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GUERREIRA

Trans quer fazer história no MMA: conheça a lutadora amazonense Anne Veriato

"Quero lutar com homem", afirma a atleta transgênero que vai estrear na edição 34 do Mr. Cage 11/02/2018 às 09:33 - Atualizado em 12/02/2018 às 09:30
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Anne Veriato está prestes a fazer história no esporte por ser uma mulher transgênero que vai lutar profissionalmente com um homem. Fotos: Winnetou Almeida
Jéssica Santos Manaus (AM)

“Lá vem a menina que luta com menino!”. Essa era uma das frases mais ouvidas pela lutadora Anne Veriato, representante da Academia Mc Comb, no bairro Cidade de Deus, Zona Leste de Manaus, durante suas lutas de jiu-jitsu. “Só vou saber meu potencial, se lutar com os homens”, afirma ela. Quem vê pode não compreender isso, mas vou contar um pouco da história de Anne, que é uma mulher transgênero, recém-contratada pelo evento de MMA Mr. Cage e que faz questão de lutar contra homens.

Anne era menino quando nasceu, mas ela se sentia uma menina e seus pais também percebiam isso. “Foi desde criança, foi natural. Meus pais viam como eu me comportava, das coisas que eu gostava, então, não precisei dizer nada porque eles já sabiam, e minha mãe começou a comprar roupas femininas, fez com que eu me sentisse bem, e tudo foi acontecendo”, relembra.

A feminilidade de Anne apareceu desde cedo e a sua paixão pelas lutas também. “Sempre gostei muito de luta, brincava com meu pai, brincava sozinha, e pedi pra minha mãe me colocar para fazer alguma arte marcial, então, ela procurou o jiu-jitsu e, depois que eu fui o primeiro dia, não queria nem voltar pra casa, acabou que passei a morar na academia!”, disse ela, que fala sobre a arte suave com brilho nos olhos.

Mudanças

Assim Anne começou a lutar, mas para ela o esporte nunca foi algo masculino e, sim, mais uma oportunidade para mostrar a vaidade. “Gostava de lutar, mas sempre vi a luta como uma mulher. Antes de treinar, sempre fazia meu cabelo”. Até que, após um bom tempo treinando, Anne deixou de frequentar a academia. “Fui pra casa da minha mãe, sumi um ano da academia, e quando eu voltei, já tinha tomado hormônios, o corpo foi evoluindo... Quando  voltei a treinar, ninguém me reconhecia mais”, conta ela. Foi a sua transformação. “Ela era um menino, mas se transformou porque viu que não era aquilo que ela era, mudou a personalidade”, disse Andréa Mc Comb, treinadora de jiu-jitsu de Anne, desde o seu início.

Anne evoluiu no esporte e começou a participar de lutas. “Competia sempre, e todos perguntavam: ‘Por que aquela menina tá lutando com aquele menino?’. Nós nunca falávamos, e, quando alguém me perguntava, eu falava: ‘porque eu gosto de lutar com homem!”, conta. 

Seus oponentes também ficavam confusos quando a viam no tatame e, segundo Anne, “eles achavam que iria ser mole, e eu ia lá e mostrava que eu treinava de verdade”, relembra.

Dessa forma, com a discussão que está acontecendo no Brasil e no mundo a respeito dos atletas transgêneros e transexuais no esporte, Anne possui opinião própria. “Até quando eu mudar meus documentos, tudo, vou continuar lutando com homem, poderia lutar com meninas, se entrasse com recurso, mas não quero, porque, se eu gosto de lutar, não vou saber se eu sou boa, se for lutar com uma mulher, não vai adiantar o meu treino, porque, com certeza, ela será mais fraca”, enfatiza. 

E os técnicos de Anne, Andréa Mc Comb e Thiago Cunha, concordam. “Ela é bem mais forte que uma mulher, é bruta. Ela sabe que a musculatura dela é de homem, e que seria uma covardia bater numa mulher”, admite Andréa. Thiago, que vem fazendo o treinamento de MMA com a atleta, também falou sobre a sua força. “Ela só treina com homens, então não vai ter dificuldade para lutar. Lutamos ali de 100 pra 100, se formos considerar a porcentagem de força, a dela é a mesma que a nossa. Ela é promissora para o Estado porque treina com atletas bem preparados”, destaca.

Mas Anne toma hormônios femininos e afirma que eles mexem com ela. “Eles mexem muito com o lado emocional, às vezes, tem dias que me sinto fraca, mas, como eu já faço tratamento há bastante tempo, acho que não terei muito problema. Sinto sensibilidade, quando batem (nos seios), eles ficam sensíveis, e esse é o único problema, mas o resto, eu levo numa boa”, afirma.

O MMA 

Anne entrou no mundo do MMA há pouco tempo, largou sua outra paixão, a dança, para se dedicar à luta, e acaba de assinar com o evento Mr. Cage. Ela vai estrear na edição 34 e  já tem oponente definido, o lutador Raílson Paixão (RCT – Coari). Ela  só pensa no combate. “O Samir (Nadaf, presidente do evento) abriu as portas pra mim, sem preconceito, fiquei muito feliz, e estou treinando forte pra lutar, pra representar bem minha academia”, ressalta ela, que sabe bem o que deseja no futuro. “Quero viver de luta. Quero me empenhar ao máximo, evoluir, ir lutar fora, e representar o Amazonas e o Brasil, e fazer todas as mudanças, que são essenciais”.

Caso da jogadora Tiffany

O caso da jogadora de vôlei Tifanny, a primeira mulher trans a atuar numa grande competição profissional do Brasil, a Superliga Feminina, vem sendo muito debatido no País por pessoas contra e a favor da sua inclusão na competição. Apesar das discussões sobre o assunto, a jogadora possui o respaldo do Comitê Olímpico Internacional (COI) para atuar nas competições femininas, por cumprir os requisitos estabelecidos em novembro de 2015. 

A entidade exige que mulheres trans se declarem do gênero feminino (reconhecimento civil) e tenham nível de testosterona inferior a 10 nmol/L por pelo menos 12 meses antes da estreia em competições femininas. Não há exigência de cirurgia de mudança de sexo. Para homens trans, não há exigência além do registro civil.

Seis lutas

Possui Fallon Fox, a primeira lutadora trans no MMA profissional. Foram cinco vitórias, sendo três por nocaute. Ela não luta desde 2014, após muitas críticas dos que acham injusto ela lutar com mulheres.

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