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Amazônia
MEIO AMBIENTE

Novos projetos do Inpa buscam popularizar o conhecimento científico sobre a Amazônia

Além de apostar no turismo científico, os projetos também tentam sensibilizar para a importância da conservação da Amazônia com imersão de um público variado no próprio bioma 17/07/2018 às 06:55
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Participantes interagem na procura de identificar espécies locais. Fotos: Junio Matos
Silane Souza Manaus (AM)

Não há melhor forma de conhecer a biodiversidade amazônica do que visitando a floresta. Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC) não tem dúvidas disso e estão aproveitando a enorme riqueza de fauna e flora existente neste ambiente para promover o desenvolvimento de pesquisa e capacitação científica. A ideia é fomentar iniciativas de popularização da ciência, de conservação do meio ambiente e valorização da cultura dos povos tradicionais, com atividades de turismo científico na Base Alto Cuieiras, localizada no Mosaico do Baixo Rio Negro (a três horas de lancha rápida de Manaus).

Os primeiros passos para colocar a proposta em prática foram dados nas últimas duas semanas, ocasião em que a unidade, inaugurada no dia 8 de maio deste ano, sediou o “1º Curso de Ilustração Científica – Desenhando Plantas e Bichos da Floresta” e o “Curso de História Natural”. As atividades foram promovidas pelo projeto Museu na Floresta, uma parceria do Inpa com a Universidade de Quioto (Japão).

O pesquisador do Inpa Alberto Vicentini explicou que o foco dos cursos que serão realizados na Base Alto Cuieiras não será apenas para estudante de mestrado, mas a sociedade de forma geral, que poderá participar de um processo de produção de conhecimento ao fazer as capacitações. “Isso é o que pressupõe o turismo científico, uma coisa que praticamente não existe no Amazonas, mas que estamos tentando entender para que seja implementada nessa região do rio Cuieiras”, apontou.

Para ele, o apoio dos visitantes na construção da base de conhecimento do lugar é o caminho para promover o desenvolvimento sustentável das comunidades e conhecer a biodiversidade amazônica. “Quem consegue entender como a ciência produz conhecimento pode aplicar isso no dia a dia e melhorar sua qualidade de vida e, acredito, que só vamos ter condições de conhecer a biodiversidade da Amazônia se trouxermos a ciência para o dia a dia das pessoas”, afirmou.

Mario Cohn-Haft, também pesquisador do Inpa, diz que uma pessoa não precisa ser acadêmica, cientista ou doutora para entender a natureza e muita gente paga a quem tem esse conhecimento para aprender mais sobre esse universo. Com os cursos promovidos pelo projeto Museu da Floresta, segundo ele, essa demanda pode ser atendida no Amazonas, Estado que tem um grande potencial para a exploração do turismo em virtude da beleza de suas florestas primárias preservadas. 

“O turismo de observação da natureza, por exemplo, que está começando a engatinhar na Amazônia brasileira, é uma das atividades fora de casa que mais movimenta dinheiro no mundo. Mais até mesmo que futebol. São bilhões de dólares por ano. Temos a maior biodiversidade do mundo. Por que as pessoas não estão vindo para cá? Simplesmente porque não estamos preparado para atender. Temos o desafio de fazer o setor privado reconhecer que tem uma oportunidade aqui. Promover esses cursos é uma forma de mostrar isso”, disse.

O custo do curso de ilustração foi R$  1 mil, por pessoa, que cobriu  transporte fluvial (a partir de Manaus), refeições no período  e acomodação na base. Foram selecionados cinco participantes de comunidades  para participação sem custo. Já a primeira edição do curso de História Natural foi gratuito.

Objetivo é aproximar o homem da natureza

O projeto Museu na Floresta, uma parceria do Inpa com a Universidade de Quioto, tem o objetivo de aproximar o homem da natureza e dá mais valor a essa interação. Quem evidencia é a pesquisadora  Rita Mesquita. 

De acordo com ela, que é coordenadora de Extensão do Inpa e vice-coordenadora do Museu na Floresta, a proposta do projeto é construir uma rede de estruturas e espaços que possam fazer essa mediação entre a experiência da visita aos ambientes naturais e também a educação e o conhecimento científico.

“Em vez de levar a Amazônia para dentro do museu, nós queremos é levar as pessoas para dentro da Amazônia. Buscamos, com este projeto, construir uma coexistência harmônica entre o ser humano e a natureza e talvez em poucos lugares do mundo isso seja tão essencial quanto aqui na região amazônica, então temos uma missão que deve orientar todas as nossas ações”.

