadas nas competições intermunicipais, mas a realidade mudou com o trabalho feito no município.

“Antes quando tinham esses convites, as meninas eram convocadas aleatoriamente e só queriam treinar duas semanas antes. Não tinha uma prática. Chegava os campeonatos, elas perdiam e voltavam sendo humilhadas porque não ganhavam nada, que não ia mais levar o time feminino porque só apanhavam e com este trabalho, os papéis se inverteram. Hoje elas representam bem e trazem títulos para o município”, conta Erlange.

Seleção Feminina de São Gabriel da Cachoeira virou uma potência nos campeonatos dos municípios vizinhos (Foto: Arquivo Pessoal)

Além de o trabalho ser reconhecido no interior, algumas dirigentes dos times locais já pensam além: em alcançar reconhecimento nacional para as atletas do time. Pelo menos este é um sonho que Priscila Lavareda, do Nova União, quer colocar em prática em breve.

“Deixei bem claro para todo mundo do time que vou tentar trazer atletas de São Gabriel para peneiras, para chegar ao futebol de nível estadual e, quem sabe, nacional. Isso é um sonho que eu quero realizar, ajudar essas meninas no futuro. Temos muitas meninas boas aqui e tenho certeza que elas vão crescer e se inspirar cada vez mais e lutar pelos sonhos dela”, confessou.

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