Maior lutadora baré da história do UFC, Ketlen 'Fenômeno' analisa as dificuldades enfrentadas pela lutadoras na dura trajetória rumo ao estrelato no MMA
(Foto: Divulgação )
O universo das lutas, majoritariamente formado por homens, encontra-se em processo de transformação com o grande crescimento da categoria feminina no MMA. No dia internacional da Mulher, o CRAQUE bateu um papo exclusivo com a maior amazonense da história das artes marciais mistas: Ketlen “Fenômeno” Vieira, atual 7ª colocada do peso-galo feminino no UFC.
A lutadora analisou as principais dificuldades, que complicam de forma gigantesca o sucesso das atletas na modalidade.
“Sei muito bem como é a realidade da categoria feminina no nosso esporte. Sempre que vou à Manaus, participando de palestras e em outros lugares também, a principal queixa das meninas que estão começando e até mesmo das mais experientes, é a falta de apoio. O patrocínio hoje pra nossa modalidade é muito escasso”, destacou a manauara, que recentemente ficou afastada das lutas durante um ano e nove meses por lesão no joelho, que necessitou ter tratada com uma cirurgia.
Vida da atleta feminina
A lutadora que figura no mais alto nível do MMA, também analisa a rotina de suas colegas de academia e das experiências que já viveu de perto. “Muitas mulheres que estão começando, a maioria se divide em treinos e trabalho. Fazem sacrifícios para estar ali aprendendo vários estilos de luta e ainda vão tirar seu sustento de outros lugares. É muito difícil alguém conseguir se manter de artes marciais no Brasil sendo atleta, ainda mais quando falamos das mulheres”, afirmou a amazonense sobre a polivalência necessária para superar as barreiras do cotidiano feminino nas artes marciais mistas.
Além disso, Ketlen também comentou a respeito da responsabilidade de mães atletas que conciliam o esporte com a dura missão de criar um filho - diversas vezes sem receber ajuda do lado paterno.
“É triste porque muitas acabam desistindo, precisam fazer a escolha entre ser mãe e ser atleta. A falta de apoio dificulta muito isso, a principal barreira é a falta de incentivo. Chega um determinado momento em que a mulher precisa tomar a decisão de viver do seu sonho ou sustentar a família”, disse a lutadora sobre as escolhas difíceis que as lutadoras precisam tomar, em diversos aspectos, que envolvem questões financeiras, emocionais e impactam diretamente em outras vidas.
‘Luta’ por valorização
Ketlen é conhecida como Fenômeno justamente por seu começo de carreira avassalador, com seis vitórias pré UFC e nenhuma derrota. Já na maior organização de MMA do mundo, são quatro vitórias consecutivas e uma derrota apenas. Mesmo esbanjando talento, a atleta sofreu as mesmas dificuldades que inúmeras atletas de Manaus e do Brasil como um todo.
“No início foi tudo muito difícil, as atletas não recebem aquilo que é condizente com o valor delas. Além de ter que correr atrás de eventos pra participar, os empresários muitas vezes pagavam em ingresso, conforme você vendia, você ganhava determinada quantia”, revelou sobre o cenário do MMA feminino quando estava dando seus primeiros passos no octógono - em 2014 -, e que permanece da mesma forma até hoje para quem não está nas grandes organizações.
“Meu primeiro grande patrocínio eu só consegui receber no ano passado, que é a Transire, uma empresa que me ajudou muito no momento em que mais precisei. Sou muito grata. Mas apesar de eu estar há quatro anos no UFC, só consegui isso recentemente”, declarou a peso-galo, que atualmente mora no Rio de Janeiro.
“Essas questões precisam mudar, nós precisamos ser valorizadas. Até mesmo a falta de divulgação influencia muito. São poucos os meios de comunicação que chegam comigo antes de uma luta. Precisamos mostrar que podemos dar visibilidade para as empresas que patrocinam”, desabafou.