Ela enfatizou  que uma das vertentes de atuação do é a “ciência cidadã”, que permite que qualquer cidadão comum possa contribuir com a construção do conhecimento científico. Um dos conceitos, conforme ela, é justamente aproximar a comunidade científica das populações que detém o conhecimento tradicional, da vivência junto com a floresta e os recursos naturais da Amazônia. 

A pesquisadora ressaltou que a “ciência cidadã” gera estruturas e plataformas que permitem que o cidadão contribua com suas observações, seu conhecimento e seus registros para a construção coletiva. “Isso é importante porque dilui um pouco a discussão sobre quem é o detentor do conhecimento. O detentor do conhecimento é a sociedade, uma vez que todos fazem essa construção”, apontou.

Comunitários do rio Cuieiras também participaram do curso

Para o agente ambiental voluntário Franciraldo Pereira de Oliveira, 24, morador da comunidade São Francisco do Solimõeszinho, no rio Negro, o aprendizado adquirido no curso de História Natural, que começou no último dia 1º e termina no domingo passado,  será fundamental para as iniciativas de conservação e preservação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Puranga Conquista. “Vou repassar o conhecimento que acumulei com as atividades para os outros jovens da região para que juntos possamos traçar novas estratégias de desenvolvimento sustentável das comunidades”, disse Franciraldo Pereira. 

O artesão Ezequiel Dinis Carvalho, 26, da comunidade Três Unidos, no rio Cuieiras, também pretende se apropriar do conhecimento proporcionado pelo projeto Museu na Floresta. Segundo ele, utilizará as técnicas que aprendeu no “1º  Curso de Ilustração Científica – Desenhando Plantas e Bichos da Floresta”, que ocorreu entre os dias 1º e 8 deste mês, para ganhar uma renda extra. “Ilustrar é uma atividade que eu pratico desde criança, mas tinha deixado um pouco de lado. Agora quero voltar a desenhar e disponibilizar as obras junto com os produtos de artesanato, que são vendidos aos turistas”, contou ele.

Experimentando novas áreas do  conhecimento

O desejo de mudar de carreira junto com a oportunidade de uma capacitação na nova área escolhida fez com que a ex-pesquisadora brasileira em biofísica Aline Faro, 34, viesse da Espanha, onde mora atualmente, ao Amazonas para participar do no “1º Curso de Ilustração Científica – Desenhando Plantas e Bichos da Floresta”. O interesse era tanto que ela foi a primeira pessoa a se inscrever no curso promovido pelo projeto Museu na Floresta. “Poder vivenciar essa experiência dentro da floresta amazônica é um sonho para qualquer ilustrador. Eu não poderia perder a oportunidade. Foi incrível”, comentou. 

Experiência extraordinária também foi vivida pela mestranda em botânica Tamires de Souza, 24, uma das participantes do curso de História Natural. Ela disse que teve oportunidade de entrar em contato com outras áreas que ainda não tinha tido nenhuma relação, o que acabou possibilitando novas descobertas e conhecimento. “Nunca tinha feito observação de aves ou visto as interações entre os bichos e a floresta onde vivem. Foi um ganho de experiência muito grande. Fora que conseguimos saber também o que está sendo pesquisado e descoberto pela ciência no momento”, disse.

Personagem

O “1º Curso de Ilustração Científica – Desenhando Plantas e Bichos da Floresta”, promovido pelo projeto Museu na Floresta, na Base Alto Cuieiras, foi a segunda capacitação na área que a professora e artista plástica Norma Hennemann, 64, fez. A experiência deste, porém, segundo ela, foi indescritível.

“Conheci a floresta amazônica, as belezas naturais do Amazonas e alguns comunitários da região. Tudo isso proporcionou um conhecimento tão grande a todos nós que participamos do curso, que jamais pensamos que pudéssemos ter. Volto para casa (no Rio Grande do Sul) com um sentimento de gratidão e com a experiência de ter ilustrado vários detalhes da fauna e flora local, que consegui observar nesta semana que passei na base”, revelou.

Participantes de várias regiões

Mais de 50 pessoas de diferentes áreas de atuação e estados do Brasil, dentre os quais Amazonas, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais, participaram dos dois primeiros cursos realizados na Base Alto Cuieiras, pelo projeto Museu na Floresta. As atividades aconteceram entre os dias 1º e 15 deste mês.

Ensinando e aprendendo sobre a região

O “1º Curso de Ilustração Científica – Desenhando Plantas e Bichos da Floresta” foi ministrado pela ilustradora científica Rosa Alves, autora dos primeiros cadernos de ilustração científica em língua portuguesa. Para ela, a experiência no meio da “selva amazônica” foi enriquecedora porque, além de ensinar aos participantes as técnicas de desenho, também pôde aprender muito sobre a natureza da Amazônia.

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